A 26 de fevereiro, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, do Partido Social-Democrata (SD), convocou eleições gerais antecipadas para esta terça-feira, 24 de março, sete meses mais cedo do que inicialmente previsto, com o objetivo de aproveitar o “efeito Gronelândia” após as ameaças de Donald Trump de invadir o território semiautónomo dinamarquês no Ártico e conseguir um terceiro mandato à frente do governo. Caso ganhe e leve a legislatura até ao fim, Frederiksen, de 48 anos, tornar-se-á na líder dinamarquesa com maior longevidade desde a Segunda Guerra Mundial.“Esta será uma eleição decisiva, porque será nos próximos quatro anos que nós, dinamarqueses e europeus, teremos realmente de nos sustentar por nós próprios. Precisamos de definir a nossa relação com os Estados Unidos e devemos rearmar-nos para garantir a paz no nosso continente. Devemos permanecer unidos na Europa e devemos assegurar o futuro da Comunidade Dinamarquesa”, disse Frederiksen quando convocou o ato eleitoral desta terça-feira. A forma firme como a primeira-ministra dinamarquesa fez frente às ameaças do presidente dos Estados Unidos de tomar a Gronelândia, contando com o apoio dos restantes líderes da União Europeia, deu projeção internacional a Mette Frederiksen, mas também parece ter sido bem recebida a nível doméstico - uma inversão no seu nível de popularidade, depois do SD ter sofrido uma derrota histórica nas eleições municipais de novembro, incluindo em Copenhaga, pondo fim a mais de um século de liderança social-democrata na capital dinamarquesa. Mesmo assim, e com as sondagens a mostrarem que Frederiksen deverá manter-se no poder, tudo aponta que o Partido Social-Democrata terá o pior resultado em mais de um século nas eleições legislativas e o seu governo de grande coligação deverá perder a sua maioria parlamentar. Uma sondagem da Megafon, realizada entre os dias 17 e 18, dá 21,9% das intenções de voto ao SD de Frederiksen, 8,9 pontos à frente do segundo partido que reúne mais preferências junto dos eleitores, o Partido Popular Socialista (SF). Liderado por Pia Olsen Dyhr desde 2014, o SF apoiou o governo minoritário social-democrata liderado por Mette Frederiksen após as eleições de 2019. Três anos depois, apesar do “bloco vermelho” ter conseguido uma maioria apertada, o SF tornou-se o maior partido da oposição quando Frederiksen formou um governo centrista com o Partido Liberal, do vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa, Troels Lund Poulsen, e os Moderados, do ex-primeiro-ministro e atual líder da diplomacia dinamarquesa, Lars Løkke Rasmussen. Esta foi a primeira vez em mais de 40 anos que uma coligação governamental quebrou a divisão entre esquerda e direita. Uma outra sondagem realizada também na semana passada, desta vez pela YouGov, “projeta que os sociais-democratas conquistarão 38 dos 179 lugares do parlamento dinamarquês, com aproximadamente 21% dos votos, embora este número seja muito inferior aos 50 lugares e aos 28% dos votos obtidos em 2022, e seria o pior resultado do partido em mais de um século”.Quanto aos outros dois partidos que compõem a atual coligação governamental - Partido Liberal e Moderados - “prevê-se ainda que sofram perdas, com projeções de que conquistem 16 e 10 lugares, respetivamente, contra 23 e 16 na última eleição”, nota a análise da YouGov.Um resultado que, prossegue a mesma análise, “deixaria a coligação no poder com pouco mais de um terço dos lugares (64) no parlamento, tornando muito provável a necessidade de novos arranjos governamentais. Seria também o pior resultado do Partido Liberal nos seus 156 anos de história”.No total, vão a votos 12 partidos, o que poderá vir a complicar o cenário de coligações pós-eleitorais. De notar ainda que os quatro lugares destinados a candidatos da Gronelândia e das Ilhas Faroé (dois por cada um dos territórios) podem ser decisivos. Com as projeções a mostrarem que nem o “bloco vermelho”, de esquerda, nem o “bloco azul”, de direita, conseguirão sozinhos uma maioria, os Moderados de Lars Løkke Rasmussen poderão vir a ser o fiel da balança, com o seu alinhamento com Frederiksen ou com uma combinação da direita, liderada por Poulsen, a ter potencial para determinar quem formará o próximo executivo. Por outro lado, a Dinamarca tem uma longa tradição de governos minoritários. Piscar o olho à esquerdaO atual governo dinamarquês tem enfrentado dificuldades desde as últimas eleições gerais, em 2022, devido às elevadas taxas de inflação e à perceção junto de muitos eleitores de que não dão a devida atenção às questões domésticas, como os preços da habitação e do cabaz alimentar, ou a imigração, apesar de Copenhaga ter uma das políticas mais restritivas da União Europeia em relação aos refugiados e migrantes. A par disto, o investimento em defesa teve impacto também junto da população, como a supressão do famoso Dia Geral de Oração, um feriado nacional celebrado na quarta sexta-feira após a Páscoa e abolido em 2024.Durante a campanha, a líder social-democrata focou-se em temas óbvios, como a defesa, segurança e soberania da Dinamarca face às ameaças dos EUA e da Rússia, mas não só. “Mette Frederiksen falou também sobre a introdução de um imposto sobre a riqueza para financiar a educação e o bem-estar social; gostaria de mudar a idade da reforma e manter uma política rigorosa em matéria de imigração, numa tentativa de apaziguar os partidos anti-imigração, mantendo, ao mesmo tempo, um equilíbrio delicado para não infringir as leis de direitos humanos da União Europeia”, refere Helen Levy, investigadora na Fundação Robert Schuman.Uma destas medidas em concreto - a reintrodução de um imposto sobre a riqueza para financiar investimentos na educação e no bem-estar social - tem como objetivo mostrar que Frederiksen continua a ser de esquerda, mas membros da oposição, como Alex Vanopslagh, da Aliança Liberal, classificaram a proposta como “mesquinha”.Vanopslagh, também ele candidato a primeiro-ministro, tornou-se notícia há uma semana quando admitiu ter consumido cocaína. “Sim, experimentei cocaína no início do meu mandato como líder do partido. Aconteceu uma ou duas vezes, no máximo, num contexto festivo, e, claro, nunca enquanto estava a trabalhar”, escreveu Vanopslagh no Facebook, cujo partido aparece em terceiro lugar nas últimas sondagens..PM da Dinamarca aposta na antecipação de eleições.“A parte mais difícil ainda está para vir”, diz PM dinamarquesa sobre pressão dos EUA