O Governo alemão anunciou esta quinta-feira (2 de julho) uma reforma que vai afetar pensões, fiscalidade, competitividade e poder de compra para ultrapassar a crise económica no país.Estas reformas incluem a redução da carga fiscal sobre a classe média, aumentando as contribuições dos mais ricos, afirmou o chanceler alemão, Friedrich Merz, em conferência de imprensa para anunciar o acordo, após meses de divergências entre os partidos da coligação governamental, os conservadores (CDU-CSU) e os sociais-democratas (SPD).Desde logo, a reforma implica baixar os impostos pagos por pessoas de baixo e médio rendimento e aumentar a tributação sobre rendimentos superiores a 250.000 euros anuais.De acordo com os cálculos do Governo, a partir de 2028, quando as medidas estiverem totalmente implementadas, uma família trabalhadora com dois filhos e um rendimento tributável conjunto de 60.000 euros poderá poupar mais de 600 euros por ano em comparação com a situação atual.Merz afirmou que se trata de “uma quantia considerável, tendo em conta os recursos limitados das finanças públicas”.O volume total de alívio fiscal resultante da reforma atinge aproximadamente 10 mil milhões de euros anuais, segundo o Governo.Para financiar esta medida, o Governo vai criar o chamado “imposto sobre a riqueza”, adotando uma taxa de IRS de 45% para rendimentos tributáveis superiores a 250.000 euros por ano e uma nova taxa adicional de 47% para rendimentos superiores a 280.000 euros.Desde 2007 que existe um “imposto sobre o património”, uma sobretaxa de três pontos percentuais para os contribuintes com rendimentos mais elevados, pelo que a taxa máxima de imposto no escalão proporcional mais elevado era anteriormente de 45%.“Quem ganha mais deve contribuir mais. É uma questão de justiça se queremos que o país avance”, defendeu o ministro das Finanças, Lars Klingbeil, do Partido Social-Democrata, na conferência de imprensa.Conservadores e sociais-democratas concordaram também em adotar a reforma da segurança social, proposta por uma comissão independente, até ao final do ano.Neste caso, as medidas implicam um aumento da idade da reforma além dos 67 anos e inclui o alargamento da base de incidência contributiva e a introdução de uma componente capitalizada.Além disto, haverá um novo combate ao absentismo no trabalho, tendo o Governo decidido introduzir uma licença médica obrigatória desde o primeiro dia de doença e proibido a sua concessão após uma simples consulta telefónica.A queda da economia na Alemanha tem afetado muito a aceitação do Governo e feito ascender ainda mais a extrema-direita.O desafio deste acordo era, segundo os líderes dos partidos da coligação, demonstrar que o Governo não estava condenado à inação e que podia reformar um país carente de inovação e cuja indústria exportadora, outrora o motor do sucesso alemão, está a ser fortemente abalada pelos custos de energia e de mão-de-obra, pela burocracia, pela concorrência chinesa e pelas tarifas norte-americanas.Demonstrar a capacidade de agir é ainda mais importante, dado que a CDU-CSU e o SPD estão determinados a impedir que o partido de extrema-direita AfD assuma o poder pela primeira vez em dois estados do leste durante as eleições regionais de setembro. Tal situação seria inédita na Alemanha do pós-guerra e constituiria um terramoto político. “Sabemos que vocês (...) querem decisões e não querem disputas. E foi exatamente isso que fizemos”, sublinhou Merz na apresentação das reformas fiscais. “Temos também um pedido para vós. Juntem-se a nós. Apoiem-nos nas reformas”, acrescentou, assegurando que o Governo fará tudo “para tirar o país da fragilidade estrutural do seu crescimento”.Por fim, o Governo prometeu ainda adotar uma política mais agressiva em relação à China no âmbito da União Europeia, dado que o maior cliente da Alemanha, agora o principal concorrente, é acusado de práticas comerciais desleais..Alemanha. Arranque "doloroso" do novo governo complica ainda mais a descolagem da maior economia europeia