O Hamas confirmou esta sexta-feira, 31 de julho, que concorda com o acordo apresentado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para o seu desarmamento, como passo para para pôr fim à guerra com Israel, lançada após o ataque de 7 de outubro de 2023. O plano inclui ainda a retirada gradual das forças israelitas da Faixa de Gaza, que o Hamas coloca como condição prévia para entregar as armas. Israel ainda não comentou.Mas como surgiu o Hamas e como é que chegámos a este momento? Maior dos vários grupos integristas palestinianos, o Hamas - cujo nome é o acrónimo em árabe para "Movimento de Resistência Islâmica" - foi fundado em 1987 como uma ala política da Irmandade Muçulmana egípcia, na sequência da primeira Intifada, a revolta palestiniana contra a ocupação israelita da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. A sua carta fundadora garante que o seu objetivo é destruir Israel.Além da luta armada contra Israel, levada a cabo pela sua ala armada, as Brigadas Izzedine al-Qassam, nos seus primeiros anos o Hamas tinha também um grande foco no apoio à população palestiniana, através de programas sociais, que lhe valeram uma grande popularidade. Em 2005, após o desmantelamento dos colonatos e a retirada de Israel, 38 anos após o ter ganho ao Egito na guerra do Yom Kippur, o Hamas tornou-se também num ator político. No ano seguinte, venceu as legislativas palestinianas e reforçou o seu poder em Gaza ao expulsar, após uma curta guerra civil, a rival Fatah, o movimento do ainda hoje presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas. Em junho passado, Abbas, de 90 anos e cujo mandato devia ter expirado em 2009, anunciou a realização de eleições legislativas e presidenciais para o início de 2027. Desde que assumiu o poder na Faixa de Gaza, em 2007, o Hamas por várias vezes entrou em conflito com Israel, que com o Egito mantinha um bloqueio àquele pequeno território de 10km por 40 km onde vivem mais de dois milhões de pessoas. Mas nenhum durou tanto como a guerra lançada por Israel após os ataques de 7 de Outubro, nos quais o Hamas matou 1200 pessoas e sequestrou outras 250. Desde então, as autoridades de saúde de Gaza, controladas pelo Hamas, garantem que já morreram no território (hoje cenário de vasta destruição) mais de 73 mil pessoas, inclusive mais de mil desde o cessar-fogo de outubro 2025. A ONU fala em 71 mil mortos e 171 mil feridos, além de 1,2 milhões de deslocados.O acordo para o desarmamento do Hamas faz parte de uma nova fase de um plano em 20 pontos para Gaza, apresentado a 29 de setembro de 2025 por Trump, juntamente com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu.O plano traça um roteiro para pôr fim à guerra, libertar reféns, estabelecer uma estrutura de segurança para Israel e avançar para uma administração palestiniana tecnocrática no enclave.Na primeira fase, todos os reféns foram entregues a Israel, mas apenas 168 regressaram a casa com vida. Segundo a BBC , que teve acesso ao documento, o novo acordo agora anunciado por Trump prevê:- A realização de um inventário de todas as armas pesadas, instalações de produção militar, depósitos de armas e túneis no território de Gaza.- Destacamento para Gaza de uma "força internacional de estabilização", a par de um Comité Nacional Palestiniano para a Administração de Gaza, recém-formado, que irá gerir o processo.- Desarmamento será "gradual e sequencial" que decorrerá de acordo com um calendário a elaborar "no prazo de 14 dias".- Desarmamento estará associado a uma "retirada israelita faseada", com uma "comissão de verificação" a garantir que cada fase seja concluída.- Acordo estipula que nenhuma arma será entregue a Israel ou a qualquer entidade não palestiniana. Resta saber qual vai ser a resposta de Israel. Afinal, o Estado hebraico (tal como os EUA, União Europeia e Reino Unido) considera o Hamas um grupo terrorista. Inicialmente apoiado pela Síria, onde chegou a estar sediado o seu bureau político, o Hamas conta até hoje com o patrocínio do Irão e do grupo xiita libanês Hezbollah, mesmo se o apoio do Hamas aos rebeldes sunitas na guerra da Síria já tinha esfriado um pouco essas relações e se a guerra lançada por EUA e Israel a 28 de fevereiro passado contra o Irão ainda terá vindo dificultar mais a disponibilidade de Teerão. Nos últimos anos, Qatar e Turquia foram dois aliados essenciais do Hamas. .Desde o início da guerra em Gaza, o Hamas sofreu duros golpes tanto na sua ala política como militar. A 20 de julho, o grupo anunciou a nomeação de Khalil al-Hayya como novo líder do gabinete político. Este político experiente, de 65 anos, sucede assim a Yahya Sinwar, morto em outubro de 2024 num bombardeamento israelita na Faixa de Gaza. Sinwar, considerado o cérebro do 7 de Outubro, sucedera por sua vez a Ismail Haniyeh, que liderava o grupo desde 2017 e foi assassinado por Israel em Teerão. Também a sua ala armada sofreu baixas sucessivas. Em finais de maio, Israel anunciou ter matado Mohamed Odeh num bombardeamento na Cidade de Gaza. Odeh foi o quarto líder militar do grupo abatido pelas forças israelitas desde o 7 de Outubro, depois de Mohamed Deif, Yayha Sinwar e o seu irmão e sucessor Mohamed Sinwar. Vaga de atentados suicidasO Hamas ganhou destaque na sequência da primeira Intifada ao tornar-se no principal grupo palestiniano a opor-se aos Acordos de Oslo, assinados em 1993 entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), aliança de movimento que representava a maior parte dos palestinianos. Apesar de ter sido alvo de operações militares israelitas e da repressão por parte da Autoridade Palestiniana, o principal órgão governativo dos palestinianos, o Hamas encontrou nos ataques suicidas uma forma de protesto. Foi responsável por vários ataques à bomba em autocarros, que fizeram dezenas de mortos em Israel. Um método que reforçou após o assassínio por Israel do seu especialista do fabrico de bombas Yahya Ayyash, em dezembro de 1995.Esta série de ataques suicidas é vista como uma das causas que afastaram Israel do processo de paz e levaram Benjamin Netanyahu – opositor aos Acordos de Oslo – ao poder pela primeira vez em 1996.Com a entrada nos anos 2000 e o fracasso dos esforços de paz do presidente dos EUA Bill Clinton na cimeira de Camp David, a que se seguiu pouco depois a segunda Intifada, o Hamas foi ganhando poder, com a Autoridade Palestiniana a ser alvo da repressão israelita que a acusa de apoiar os atentados. E ganhou o apoio da população também construindo clínicas e escolas, aproveitando o descontentamento dos palestinianos com a AP, dominada pela Fatah de Yasser Arafat.A vaga de ataques suicidas foi saudada por muitos palestinianos, que viam no martírio destes homens uma forma de vingança, enquanto Israel prosseguia a construção de colonatos na Cisjordânia. 2004 ficou marcado pelos assassínio, em março, do seu fundador e líder espiritual, o xeque Ahmed Yassin, e do seu sucessor, Abdul Aziz al-Rantissi, no mês seguinte, mortos por mísseis israelitas em Gaza. Em novembro do mesmo ano morria o líder histórico Arafat e Mahmoud Abbas assumia a liderança da AP. Abbas via o disparo de rockets contra Israel como contraproducente. .Seguiu-se o choque em Gaza entre o Hamas e a Fatah na sequência da vitória dos integristas nas eleições de 2006 e a chegada ao poder no ano seguinte. Agora, sob a liderança de Khalil al-Hayya, o Hamas parece disposto a uma viragem que o pode tornar num movimento mais político e menos militar. Para Jeremy Bowen, editor de Internacional da BBC, não só Khalil al-Hayya parece disposto a voltar às origens, apostando numa "estratégia baseada na educação religiosa e nos serviços sociais e de assistência social", como, admite, "o Hamas não dispõe de muitas opções neste momento, uma vez que Israel tem mantido uma forte pressão militar."Bowen admite, no entanto, que o processo de desarmamento não vai ser fácil, sobretudo perante o enorme número de incógnitas tanto do lado palestiniano, como do lado israelita..Hamas confirma acordo de desarmamento mas exige retirada israelita de Gaza