Dois meses após o ataque dos EUA e de Israel ao Irão, não parecem existir planos para negociações de paz frente a frente. Mas em pleno cessar-fogo, e sem prazo estabelecido para este acabar, as pontes de diálogo também não foram destruídas entre Washington e Teerão. E a diplomacia prossegue nos bastidores, com uma nova proposta iraniana em cima da mesa (que os norte-americanos estavam a analisar, mas devem rejeitar) e a Rússia a mostrar o seu apoio ao Irão, ao mesmo tempo que se oferece como mediadora neste conflito.“Se quiserem falar, podem vir ter connosco ou podem ligar-nos. Temos linhas seguras e fiáveis”, disse o presidente Donald Trump numa entrevista à Fox News, no domingo à noite (26 de abril), depois de ter cancelado no fim de semana a viagem ao Paquistão do seu enviado-especial para o Médio Oriente, Steve Witkoff, e do seu genro, Jared Kushner, para uma nova ronda de negociações. Esta segunda-feira (27 de abril), a Casa Branca deixou claro à NBC que os EUA “têm todos os trunfos” e “não vão negociar através da imprensa”, depois de vir a público que Teerão teria enviado uma nova proposta. Os iranianos propuseram adiar a discussão sobre o programa nuclear até depois de a guerra acabar, comprometendo-se a reabrir o Estreito de Ormuz se Washington levantar o bloqueio aos portos iranianos e mantiver a trégua de forma indefinida. O fecho desta passagem marítima, por onde antes passava 20% do petróleo, está a afetar a economia mundial, por causa do aumento dos preços dos combustíveis. O bloqueio norte-americano também está a afetar o Irão, impedido de exportar o seu próprio petróleo e ficando privado desses rendimentos. Mas a expectativa era que essa proposta, que foi discutida numa reunião de Segurança Nacional na Casa Branca, fosse recusada pelos EUA. O secretário de Estado, Marco Rubio, pareceu confirmar isso mesmo à Fox News. “Não podemos tolerar um sistema em que os iranianos decidem quem pode usar uma via navegável internacional”, disse, explicando que a ideia do Irão é reabrir o estreito mas só a quem pedir autorização e pagar. A proposta iraniana também seria basicamente voltar à situação que existia antes de 28 de fevereiro, sem que Washington garantisse que Teerão abdicava dos 400 quilos de urânio enriquecido que se estima que tem. Ou que não desenvolveria uma arma nuclear - um dos objetivos para Trump ter lançado os ataques. Além disso, a proposta também não diz nada sobre o programa de mísseis balísticos ou o apoio a grupos extremistas na região, como o Hezbollah. Araghchi na RússiaÀ espera dos novos desenvolvimentos, o Irão procurou o apoio do seu aliado: a Rússia. O chefe da diplomacia foi recebido esta segunda-feira (27 de abril) em São Petersburgo pelo presidente russo. Vladimir Putin disse a Abbas Araghchi, que no fim de semana esteve no Paquistão e em Omã, que a Rússia está preparada para fazer tudo o que estiver ao seu alcance para garantir que a paz no Médio Oriente seja alcançada “o mais rapidamente possível”. No passado, tem-se falado na possibilidade de Moscovo assumir o controlo do urânio enriquecido iraniano.O presidente russo disse que os iranianos estão a lutar “corajosamente e heroicamente” pela sua soberania, com o chefe da diplomacia a explicar que o povo iraniano “continuará firme” a resistir à pressão dos EUA. Araghchi denunciou depois as “exigências excessivas” dos norte-americanos, alegando que essa é a razão de as negociações terem falhado.Araghchi agradeceu a Putin pelo apoio ao Irão, defendendo que as relações entre os dois países representam uma “parceria estratégica de altíssimo nível” e vão continuar a desenvolver-se “independentemente das circunstâncias”. Segundo a agência russa Tass, Putin também deixou claro que a Rússia “pretende manter” as relações estratégicas com o Irão - país que forneceu drones para a guerra na Ucrânia, com o Ocidente a dizer que Moscovo também passou informações sobre alvos a Teerão. O presidente explicou ainda ter recebido uma mensagem do líder supremo, Mojtaba Khamenei, pedindo ao chefe da diplomacia que lhe expresse a sua “gratidão” e lhe deseje “votos de muita saúde e bem-estar”. Desde que foi escolhido para suceder ao pai, morto logo no primeiro dia do ataque dos EUA e de Israel, que Mojtaba não é visto em público e só enviou mensagens escritas. Alegadamente terá perdido uma perna no mesmo ataque que matou o pai (e outros membros da sua família) e ficou desfigurado. Antes da reunião entre Putin e Araghchi, o porta-voz do Kremlin explicou que a Rússia acolhe “a continuação das negociações” e da “trégua” entre Washington e Teerão, mostrando-se também disponível para servir de mediadora. Dmitry Peskov disse ainda que o Kremlin está convicto de que não deve haver um regresso às hostilidades “em qualquer circunstância”, já que isso “não é do interesse do nosso parceiro, o Irão, não é do interesse dos países do Estreito de Ormuz, não é do interesse da economia global”.O cessar-fogo inicial de duas semanas entrou em vigor a 8 de abril, tendo Trump resolvido prolongá-lo sem prazo para dar tempo aos iranianos para resolverem a questão de liderança e apresentarem uma nova proposta. Rubio insistiu esta segunda-feira (27 de abril) que a liderança “fraturada” do Irão, com desacordo entre as várias fações dentro do regime, é o principal obstáculo a um acordo.Mas o chanceler alemão, Friedrich Merz, resumiu a situação de outra forma, alegando que “os iranianos são claramente mais fortes do que se pensava e os norte-americanos não têm uma estratégia clara nas negociações”. Mais, os iranianos são “muito hábeis a negociar, ou melhor, a não negociar” e que “toda uma nação está a ser humilhada pela liderança iraniana”. Entretanto, à margem dos esforços diplomáticos, os EUA prosseguem com o reforço militar na região, onde já estão três porta-aviões - o USS Abraham Lincoln, o USS Gerald R. Ford e o USS George H.W. Bush - e dezenas de navios de apoio, além de aviões e 15 mil homens. LíbanoNo outro eixo da guerra, o líder do Hezbollah, Naim Qassem, assegurou que não vai reconhecer as negociações diretas entre o Líbano e Israel, nem os seus “resultados”, recusando depor as armas. “Vamos continuar a nossa resistência protetora em defesa do Líbano e do seu povo.”O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, defendeu entretanto que Israel é livre de atuar contra o grupo xiita libanês, apesar das negociações com Beirute. “Naim Qassem está a brincar com o fogo, e o fogo vai queimar o Hezbollah e todo o Líbano”, afirmou por seu lado o ministro da Defesa, Israel Katz. “Se o Governo libanês continuar a depender da organização terrorista Hezbollah, uma conflagração vai eclodir e devastar o Líbano”, disse à enviada da ONU para o Líbano, Jeanine Hennis-Plasschaert..Trump discutiu nova proposta do Irão com conselheiros de segurança nacional