O secretário-geral da ONU, António Guterres, defendeu esta quinta-feira o "fim da ocupação" e o "estabelecimento de um Estado Palestiniano totalmente independente", frisando que a comunidade internacional tem a "responsabilidade e a obrigação moral de ajudar" nesse sentido..Num debate de nível ministerial do Conselho de Seguranças das Nações Unidas (ONU) sobre a situação no Médio Oriente e a poucas horas de ser votada a adesão plena da Palestina à ONU, Guterres voltou a defender uma solução de dois Estados, com "Israel e a Palestina a viver lado a lado em paz e segurança, com Jerusalém como capital de ambos os Estados", com base em resoluções da própria organização, no direito internacional e em acordos anteriores..De acordo com Guterres, esta é a pré-condição essencial para acalmar as tensões em toda a região e fora dela..O Conselho de Segurança da ONU vota hoje um projeto de resolução da autoria da Argélia que recomenda a admissão do Estado da Palestina como membro pleno da ONU..Contudo, os Estados Unidos, membro permanente do Conselho de Segurança com poder de veto, opõem-se à iniciativa pelo reconhecimento unilateral da Palestina e deverão votar contra, impossibilitando a aprovação..A admissão da Palestina como Estado-membro não é da responsabilidade do secretário-geral da ONU, mas da Assembleia Geral, com o acordo prévio do Conselho de Segurança. Nos últimos dias, Guterres tem evitado referir explicitamente a sua opinião sobre a adesão, explicando que é uma decisão que "compete aos Estados-membros"..No entanto, a intervenção de hoje deu a entender que Guterres apoia que a Palestina se torne o 194.º Estado-membro da ONU, sublinhando a responsabilidade e obrigação da comunidade internacional de viabilizar um Estado Palestiniano..No debate, com a presença de vários governantes e presidido pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de Malta, Ian Borg, Guterres apelou ainda a Israel e à comunidade internacional a que apoiem e trabalhem com o novo Governo palestiniano para enfrentar os seus desafios fiscais, reforçando a sua capacidade de governação e prepará-lo para reassumir as suas responsabilidades em Gaza no futuro..A Palestina é considerada um "Estado observador" na ONU desde 2012, um estatuto que só partilha com o Vaticano, embora um ano antes tivesse solicitado a entrada como membro de pleno direito..Em 2011, foi feito um pedido de adesão plena, mas permaneceu pendente porque o Conselho de Segurança não conseguiu chegar a um consenso para uma decisão formal..Na ocasião, os Estados Unidos anunciaram que pretendiam usar o poder de veto se uma maioria de nove fosse alcançada, apesar de proclamarem apoio à "solução de dois Estados"..Nas últimas semanas, o vice-embaixador dos EUA na ONU, Robert Wood, admitiu aos jornalistas que a posição do seu país não mudou e que o reconhecimento total da Palestina é algo que deveria ser negociado bilateralmente entre Israel e os palestinianos, não na ONU, embora não tenha dito explicitamente que seu país usaria o veto se necessário..Guterres lamenta impacto "limitado e às vezes nulo" de promessas israelitas de ajuda a Gaza.O secretário-geral da ONU, António Guterres, considerou esta quinta-feira "limitado e às vezes nulo" o impacto dos compromissos assumidos por Israel para reforçar ajuda a Gaza, frisando que as operações militares israelitas criaram um "cenário humanitário infernal"..Num debate de nível ministerial do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) sobre a situação no Médio Oriente, com foco em Gaza, Guterres fez um balanço dos seis meses e meio de operações militares israelitas no enclave, sublinhando que dois milhões de palestinianos "suportaram a morte, a destruição e a negação de ajuda humanitária vital" e que agora estão a enfrentar a fome.."Tudo isto aconteceu com severas limitações impostas pelas autoridades israelitas à entrega de ajuda humanitária às pessoas em Gaza, que enfrentam fome generalizada", afirmou..Guterres reconheceu que Israel assumiu recentemente uma série de compromissos para melhorar a prestação de ajuda, e que "houve alguns exemplos de progressos limitados", mas avaliou que o "progresso aparente numa área é muitas vezes anulado por atrasos e restrições noutras áreas".."Por exemplo, embora as autoridades israelitas tenham autorizado mais caravanas de ajuda, essas autorizações são frequentemente concedidas quando já é demasiado tarde para fazer entregas e regressar em segurança. O nosso pessoal não pode operar na escuridão, numa zona de guerra repleta de munições não detonadas", reforçou..Outro exemplo apresentado pelo secretário-geral foi o facto de que, durante a semana de 06 a 12 de abril, Israel negou mais de 40% dos pedidos da ONU para entrega de ajuda humanitária que exigiam a passagem pelos postos de controlo israelitas.."Portanto, o impacto é limitado e às vezes nulo. As autorizações aumentam, mas continuam a existir obstáculos à ajuda às pessoas que necessitam desesperadamente", acrescentou Guterres..De acordo com o líder da ONU, é necessário "um salto quântico na ajuda humanitária aos palestinianos em Gaza"..Numa visão mais ampla, Guterres considerou que o Médio Oriente está à beira do "precipício" de um conflito regional generalizado.."Um erro de cálculo, uma falha de comunicação, poderia levar ao impensável - um conflito regional em grande escala que seria devastador para todos os envolvidos - e para o resto do mundo", alertou..Referindo também a troca de ataques entre Israel e o Irão, o ex-primeiro-ministro português reiterou que "já é tempo de acabar com o ciclo sangrento de retaliação" e defendeu que a forma de retirar a região do precipício e da desescalada no Médio Oriente é avançar com uma ação diplomática abrangente, "a começar por Gaza"..Guterres defendeu também a inversão da "situação explosiva" na Cisjordânia ocupada, onde "mais de 450 palestinianos, incluindo 112 crianças, foram mortos" desde que a guerra entre Israel e o grupo islamita Hamas eclodiu, em 07 de outubro passado - "a maioria morta pelas forças israelitas no decurso das suas operações e em confrontos com palestinianos armados", disse.."Apelo a Israel, enquanto potência ocupante, para que proteja a população palestiniana da Cisjordânia ocupada contra ataques, violência e intimidação", exortou, salientando que a expansão dos colonatos israelitas poderá "minar a contiguidade de um futuro Estado palestiniano e negar a esperança a uma geração de palestinianos".