O Japão deu esta terça-feira (21 de abril) mais um passo na rutura com a sua política pacifista do pós-II Guerra Mundial, preocupado com a ameaça da China e a imprevisibilidade dos EUA. Depois de em 2014 ter introduzido a ideia de “autodefesa coletiva”, abrindo a porta a ajudar os aliados em caso de ataque (até então a força militar só podia ser usada em defesa própria) e de ter, desde então, aumentando anualmente o investimento em Defesa (quase 50 mil milhões de euros em 2026), o governo japonês anunciou agora o levantamento dos limites à exportação de armas. “Num ambiente de segurança cada vez mais severo, nenhum país consegue proteger sozinho a sua própria paz e segurança, sendo necessária a parceria entre países que se apoiam mutuamente em termos de equipamento de defesa”, escreveu numa mensagem no X a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, rejeitando a ideia de que o Japão está a virar costas ao pacifismo, inscrito na constituição de 1947 (que ela admite reformar).“Não há absolutamente nenhuma mudança no nosso compromisso de manter o caminho e os princípios fundamentais que temos seguido como nação amante da paz durante mais de 80 anos desde a guerra”, explicou, defendendo que “ao abrigo do novo sistema, promoveremos estrategicamente as transferências de equipamento, ao mesmo tempo que faremos julgamentos ainda mais rigorosos e cautelosos sobre a permissibilidade dessas transferências”.Até agora, as exportações de equipamento de defesa estavam limitadas às chamadas “cinco categorias” não-letais: resgate, transporte, vigilância, monitorização e material antiminas. Ou ao material (mesmo letal) desenvolvido em conjunto com os aliados, o que já tinha aberto as oportunidades à indústria de defesa japonesa (que agora poderá aumentar a escala e baixar os custos). Com esta nova alteração, é permitida a venda a 17 países com os quais o Japão tem acordo de defesa - como EUA, Austrália, Filipinas, Indonésia, Reino Unido, Alemanha ou Itália. Mas se os aliados aplaudem o Japão, numa altura em que as guerras na Ucrânia e no Irão estão a pressionar os stocks de munições em todo o mundo, há japoneses que não concordam e saíram à rua em protesto.E a China já veio condenar esta “militarização imprudente” e renovada de Takaichi (que nunca escondeu a antipatia para com Pequim). “A China continuará altamente vigilante e resolutamente contrária”, disse o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês. .China vs Japão: a história pesa muito.O anúncio surgiu numa altura em que o Japão participa nos exercícios militares dos EUA com as Filipinas perto de Taiwan, que Washington diz serem “os maiores de sempre” e incluem militares australianos, neozelandeses, franceses ou canadianos. Os japoneses participam pela primeira vez com 1400 combatentes e não apenas com observadores, estando previsto que usem um míssil de cruzeiro para afundar um navio.