O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, anunciou esta quinta-feira (9 de abril) ter autorizado “negociações de paz diretas” com o Líbano “o mais rapidamente possível” - mas sem um cessar-fogo. A ordem surge depois de alegadamente ter sido pressionado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, a reduzir os bombardeamentos contra alvos libaneses no meio de um frágil cessar-fogo entre os EUA e o Irão. Mais de 300 pessoas morreram nos ataques israelitas de quarta e quinta-feira (8 e 9 abril) no Líbano, segundo o Ministério da Saúde local.Washington e Teerão preparam-se também para se sentar à mesa de negociações em Islamabad, no sábado (11 de abril), e os iranianos tinham ameaçado não viajar para a capital paquistanesa caso estes ataques continuassem - alegando que o Líbano também estava incluído no acordo. Israel e EUA rejeitavam contudo esta leitura, o que levou Teerão a manter praticamente fechado o Estreito de Ormuz. Só sete navios terão passado no primeiro dia de trégua e apenas 15 vão ser autorizados a passar diariamente - quando antes da guerra passavam 140. “Perante os repetidos apelos do Líbano (...) instruí o Governo a iniciar negociações diretas o mais rapidamente possível”, anunciou o primeiro-ministro israelita. As conversações “vão focar-se no desarmamento do Hezbollah e no estabelecimento de relações pacíficas”, referiu Netanyahu, sem falar num cessar-fogo. Mas os libaneses insistem numa trégua: “A única solução para a situação atual no Líbano é alcançar um cessar-fogo entre Israel e o Líbano”, disse o presidente Joseph Aoun.Segundo os media israelitas, as negociações vão realizar-se a partir da próxima semana em Washington entre o embaixador de Israel nos EUA, Yechiel Leiter, e a embaixadora do Líbano nas Nações Unidas, Nada Hamadesh Moawad, com a mediação do embaixador dos EUA no Líbano, Michel Issa. Esta abertura à diplomacia surge numa altura em que os bombardeamentos israelitas punham em causa as negociações entre EUA e Irão, depois do frágil cessar-fogo acordado a apenas 90 minutos de terminar o ultimato dado por Trump a Teerão, na madrugada de quarta-feira. O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, dizia que os bombardeamentos israelitas ao Líbano tornavam as negociações “sem sentido”, não querendo abandonar os libaneses. Mas não é certo que a decisão de Netanyahu seja considerada suficiente. Negociações no sábado (11 de abril)Numa mensagem no X que mais tarde apagou, o embaixador do Irão no Paquistão, Reza Amiri Moghadam, anunciava horas antes que, “apesar do ceticismo da opinião pública iraniana devido às repetidas violações do cessar-fogo por parte do regime israelita”, a delegação de Teerão ia chegar a Islamabad na noite desta quinta-feira (9 de abril). Mas o Paquistão avisava que nada era certo até ambas as delegações chegarem. As negociações vão ser uma mistura de contactos “diretos e indiretos” entre os dois lados, segundo as fontes do governo paquistanês citadas pela agência turca Anadolu, e têm como objetivo alcançar um “cessar-fogo permanente”. Vão decorrer pelo menos até ao domingo (12 de abril), podendo prolongar-se durante mais tempo. O frágil cessar-fogo é de 15 dias.A Casa Branca não disse se as negociações seriam diretas ou iriam decorrer através de mediadores, mas confirmou que começam no sábado (primeiras indicações falavam de sexta-feira). O hotel Serena, que vai acolher ambas as delegações e as negociações, estava ontem a ser transformado numa verdadeira fortaleza - com os restantes hóspedes a serem obrigados a sair após a requisição do governo.A delegação norte-americana é liderada pelo vice-presidente JD Vance, o único que se terá oposto à guerra. Vance era desejado por Teerão, que acusa o enviado-especial para o Médio Oriente, Steve Witkoff, e o genro de Trump, Jared Kushner, (os dois também estarão em Islamabad) de deturparem as posições iraninas nas negociações anteriores - que acabaram com as intervenções militares dos EUA no Irão.Do lado iraniano, a delegação deverá ser formada pelo chefe da diplomacia, Abbas Araghchi, e pelo líder da Assembleia Nacional, Mohammad Bagher Ghalibaf. Mas ontem não havia uma confirmação oficial de Teerão. E havia dúvidas sobre se a Guarda Revolucionária iria enviar um representante (Ghalibaf foi comandante desta força). Em cima da mesa estará uma proposta iraniana, que Trump considerou uma “base” para o diálogo e que a Casa Branca alega que é totalmente diferente da primeira que apresentaram (e que foi diretamente para o lixo). Mas a proposta iraniana de dez pontos terá muito pouco em comum com a de 15 pontos apresentada antes pelos EUA, não sendo claro se será possível chegar a um acordo antes do final do cessar-fogo de 15 dias. O presidente norte-americano já avisou que os seus militares vão continuar na região. Do lado iraniano, por exemplo, insistem em poder enriquecer urânio para fins civis, mas Trump considera que isso não é negociável. Outro ponto chave é a reabertura do Estreito de Ormuz, por onde antes da guerra passava 20% do petróleo mundial e que se tornou num trunfo para os iranianos. A decisão de Teerão de fechar esta via marítima afeta a economia mundial, com o Irão a dizer que quer a partir de agora cobrar uma “portagem” por cada navio que passe. Trump sugere participar também, numa espécie de parceria, que a União Europeia já rejeitou - lembrando que a lei internacional prevê a liberdade de navegação. Novos ataques à NATOTrump voltou entretanto a criticar a Aliança Atlântica, depois de receber o secretário-geral, Mark Rutte, na quarta-feira (8 de abril) à noite. O neerlandês disse que o presidente dos EUA estava “claramente desapontado” com os aliados por terem recusado apoiar a operação militar no Irão (nomeadamente para garantir a abertura do Estreito de Ormuz). “A NATO não estava presente quando precisamos dela, e não estará presente se voltarmos a precisar dela”, escreveu Trump na Truth Social depois do encontro.Num evento esta quinta-feira em Washington, Rutte recusou dizer que o presidente tinha voltado a ameaçar sair da NATO, admitindo que alguns aliados foram “um pouco lentos” a oferecer o seu apoio aos EUA no Irão. “Para ser justo, também foram um pouco surpreendidos”, afirmou, acrescentando contudo que agora “os aliados estão a fazer tudo o que os EUA está a pedir”. O último pedido, que já terá passado aos vários países segundo indicaram três diplomatas à Reuters, é que assumam compromissos concretos nos próximos dias sobre que ajuda vão dar para garantir a segurança do Estreito de Ormuz. O secretário-geral da NATO, muitas vezes apelidado de “encantador” de Trump, defendeu também que o “compromisso” do presidente norte-americano com o progresso “reverteu mais de uma geração de estagnação e atrofia, ao lembrar à Europa que os valores devem ser apoiados pelo hard power”..Cessar-fogo em risco: EUA e Irão clamam vitória, mas Israel expande ataques ao Líbano e Ormuz volta a fechar