Manifestações de pesar pela morte de Khamenei em Teerão.
Manifestações de pesar pela morte de Khamenei em Teerão.EPA/ABEDIN TAHERKENAREH

Khamenei está morto. Quem vai mandar agora no Irão?

Após 37 anos no poder, morte do Guia Supremo mergulhou país na incerteza. Um Conselho de Liderança temporário assumiu o governo interino, mas cabe à Assembleia de Peritos escolher o seu sucessor.
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O ayatollah Ali Khamenei foi morto nos ataques de Israel e dos EUA contra o Irão. Quem era o Guia Supremo iraniano?

Nascido em 1939 em Mashhad, a segunda maior cidade do Irão, Khamenei cedo enveredou pela vida religiosa. Mais tarde, foi um dos discípulos do ayatollah Ruhollah Khomeini em Qom. E quando este voltou do exílio para liderar a Revolução Islâmica que derrubou o regime do xá Mohammad Reza Pahlavi, tornou-se numa figura-chave na Revolução Iraniana e confidente próximo do Guia Supremo. Durante a década em que Khomeini esteve no poder, Khamenei serviu como ministro da Defesa e depois supervisionou os Guardas da Revolução, antes de ser eleito presidente em 1981. Meses antes dessa eleição, sofreu um atentado que lhe deixou o braço direito paralisado. Com a morte de Khomeini, em 1989, Khamenei sucedeu-lhe como Guia Supremo, e desde então detinha a autoridade máxima sobre todos os ramos do governo, as forças armadas e o poder judiciário, ao mesmo tempo que atuava como líder espiritual do país. Apesar de o Irão ter um presidente eleito, o topo do poder é o Guia Supremo. Nos seus 37 anos de governo, Khamenei alimentou uma relação difícil com o Ocidente, enfrentando sanções e viu os iranianos saírem à rua em várias ocasiões em protestos contra questões económicas ou de direitos humanos. Para Khamenei, os EUA sempre foram "o inimigo número um" do Irão, com Israel logo atrás.

Com a sua morte, o que acontece agora?

Para já, foi formado um Conselho de Liderança temporário composto por três pessoas, de acordo com a lei da República Islâmica. Este inclui o presidente Masoud Pezeshkian, um reformista, o líder do poder judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei, da linha dura do regime, e ainda o jurista Alireza Arafi, membro do Conselho dos Guardiães do Irão e chefe da Basij, a poderosa força paramilitar dos Guardas da Revolução.

Mas quem vai escolher o novo Guia Supremo?

Enquanto este Conselho de Liderança temporário governa o país de forma interina, os 88 elementos que constituem a chamada Assembleia de Peritos vão escolher o novo líder. Segundo a lei iraniana, tal tem de acontecer o mais rapidamente possível. Em 1989, Khamenei foi anunciado como sucessor quase imediatamente após a morte de Khomeini. Esta Assembleia de Peritos é composta inteiramente por clérigos xiitas eleitos a cada oito anos e cujas candidaturas são aprovadas pelo Conselho dos Guardiães, órgão constitucional do Irão. Mas esse órgão tem um vasto historial de desqualificar candidatos às eleições iranianas, e em relação à Assembleia de Peritos também o tem feito. O Conselho dos Guardiães impediu, por exemplo, o ex-presidente Hassan Rohani, um moderado cujo governo assinou o acordo nuclear de 2015, de concorrer às eleições para a Assembleia de Peritos em março de 2024.

Então quem está melhor posicionado para ser o próximo Guia Supremo?

Até à sua morte, em 2024 num acidente de helicóptero, o ex-presidente conservador Ibrahim Raisi era considerado um dos favoritos. Outro nome de que se falou foi o de Mojtada Khamenei, um clérigo de 56 anos e filho do ayatollah Ali Khamenei, mas o próprio Guia Supremo já rejeitara que a liderança do país se viesse a tornar hereditária. O que também poderia irritar o povo. Com uma parte da liderança iraniana morta nos ataques israelitas e americanos, neste momento o futuro do regime permanece um enigma.

É possível uma mudança de regime?

Donald Trump deixou esse apelo ao povo iraniano, para que "assumissem o seu governo" e derrubassem um regime que desde o início do ano terá sido responsável pela morte de milhares de manifestantes nos protestos que começaram contra o aumento do custo de vida, mas depressa se viraram contra a liderança iraniana, e por muitas mais detenções. Nas ruas, nos últimos meses, gritou-se "morte a Khamenei", mas também "Javid Shah", ou "vida longa ao xá", e "Pahlavi vai voltar". Reza Pahlavi, de 65 anos, é o filho mais velho do último xá do Irão, que morreu no Egito um ano depois de a monarquia (mal-amada pelos iranianos, sobretudo a sua política secreta, a SAVAK, que durante anos reprimiu de forma brutal os dissidentes) ter sido derrubada pela Revolução Islâmica. Desde o exílio nos EUA, Pahlavi, que diz não querer restaurar a monarquia, tem sido um crítico do regime iraniano, defendendo um Irão democrático e secular. Reagindo no X à morte de Khamenei, Pahlavi escreve que "a República Islâmica chegou efetivamente ao fim e em breve será relegada para o caixote do lixo da história". E num recente artigo no Washington Post, reiterou estar pronto para liderar a transição no Irão.

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