Análise: as três fragilidades do Irão explicam momento para a guerra
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Análise: as três fragilidades do Irão explicam momento para a guerra

Israel e a América, sobretudo com Trump na Casa Branca, há muito estão decididas a acabar de vez com a ambição nuclear dos ayatollas. Mesmo com risco de uma escalada no Médio Oriente.
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Quando a revolta popular contra o xá se transformou no triunfo do ayatollah Khomeini, concretizado na proclamação da República Islâmica em fevereiro de 1979, esse novo Irão apontou o dedo de imediato a dois inimigos principais, os Estados Unidos e Israel. E nem mesmo a guerra de oito anos com o Iraque (1980-1988), que foi de sobrevivência para o regime mas também de construção de uma narrativa de resistência nacional, fez com que os grandes inimigos não se mantivessem os mesmos. A América não deixou de ser “o Grande Satã”, como o Estado Judaico continuou a ser “o pequeno Satã” nas palavras de ordem das manifestações ou nos grandes murais revolucionários. Aliás, o iraquiano Saddam Hussein era tido então, com certa lógica, como estando ao serviço dos inimigos da Revolução Iraniana.

Para as lideranças americana e israelita, frustradas pela perda do aliado que era o xá Reza Pahlavi, nunca houve grandes dúvidas da hostilidade de quem mandava em Teerão, e não falo dos presidentes, por vezes até moderados como Mohammed Khatami, mas sim dos guias supremos, desde 1989 Ali Khamenei, que sucedeu a Khomeini. Para os americanos, o sequestro da embaixada em Teerão ficou sempre na memória, enquanto para os israelitas as constantes ameaças de eliminação do Estado Judaico do mapa do Médio Oriente por figuras do regime foram sempre levadas muito a sério, até por corresponderem a uma ameaça real, via os grupos espalhados por vários países que atuam às ordens do Irão, sendo o Hezbollah libanês o mais célebre.

Por tudo isto, a mera possibilidade de o Irão estar a tentar desenvolver um arsenal nuclear gerou imediata reação. Em Israel, potência nuclear não assumida, a determinação de impedir o Irão de ter a bomba é partilhada nas altas esferas do país desde longa data. Nos Estados Unidos, se Barack Obama ainda assinou em 2015 um acordo limitativo a uso civil nos tempos de Hassan Rohani (outro presidente tido como moderado), já Donald Trump nunca confiou nas reais intenções iranianas e no seu primeiro mandato desistiu do acordo. Regressado à Casa Branca há um ano, já bombardeou uma primeira vez as instalações nucleares iranianas em junho de 2025 em apoio de Israel e agora voltou a dar ordens para atacar a República Islâmica, depois de uma tentativa de negociação que nunca pareceu destinada a ter sucesso.

Com o ataque americano-israelita a desencadear a retaliação iraniana, tanto contra Israel como contra países árabes que alojam bases americanas, a possibilidade de uma escalada no Médio Oriente é imensa. Ali, em doses várias e muitas combinadas, confluem o conflito israelo-árabe, o choque sunitas-xiitas, os separatismos ocasionais e a ameaça jihadista, também a questão petrolífera. Por isso o mundo olha com tanta atenção para o que se está a passar, e tantos são os apelos para o fim da guerra e o regresso à mesa das negociações.

Mas Trump, e também o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, sabem que risco de escalada existiria sempre quando houvesse uma ação de força contra o Irão. A diferença é que em 2026 os ayatollas enfrentam uma tripla fragilidade: o chamado Eixo da Resistência, do Hamas ao Hezbollah passando pelos hutis, está debilitado pela resposta israelita ao ataque de 7 de outubro de 2023 aos kibbutzs junto a Gaza; o país em junho de 2025 mostrou limitada capacidade de resposta aos ataques de Israel e da América, e as manifestações populares do início deste ano nas grandes cidades iranianas mostraram que existe um desejo de mudança na população, que só foi contrariado à custa de violência extrema do regime.

Qualquer conflito tem fim incerto e este não é exceção. E as consequências podem ser terríveis, desde logo a nível regional, se houver a tão temida escalada; e até serem sentidas a nível global, se as grandes rotas comerciais, desde logo a do estreito de Ormuz, petrolíferas, forem afetadas. Apesar de tudo isto, e das pressões várias, a atenção tem de estar na determinação, e nos meios, de quem está a lutar. E  sobretudo o que pesam as tais três fragilidades no momento da tomada de decisão de Khamenei e da liderança iraniana, se extremam a resistência ou se tentam salvar o que for possível. 

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