Khamenei lidera o Irão desde 1989.
Khamenei lidera o Irão desde 1989.EPA/ABEDIN TAHERKENAREH

Ali Khamenei - o enigmático Guia Supremo que lidera o Irão

Ayatollah, de 86 anos, sucedeu a Khomeini em 1989. Alvo dos ataques dos EUA e Israel, já terá apontado sucessores, mas mantém tom desafiador apesar de garantir que não procura a bomba nuclear.
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Quando os mísseis israelitas e americanos começaram a cair este sábado de manhã em Teerão, vários atingiram uma área próxima ao palácio presidencial, localizado em Shemiran, na zona norte da capital do Irão, e outros caíram perto do complexo do ayatollah Ali Khamenei. Um responsável israelita ouvido pela Reuters confirmou que o líder supremo do Irão (bem como o presidente Masoud Pezeshkian) eram alvos dos ataques dos EUA e de Israel. A mesma agência cita fontes segundo as quais o Guia Supremo já teria deixado a capital e estaria em local seguro.

E no vídeo de oito minutos através do qual confirmou os ataques americanos contra o Irão, o presidente Donald Trump apelou claramente aos iranianos para derrubarem o regime.

Mas quem é afinal Ali Khamenei?

O homem que em 1989 sucedeu ao carismático ayatollah Ruhollah Khomeini, dez anos depois do regresso deste do exílio para encabeçar a Revolução Islâmica que derrubou o regime do Xá Mohammad Reza Pahlavi, pode liderar os destinos do Irão há quase quatro décadas mas continua a ser um enigma.

Nascido em 1939 em Mashhad, a segunda maior cidade do Irão, Khamenei cedo enveredou pela vida religiosa. Mais tarde, seria um dos discípulos de Khomeini em Qom.

De acordo com o seu site oficial, Khamenei terá sido preso seis vezes antes de ser exilado por três anos durante o reinado de Mohammad Reza Pahlavi. Khamenei tornar-se-ia numa figura-chave na Revolução Iraniana e confidente próximo de Khomeini.

Durante a década em que Khomeini esteve no poder, Khamenei serviu como ministro da Defesa e depois supervisionou os Guardas da Revolução, antes de ser eleito presidente em 1981. Meses antes dessa eleição, sofreu um atentado quando uma bomba escondida num gravador explodiu à sua frente, provocando danos nos seus pulmões, cordas vocais e deixando o seu braço direito paralisado.

Com a morte de Khomenei, em 1989, Khamenei sucedeu-lhe como Guia Supremo, apesar da oposição de alguns grandes ayatollahs. Desde então, detém a autoridade máxima sobre todos os ramos do governo, as forças armadas e o poder judiciário, ao mesmo tempo que atua como líder espiritual do país.

Cartaz em Teerão mostra Khamenei e Khomeini.
Cartaz em Teerão mostra Khamenei e Khomeini.EPA/ABEDIN TAHERKENAREH

Apesar de o Irão ter um presidente - atualmente o moderado Masoud Pezeshkian, que é eleito -, o topo do poder está no Guia Supremo. Por isso mesmo, é Khamenei quem comanda as forças armadas, a Guarda Revolucionária (sobretudo a poderosíssima milícia paramilitar de voluntários Basij) e supervisiona os meios de comunicação estatais. Como Guia Supremo tem ainda poder discricionário sobre como o país gasta as receitas de algumas das maiores reservas de petróleo do mundo.

Nos seus 37 anos de governo, Khamenei tem alimentado uma relação difícil com o Ocidente, enfrentando duras sanções e também já viu os iranianos saírem à rua em várias ocasiões em protestos contra questões económicas e de direitos humanos. Para Khamenei, os EUA são "o inimigo número um" do Irão, com Israel logo atrás.

Khamenei tem insistido que o Irão não tem qualquer intenção de construir uma arma nuclear e que o seu programa nuclear tem apenas fins civis. Nos últimos meses, e perante as ameaças dos EUA de novo ataque - depois da guerra de 12 dias de Israel em junho de 2025, acompanhada por ataques americanos que Trump garantiu terem "obliterado" a capacidade nuclear de Teerão - Khamenei manteve o tom de desafio, garantindo que este não ia "depor a República Islâmica". E ameaçou os EUA que uma intervenção no Irão significaria uma guerra regional.

O regime iraniano enfrentou em finais de 2025, início de 2026 uma nova vaga de protestos. Este começaram no bazar de Teerão contra o aumento do custo de vida, mas depressa se espalharam pelo país e passaram a ter o regime como alvo.

A violenta repressão conseguiu abafar o descontentamento - à custa de milhares de mortos e de muitas mais detenções - e o Irão e os EUA estavam atualmente envolvidos em negociações indiretas sobre o programa nuclear iraniano.

Onde quer que tenha passado os últimos dias, Khamenei sabe que é um alvo tanto para americanos como para israelitas - estes têm sido mais vocais a apelar à sua eliminação. E aos 86 anos, o ayatollah já terá nomeado três clérigos que lhe poderão suceder.

Normalmente, o processo de nomeação de um novo Guia Supremo poderia levar meses, com os clérigos a escolherem entre as suas próprias listas de nomes. Mas em junho passado, com o país em guerra, o ayatollah quis garantir uma transição rápida e ordenada e preservar o seu legado.

Segundo o New York Times, apesar de ter sido apontado como um possível sucessor, o seu filho Mojtada não estará na lista, mas o jornal americano não avançava quais os nomes que constariam desta. Até à sua morte, em 2024 num acidente de helicóptero, o ex-presidente conservador Ibrahim Raisi também era considerado um dos favoritos.

Nas ruas, nos últimos meses, tem-se gritado "morte a Khamenei", mas também "Javid Shah", que significa "vida longa ao xá", e "Pahlavi vai voltar". Reza Pahlavi, de 65 anos, é o filho mais velho de Mohammad Reza Pahlavi, o último xá do Irão, que morreu no Egito um ano depois de ter sido derrubado na revolução liderada pelo ayatollah Khomeini em 1979.

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Desde o exílio (tem vivido a maior parte do tempo nos EUA, depois de passagens iniciais pelo Egito e Marrocos), Pahlavi tem sido um crítico do regime iraniano, defendendo um Irão democrático e secular.

Não pretende restaurar a monarquia (em 2013, fundou o "Conselho Nacional do Irão por Eleições Livres"), mas para muitos da diáspora iraniana e da oposição tem um papel simbólico a desempenhar e pode ser um potencial líder durante a transição.

Para já, o paradeiro de Khamenei continua incerto. Ali Hashem, da Al Jazeera, afirmou este sábado que é claro que os ataques dos EUA e de Israel têm como "principal objetivo decapitar [a elite política]". Mas "ainda é muito cedo para dizer se isso foi bem-sucedido ou não."

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