Israel não esperou pelo fim do ultimato emitido pelo presidente dos Estados Unidos e decidiu atacar infraestruturas iranianas. As últimas horas foram marcadas por novas ameaças de Donald Trump e do seu vice J.D. Vance, ao ponto de alimentar especulações — entretanto desmentidas —sobre o possível uso de armas nucleares. O tom apocalíptico foi citado para os negociadores iranianos cortarem a comunicação direta com a parte norte-americana, embora isso não significasse o fim da tentativa de diálogo.Oito secções dos caminhos-de-ferro e pontes do Irão foram bombardeados pela força aérea israelita, assim como um complexo petroquímico em Shiraz, no sudoeste do país, na terça-feira, antes do fim do prazo dado pelo presidente dos Estados Unidos para se chegar a um acordo que inclua a livre navegação pelo estreito de Ormuz. Segundo as forças israelitas, “as passagens foram atingidas para impedir que as forças do regime as utilizassem para transferir equipamentos e armas”. Os ataques foram realizados em várias áreas do Irão, incluindo Teerão, Karaj, Tabriz, Qom e Kashan. Nesta última, pelo menos duas pessoas morreram. Em paralelo, um bombardeamento israelita destruiu uma sinagoga na capital iraniana. Num primeiro momento, o gabinete do primeiro-ministro declarou: “O Irão está a disparar mísseis contra civis, Israel está a atacar infraestruturas terroristas. Mísseis contra civis versus ataques de precisão a alvos terroristas. Essa é a diferença.” Mas, mais tarde, as forças de Israel admitiram que a sinagoga de Rafi Nyia foi um “dano colateral” de um bombardeamento que tinha como alvo um alto dirigente iraniano. Pela sua parte, os EUA atacaram alvos militares na ilha de Kharg. A ilha, ligada por um oleoduto ao continente, é um terminal pelo qual 90% do petróleo iraniano é exportado e tem havido especulação sobre planos de uma invasão norte-americana. À ameaça de Trump — “toda uma civilização morrerá esta noite, nunca mais poderá ser trazida de volta” —, o presidente iraniano Masoud Pezeshkian disse estar pronto a sacrificar a sua vida pelo país, tendo acrescentado que “mais de 14 milhões de iranianos orgulhosos” declararam a mesma disposição. Em paralelo, meios de comunicação estatais mostraram a formação de cadeias humanas sobre pontes e em torno de centrais elétricas visadas pelas ameaças do norte-americano. A mensagem teve ainda como consequência o fim das comunicações diretas entre norte-americanos e iranianos, embora os esforços diplomáticos tenham prosseguido, segundo oficiais do Paquistão, principal mediador..Irão rejeita cessar-fogo horas antes de expirar ultimato de Trump.O secretário-geral e o alto comissário para os direitos humanos das Nações Unidas relembraram que o ataque a civis e a infraestruturas civis são crimes de guerra. Enquanto António Guterres fez saber pelo porta-voz que “nenhum objetivo militar justifica a destruição em massa das infraestruturas civis”, Volker Türk condenou a “retórica incendiária” usada pelas partes beligerantes, mas em especial a ameaça de Trump de aniquilar uma civilização: “Repugnante”, considerou. No campo diplomático, o Conselho de Segurança das Nações Unidas voltou a mostrar os seus limites, com a Rússia e a China a usarem o direito de veto a uma resolução que visava reabrir o estreito de Ormuz. A resolução foi retocada várias vezes ao ponto de retirar qualquer menção ao uso da força, com o intuito que estes países se abstivessem, mas acabaram por deitar por terra a iniciativa. Nos EUA, o discurso cada vez mais extremado de Trump parece ter disparado os alarmes de alguns congressistas. Segundo a CNN, o líder da minoria democrata na Câmara dos Representantes, Hakeem Jeffries, está a liderar esforços para obter apoios suficientes entre os republicanos para aprovarem uma resolução que imponha o fim da operação militar.Irão diz que resgate foi outroNa guerra da propaganda, Teerão respondeu à conferência de imprensa da véspera com a sua versão. Na segunda-feira, Trump, ladeado pelo secretário da Guerra, pelo diretor da CIA e pelo chefe do Estado-Maior conjunto das forças armadas, apresentou o resgate de um aviador como uma operação nunca vista, e para a qual foram usadas 155 aeronaves, centenas de pessoas e alta tecnologia, ofuscando o impasse de uma guerra impopular, Pete Hegseth, John Ratcliffe e Dan Caine não pouparam elogios às capacidades de liderança de Trump, enquanto este alegou que os iranianos querem que os EUA continuem a bombardear o seu país. Na terça-feira, a estação televisiva em língua inglesa PressTV apresentou a versão iraniana do sucedido. Segundo Teerão, a operação não estava relacionada com o resgate de um aviador até porque os aviões C-130 aterraram na região de Isfahan, “perigosamente perto de uma central nuclear” e não onde o aviador do F15 estaria, na província de Boyer-Ahmad. Na versão iraniana, os EUA de facto puseram em curso uma operação de resgate de tropas especiais que ficaram sob fogo dos iranianos, impossibilitados de entrar na central nuclear. “Os norte-americanos enviaram de imediato várias aeronaves mais pequenas para extrair as suas forças, mal conseguindo reunir os indivíduos e retirá-los da situação mortal”, lê-se no site do canal iraniano. Na versão norte-americana, os aviões C-130 não conseguiram descolar devido à areia, pelo que os militares norte-americanos decidiram explodir com os próprios aviões. Para os iranianos, as aeronaves de transporte tinham sido atingidas, tal como dois helicópteros Blackhawk e MH-6 Little Bird que estariam dentro de um dos C-130, e não estavam em condições de voar. A versão coincide num ponto: foram os norte-americanos a reduzir a destroços as suas aeronaves.E aindaAtaque em IstambulUm tiroteio entre três suspeitos e a polícia, nas imediações do consulado israelita no bairro de Besiktas, em Istambul, resultou na morte de um dos atacantes, e em ferimentos nos outros dois e em dois polícias. Segundo o ministro do Interior turco, o homem morto tinha ligações a uma organização terrorista. O consulado de Israel está encerrado há dois anos e meio.Franceses libertadosOs cidadãos franceses Cécile Kohler e Jacques Paris, após três anos e meio presos no Irão, estão a caminho de França, anunciou Emmanuel Macron. Ambos foram condenados em outubro a pesadas penas de prisão por espionagem, mas foram libertados no mês seguinte, embora proibidos de deixar o país. Desde então, estavam alojados na embaixada de França em Teerão. A libertação foi mediada por Omã.Canel adverte EUAO presidente cubano acredita que, caso os Estados Unidos decidissem atacar o seu país, Havana defender-se-ia “com a participação de todo o povo”. Em entrevista à Newsweek, Miguel Díaz-Canel afirmou: “Esforçar-nos-emos sempre por evitar a guerra. Trabalharemos sempre pela paz. Mas, se ocorrer uma agressão militar, responderemos, lutaremos, defender-nos-emos.”Líbano: 1500 mortosOs ataques israelitas no Líbano mataram 1530 pessoas desde o início da guerra entre Israel e o Hezbollah, em 2 de março, segundo o mais recente balanço do Ministério da Saúde. Entre os falecidos contam-se 130 crianças e 57 membros do pessoal médico mortos. Contam-se ainda 4812 feridos.