Família palestiniana em fuga dos campos de refugiados Al Nusairat e Al Bureije.
Família palestiniana em fuga dos campos de refugiados Al Nusairat e Al Bureije.EPA/MOHAMMED SABER

Governo israelita fala a várias vozes e está dividido sobre o futuro de Gaza

Netanyahu tem mantido o silêncio sobre a estratégia de saída, que Gantz pede desde que entrou para o gabinete de guerra. Extrema-direita quer regresso dos colonos, o que gera críticas. Ministro da Defesa apresentou quinta-feira à noite um plano.
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Quando o Hamas atacou Israel, há quase três meses, o governo de Benjamin Netanyahu e a oposição liderada por Benny Gantz puseram de lado as diferenças para falar a uma só voz no gabinete de guerra. Não era a primeira vez que trabalhavam juntos, afinal, entre 2020 e 2022, tinham estado no mesmo executivo. Desta vez, contudo, atrás do primeiro-ministro está o governo mais à direita de sempre , com dois ministros da extrema-direita - Bezalel Smotrich, das Finanças, e Itamar Ben-Gvir, da Segurança Nacional - cujas tomadas de posição condicionam, nomeadamente devido a polémicas declarações sobre o futuro de Gaza. 

Smotrich e Ben-Gvir defenderam o regresso dos colonos judeus ao enclave palestiniano, após a derrota do Hamas, e a “emigração voluntária” da população palestiniana. As críticas foram imediatas da comunidade internacional - desde os países árabes à União Europeia, passando pelas Nações Unidas ou os EUA, com o Departamento de Estado a falar em declarações “inflamatórias e irresponsáveis”. Mas também se ouviram críticas internas, até de ministros do Likud de Netanyahu. 

O primeiro-ministro tem mantido o silêncio em relação à estratégia do pós-guerra em Gaza, algo que Gantz tem pedido desde o primeiro momento alegando que Israel não pode ficar indefinidamente envolvido. Netanyahu limita-se a dizer que as Forças de Defesa de Israel terão que manter o controlo da segurança no enclave. O terceiro membro do gabinete de guerra, o ministro da Defesa, Yoav Gallant, diz que o conflito vai acabar com “a remoção da responsabilidade de Israel pela vida quotidiana na Faixa de Gaza”, o que pode parecer contraditório.

Na quinta-feira à noite, Gallant apresentou o seu plano. "O Hamas não governará Gaza, Israel não governará os civis de Gaza. Os residentes de Gaza são palestinianos, portanto as organizações palestinianas estarão no comando, desde que não haja ações hostis ou ameaças contra o Estado de Israel", destacou em comunicado.

Smotrich e Ben-Gvir estão no conselho de ministros, mas não têm assento no gabinete de guerra. Mesmo assim, têm influência. No final do ano passado, estava prevista uma reunião do gabinete de guerra para tratar do “dia depois” em Gaza. Contudo, foi cancelada por Netanyahu depois da oposição dos ministros de extrema-direita. O partido de Smotrich protestou por estar fora da discussão deste tema, enquanto Ben-Gvir alegou que o assunto estava fora do mandato do gabinete de guerra. O tema foi finalmente debatido esta noite, tendo a reunião terminado já de madrugada e sem aparente consenso.

As divisões ficaram também claras quando o mesmo Ben-Gvir anunciou que não ia prolongar o mandato da responsável pelos serviços prisionais, Katy Perry, que termina no próximo dia 24. Gantz considerou que isso ia contra o acordo para a formação do gabinete de guerra, que limitava a ação do executivo às questões relacionadas com o conflito e suspendia mudanças de cargos a nível superior. Ben-Gvir respondeu então que as diferenças com Gantz iam muito além disso, criticando também que este tenha apoiado, por exemplo, a entrega de combustível em Gaza.  

Netanyahu estará a evitar tocar no tema do futuro do enclave porque a posição do principal aliado, os EUA - e o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, regressa esta sexta-feira à região -, passa por dar um papel à Autoridade Palestiniana. O primeiro-ministro rejeita contudo qualquer envolvimento do atual líder, Mahmud Abbas, ou do seu partido, a Fatah, que controlam a Cisjordânia ocupada. Além do mais, como já se viu, o tema ameaça dividir o governo, pondo em causa o próprio Netanyahu, cuja popularidade já estava em causa ainda antes da guerra.

Desde o início do ano que o primeiro-ministro enfrentava contestação nas ruas por causa da polémica reforma judicial - sendo que ele próprio está a ser julgado por suspeitas de corrupção. Entretanto, o Supremo Tribunal revogou uma das medidas-chaves dessa reforma, aquela que previa suprimir o direito do poder judicial de se pronunciar sobre a “razoabilidade das decisões do governo ou do parlamento.

Segundo uma sondagem do Instituto de Democracia de Israel, divulgada esta semana, só 15% dos israelitas querem que Netanyahu continue à frente do governo depois do fim da guerra em Gaza. Já Gantz reúne o apoio de 23% dos 746 inquiridos, sendo que 30% das pessoas não sugerem qualquer nome. Na anterior sondagem do instituto, em dezembro, 69% dos inquiridos defenderam a realização de eleições imediatamente depois do final da guerra - o que Netanyahu disse que ainda pode levar meses ou até anos.

Na sondagem desta semana, 56% dos inquiridos defenderam que a continuação da ofensiva militar é a melhor forma de conseguir a libertação da mais de uma centena de reféns israelitas que o Hamas ainda tem em Gaza, enquanto 24% defendem uma troca de reféns com prisioneiros palestinianos - como já aconteceu durante os sete dias de trégua, no final de novembro, que permitiu a libertação da maior parte das mulheres e crianças que tinham sido sequestradas a 7 de outubro.

Nota: Notícia publicada na edição em papel de 5 de janeiro e atualizada já depois de serem conhecidos dados sobre o plano de Yoav Gallant e a reunião desta noite para falar do tema

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