O embaixador Francisco Seixas da Costa.
O embaixador Francisco Seixas da Costa.FOTO: Gerardo Santos

Francisco Seixas da Costa: “O 11 de Setembro foi muito favorável à China porque distraiu os EUA”

O embaixador era o representante português na ONU durante os atentados de 2001. Ao DN lembra as memórias desse dia e as consequências. “A hiperpotência foi atacada no seu cerne e o mundo mudou."
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Era representante de Portugal nas Nações Unidas a 11 de setembro de 2001. Quando é que se apercebeu que um avião tinha atingido as Torres Gémeas?

Foi tudo muito rápido. Eu ia a caminho de uma reunião de embaixadores da União Europeia, que é em frente às Nações Unidas, e vejo uma nuvem negra, pequena, ao longe. E comento com o motorista: “O que é que será aquilo? Deve ter sido um incêndio ou qualquer coisa.” E à chegada às instalações da UE, o embaixador francês diz-me: “Houve um avião que bateu contra uma das torres.” Entrámos para a reunião e estava a dar na CNN e a primeira ideia foi a de que se tratava de um acidente. Era uma tragédia, mas era um acidente. Passados alguns minutos, vêm-nos dizer que outro avião tinha embatido na outra torre. E aí tivemos a consciência de que era um atentado. Mas devo dizer que, nessa altura, o trauma e a consciência da tragédia que estava a acontecer, porque não sabíamos quantas vítimas haveria, não foram suficientes para interrompermos a reunião. Continuámos a trabalhar sobre uma conferência que ia decorrer na ONU. Quando a reunião acabou, muitos de nós dirigimo-nos às Nações Unidas e foi então que percebemos que a cidade tinha mudado, o mundo tinha mudado, tudo tinha mudado. Depois as torres caíram. E começámos verdadeiramente a medir as consequências de tudo e o impacto sobre os EUA, sobre o mundo e sobre os equilíbrios globais. Houve uma tomada de consciência crescente e depois foi preciso gerir o dia a dia do trauma nos EUA e à escala mundial.

Qual foi a reação na ONU?

A primeira reação foi de grande solidariedade para com os EUA. Pode dizer-se que, depois do pasmo e da surpresa, a sensação geral foi a de que o mundo tinha sido atacado por um ato terrorista de dimensões inimagináveis e que era necessário dar aos EUA o conforto da nossa solidariedade. Recordo-me de que durante dois ou três dias ficámos quase sem comunicações com Lisboa porque uma das centrais de telecomunicações foi atingida pela queda das torres. Intervim na Assembleia Geral da ONU sem instruções de Lisboa, mas também não precisava delas. As coisas eram tão óbvias relativamente ao que havia para dizer que a nossa posição era muito clara e estava em total consonância com os parceiros da UE e da NATO. Vale a pena recordar que a NATO invocou então, pela primeira vez, o artigo 5.º, afirmando a sua solidariedade para com os EUA.

Já passaram 25 anos. Há toda uma geração que não viveu esse trauma. Como é que podemos explicar o impacto daquele dia?

Cada geração tem os seus traumas. A geração que assistiu à morte do John F. Kennedy tem esse trauma. Outras têm o trauma da morte de Martin Luther King, da II Guerra Mundial... E desde o 11 de Setembro já aconteceu também muita coisa. Todas as gerações decantam para si próprias essas experiências. O que se notou nos EUA foi que aquilo que aconteceu mudou qualitativamente a América, e essa mudança não é reversível.

“Aquilo que aconteceu mudou qualitativamente a América e essa mudança não é reversível.”

Lembro-me da discussão sobre as liberdades e a possibilidade de discordar ficou profundamente condicionada. Falar das causas profundas que estiveram na origem da evolução daquele grupo terrorista, a Al-Qaeda, ou do processo que conduziu àqueles atentados era praticamente tabu. Isso trouxe uma onda de contenção na comunicação social, no debate público, e criou a ideia de que havia assuntos de que não era conveniente falar. Isso é muito pouco próprio da América. A sociedade americana é, em regra, uma sociedade de grande liberdade. A onda de hiperpatriotismo que surgiu a seguir ao 11 de Setembro criou uma contenção visível relativamente à crítica ao Governo. Isso protegeu o poder político e criou um forte sentimento de unidade nacional durante algum tempo.

Até que ponto o 11 de Setembro alterou as prioridades estratégicas dos EUA?

Quando aconteceu o 11 de Setembro, as prioridades estratégicas dos EUA não estavam no Afeganistão, não estavam na Al-Qaeda nem num homem chamado Osama bin Laden. As preocupações americanas centravam-se, em primeiro lugar, na China, que já surgia como o grande adversário estratégico do futuro. Havia também grande preocupação com as armas de destruição maciça e em questões como a Líbia, o Kosovo, o alargamento da NATO e vários dossiers europeus. Estavam também no terrorismo, naturalmente, nessa altura estávamos a discutir na ONU uma convenção internacional contra o terrorismo e era muito difícil chegar a uma definição comum. Porque para muitos países do Sul, aquilo que o Ocidente considerava terrorismo era muitas vezes visto como um ato de libertação nacional. Não era esse o caso do 11 de Setembro, evidentemente, mas essa divergência existia. Mas, de repente, quase de um dia para o outro, o olhar americano mudou e passa a concentrar-se no Afeganistão como prioridade absoluta. Essa ação teve o apoio da ONU e esse é um ponto importante. Mas houve também um forte sentimento de orgulho ferido e de vingança que atravessou a sociedade americana. Vale a pena recordar que, nessa altura, os EUA s eram descritos por Hubert Védrine como uma “hiperpotência”. Ora, a hiperpotência tinha sido atingida no seu cerne. Hoje percebemos melhor a dimensão simbólica da estratégia dos terroristas. Atacaram o World Trade Center, o principal centro financeiro internacional; atacaram o Pentágono; e tudo indica que o quarto avião poderia ter tido como alvo o Capitólio ou a Casa Branca. Era um triângulo simbólico de enorme significado.

"Muitos americanos consideram que o papel do seu país no mundo lhes confere uma legitimidade especial para agir para lá dos limites da ordem internacional. Isso hoje é muito visível com Donald Trump, mas já existia antes."

Para os americanos, um povo orgulhoso que nunca tinha sofrido um ataque desta dimensão dentro do seu território, foi um choque tremendo. E isso deu também origem, como muitas vezes acontece, a excessos de legítima defesa. O exemplo mais evidente surge dois anos depois, com a invasão do Iraque, na procura de armas de destruição maciça que não existiam e no recrutamento de aliados internacionais para uma ação que ultrapassava aquilo que o direito internacional permitia. Há uma característica recorrente na política externa americana: a ideia do excecionalismo dos EUA. Muitos americanos consideram que o papel do seu país no mundo lhes confere uma legitimidade especial para agir para lá dos limites da ordem internacional. Isso hoje é muito visível com Donald Trump, mas já existia antes. Os EUA recorriam à ONU quando isso lhes era útil e ultrapassavam-na quando deixava de ser conveniente. A legitimidade dos seus interesses era frequentemente colocada acima de qualquer outro valor.

Até que ponto a guerra ao terrorismo desviou a atenção dos EUA da ascensão da China e da Rússia já de Vladimir Putin?

Em relação à Rússia, vale a pena recordar que vivíamos então um período de aproximação. Após o 11 de Setembro, Moscovo mostrou-se extremamente colaborante com Washington, facilitando operações ligadas ao Afeganistão e permitindo, por exemplo, a utilização de rotas e infraestruturas na região. Os EUA aproveitaram essa fase para reforçar a sua presença em zonas tradicionalmente inseridas na esfera de influência russa, como o Quirguistão e o Uzbequistão. A Rússia era extremamente colaborante. O meu colega na ONU por essa altura era uma figura muito popular. Chamava-se Sergei Lavrov [o atual chefe da diplomacia russo]. A Rússia não tinha um caráter de inimigo. Tinha uma imagem de um país com dificuldades e um país que não representava uma ameaça. Além disso, Putin oscilava entre uma postura colaborante e outra mais assertiva. Essa hesitação desapareceria mais tarde, quando passou claramente para um registo mais confrontacional.

FOTO:Gerardo Santos

Quanto à China, essa é uma questão muito interessante. Uma vez, numa conversa com um empresário chinês, ele fez-me uma pergunta simples: “Concorda que a China não teve nada a ver com o 11 de Setembro?” Respondi que sim, que não há o mais leve sinal de qualquer envolvimento. Mas vale a pena dizer uma coisa: o 11 de Setembro foi muito favorável à China porque distraiu os EUA durante cerca de vinte anos, mudando o olhar americano para o Médio Oriente. Antes disso, a preocupação crescente era a China e a sua ascensão económica e política. Enquanto os EUA estavam concentrados no Afeganistão, no Iraque e na luta contra o terrorismo, a China cresceu em silêncio. E para a China foi muito bom poder crescer em silêncio. Aproveitou esse período para reforçar a sua economia, aumentar a sua influência e transformar-se naquilo que é hoje: o principal desafio estratégico para os EUA.

O 11 de Setembro uniu os EUA, que vinham de umas eleições muito disputada, mas hoje os EUA estão profundamente polarizado. Em que medida a retórica do “ou estão connosco ou estão contra nós” de George W. Bush pode ter contribuído para isso?

Essa retórica já vinha da Guerra Fria. E no tempo do macarthismo também existia essa lógica de que ou se estava de um lado ou do outro. Os EUA já eram um país dividido nessa altura, mas estamos a falar de tempos dificilmente comparáveis com os atuais. Apesar de tudo, o Partido Democrata, que se considerou prejudicado por uma eleição muito controversa, conseguiu reabsorver essas dúvidas e não pôs em causa o resultado eleitoral. Diria até que havia provavelmente mais razões para contestar as eleições que levaram George W. Bush à Casa Branca do que aquelas que mais tarde levaram Trump a contestar algumas derrotas. Mas eram partidos diferentes dos atuais. O Partido Republicano está hoje tomado por Trump e por uma linha radical, quase obsessiva. O Partido Democrata encontra-se dividido entre uma ala mais à esquerda e uma ala mais moderada. Essa ala moderada conseguiu, no passado, construir o compromisso que levou Joe Biden à presidência, mas hoje procura novamente o seu caminho. A evolução dos dois partidos foi muito significativa. O que aconteceu nos últimos anos agravou claramente as clivagens dentro dos EUA. No pós-11 de Setembro, pelo contrário, a unidade fez-se de forma muito evidente e praticamente sem contestação durante muitos meses.

Mas a política do medo que surgiu após o 11 de Setembro não pode também ter ajudado a abrir caminho ao aparecimento dos movimentos populistas e, mais tarde, ao fenómeno MAGA?

É difícil explicar o fenómeno MAGA apenas a partir do 11 de Setembro. Ele resulta de vantagens que o Partido Republicano soube acumular e também de erros cometidos pelo Partido Democrata. Houve efetivamente uma progressão, dentro do Partido Republicano e dos setores mais conservadores da sociedade americana, de uma linha de radicalismo ideológico que combina elementos religiosos, patrióticos e, muitas vezes, elementos de desinformação. Aquilo que vimos nas eleições americanas, e que também vimos no Brexit e, em certa medida, nas eleições brasileiras, passou pela utilização de factos deturpados e pela criação de narrativas que acabaram por produzir consequências eleitorais significativas. Hoje existe um mundo de informação e de desinformação que não existia naquela época. As coisas eram relativamente mais claras, ou pelo menos pareciam sê-lo.

Esse ambiente de “estar por nós ou contra nós” acabou por ganhar uma nova dimensão nos EUA. Trump deu-lhe uma cor muito própria e inesperada. Confesso que, como observador da vida americana durante muitos anos, acompanhei o aparecimento de candidatos mais radicais dentro do Partido Republicano, vimos surgir o Tea Party e outros grupos situados numa zona limite da política americana. Mas não imaginava que essa corrente viesse a tornar-se a matriz do próprio poder político nos EUA. Isso teve consequências na divisão interna da sociedade e levantou dúvidas sobre o funcionamento de alguns mecanismos de checks and balances do sistema americano.

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