Quando os mísseis israelitas e americanos começaram a cair este sábado de manhã em Teerão, vários atingiram uma área próxima ao palácio presidencial, localizado em Shemiran, na zona norte da capital do Irão, e outros caíram perto do complexo do ayatollah Ali Khamenei. Um responsável israelita ouvido pela Reuters confirmou que o líder supremo do Irão (bem como o presidente Masoud Pezeshkian) eram alvos dos ataques dos EUA e de Israel. A mesma agência cita fontes segundo as quais o Guia Supremo já teria deixado a capital e estaria em local seguro.E no vídeo de oito minutos através do qual confirmou os ataques americanos contra o Irão, o presidente Donald Trump apelou claramente aos iranianos para derrubarem o regime. Mas quem é afinal Ali Khamenei?O homem que em 1989 sucedeu ao carismático ayatollah Ruhollah Khomeini, dez anos depois do regresso deste do exílio para encabeçar a Revolução Islâmica que derrubou o regime do Xá Mohammad Reza Pahlavi, pode liderar os destinos do Irão há quase quatro décadas mas continua a ser um enigma. Nascido em 1939 em Mashhad, a segunda maior cidade do Irão, Khamenei cedo enveredou pela vida religiosa. Mais tarde, seria um dos discípulos de Khomeini em Qom. De acordo com o seu site oficial, Khamenei terá sido preso seis vezes antes de ser exilado por três anos durante o reinado de Mohammad Reza Pahlavi. Khamenei tornar-se-ia numa figura-chave na Revolução Iraniana e confidente próximo de Khomeini. Durante a década em que Khomeini esteve no poder, Khamenei serviu como ministro da Defesa e depois supervisionou os Guardas da Revolução, antes de ser eleito presidente em 1981. Meses antes dessa eleição, sofreu um atentado quando uma bomba escondida num gravador explodiu à sua frente, provocando danos nos seus pulmões, cordas vocais e deixando o seu braço direito paralisado. Com a morte de Khomenei, em 1989, Khamenei sucedeu-lhe como Guia Supremo, apesar da oposição de alguns grandes ayatollahs. Desde então, detém a autoridade máxima sobre todos os ramos do governo, as forças armadas e o poder judiciário, ao mesmo tempo que atua como líder espiritual do país. .Apesar de o Irão ter um presidente - atualmente o moderado Masoud Pezeshkian, que é eleito -, o topo do poder está no Guia Supremo. Por isso mesmo, é Khamenei quem comanda as forças armadas, a Guarda Revolucionária (sobretudo a poderosíssima milícia paramilitar de voluntários Basij) e supervisiona os meios de comunicação estatais. Como Guia Supremo tem ainda poder discricionário sobre como o país gasta as receitas de algumas das maiores reservas de petróleo do mundo.Nos seus 37 anos de governo, Khamenei tem alimentado uma relação difícil com o Ocidente, enfrentando duras sanções e também já viu os iranianos saírem à rua em várias ocasiões em protestos contra questões económicas e de direitos humanos. Para Khamenei, os EUA são "o inimigo número um" do Irão, com Israel logo atrás.Khamenei tem insistido que o Irão não tem qualquer intenção de construir uma arma nuclear e que o seu programa nuclear tem apenas fins civis. Nos últimos meses, e perante as ameaças dos EUA de novo ataque - depois da guerra de 12 dias de Israel em junho de 2025, acompanhada por ataques americanos que Trump garantiu terem "obliterado" a capacidade nuclear de Teerão - Khamenei manteve o tom de desafio, garantindo que este não ia "depor a República Islâmica". E ameaçou os EUA que uma intervenção no Irão significaria uma guerra regional.O regime iraniano enfrentou em finais de 2025, início de 2026 uma nova vaga de protestos. Este começaram no bazar de Teerão contra o aumento do custo de vida, mas depressa se espalharam pelo país e passaram a ter o regime como alvo. A violenta repressão conseguiu abafar o descontentamento - à custa de milhares de mortos e de muitas mais detenções - e o Irão e os EUA estavam atualmente envolvidos em negociações indiretas sobre o programa nuclear iraniano. Onde quer que tenha passado os últimos dias, Khamenei sabe que é um alvo tanto para americanos como para israelitas - estes têm sido mais vocais a apelar à sua eliminação. E aos 86 anos, o ayatollah já terá nomeado três clérigos que lhe poderão suceder. Normalmente, o processo de nomeação de um novo Guia Supremo poderia levar meses, com os clérigos a escolherem entre as suas próprias listas de nomes. Mas em junho passado, com o país em guerra, o ayatollah quis garantir uma transição rápida e ordenada e preservar o seu legado.Segundo o New York Times, apesar de ter sido apontado como um possível sucessor, o seu filho Mojtada não estará na lista, mas o jornal americano não avançava quais os nomes que constariam desta. Até à sua morte, em 2024 num acidente de helicóptero, o ex-presidente conservador Ibrahim Raisi também era considerado um dos favoritos. Nas ruas, nos últimos meses, tem-se gritado "morte a Khamenei", mas também "Javid Shah", que significa "vida longa ao xá", e "Pahlavi vai voltar". Reza Pahlavi, de 65 anos, é o filho mais velho de Mohammad Reza Pahlavi, o último xá do Irão, que morreu no Egito um ano depois de ter sido derrubado na revolução liderada pelo ayatollah Khomeini em 1979. .Quem é Reza Pahlavi, por quem os iranianos clamam nos protestos?.Desde o exílio (tem vivido a maior parte do tempo nos EUA, depois de passagens iniciais pelo Egito e Marrocos), Pahlavi tem sido um crítico do regime iraniano, defendendo um Irão democrático e secular.Não pretende restaurar a monarquia (em 2013, fundou o "Conselho Nacional do Irão por Eleições Livres"), mas para muitos da diáspora iraniana e da oposição tem um papel simbólico a desempenhar e pode ser um potencial líder durante a transição.Para já, o paradeiro de Khamenei continua incerto. Ali Hashem, da Al Jazeera, afirmou este sábado que é claro que os ataques dos EUA e de Israel têm como "principal objetivo decapitar [a elite política]". Mas "ainda é muito cedo para dizer se isso foi bem-sucedido ou não.".EUA e Israel lançam Operação Fúria Épica. Agência estatal iraniana fala em 53 mortos em escola de raparigas