No 11 de Setembro Bill Spade perdeu o emprego e um amigo. Agora o ex-bombeiro contou esse dia aos filhos dele
Passados 25 anos, Bill Spade lembra-se como se fosse ontem: “Estávamos ali parados, alinhados, e as pessoas passavam, quando, do nada, ele disse: ‘A minha mulher chama-se Carol’. Eu respondi: ‘A minha mulher chama-se Cynthia.’ Ele disse os nomes dos dois filhos, e as idades. Eu disse os nomes dos meus dois filhos, e as idades”, recorda o ex-bombeiro numa conversa por Zoom com o DN. “Ele” era John D’Allara, um agente da unidade de serviços de emergência da polícia de Nova Iorque que vinha a descer as escadas da Torre Norte do World Trade Center, a primeira a ser atingida por um avião desviado pelos piratas do ar do 11 de Setembro, quando a Torre Sul, atingida pouco depois, colapsou.
O edifício Norte tremeu e a porta ficou bloqueada. Bill, bombeiro da Rescue Company 5, sediada em Staten Island, seguira para a baixa de Manhattan mal soube do primeiro embate, e entrara na Torre Norte para ajudar as pessoas a sair. O destino quis que encontrasse John naquele momento e trabalhassem juntos, lançando à vez o peso dos seus corpos contra a porta, abrindo-a o suficiente para deixar escapar os que fugiam dos andares cimeiros.
Passado um quarto de século sobre os atentados mais mortíferos de sempre nos EUA - os ataques orquestrados pela Al-Qaeda de Osama bin Laden fizeram quase três mil mortos em Nova Iorque, no Pentágono, atingido por um terceiro avião, e na Pensilvânia onde um quarto aparelho se despenhou após a revolta dos passageiros -, a série 9/11 Reunited reconstitui os momentos em que desconhecidos criaram laços que ficaram para a vida no meio do caos e da destruição.
Com estreia no dia 22 no Disney + e dia 23 no canal National Geographic (às 22h30), a série documental mistura imagens da época com o relato dos sobrevivente e promove reencontros, alguns deles inéditos.
No caso de Bill Spade, o reencontro não foi com John D’Allara, mas sim com a viúva e os filhos do polícia que morreu à saída da Torre Norte do World Trade Center, quando o edifício colapsou por sua vez. John e Bill tinham estado a ajudar mais pessoas a sair quando perceberam que chegara a hora de procurarem um local mais seguro. Bill já estava no exterior quando a Torre caiu, tendo o bombeiro sido projetado no ar mas uma parede de betão travou a sua queda. John ficara mais para trás e foi esmagado pelos destroços da torre de 110 andares que, tal como a Sul, caiu como um castelo de cartas. Só sete meses depois, a 12 de abril de 2002, o seu corpo foi encontrado.
“Quando encontraram o corpo do John, quis ir ao velório e sentia que devia ir, mas achei que seria cobarde. Tinha de contar à Carol que estava com ele e não queria causar tumulto no velório, por isso não fui”, recorda Bill Spade, sem esconder a emoção. Mais tarde havia de ter oportunidade de almoçar com a viúva de John D’Allara. “Almocei com ela e contei-lhe a história daquele dia”, mas nunca chegara a conhecer os filhos do agente.
“Sempre senti que precisava de contar aos filhos deles sobre o pai, sobre aqueles últimos minutos. Precisava de os conhecer, de lhes apertar as mãos e ver o grande trabalho que Carol fez ao criar sozinha dois rapazes tão bons”, confessa Bill.
O reencontro surge no episódio três de 9/11 Reunited, no qual Bill Spade reencontra Carol D’Allara e os filhos, John e Nicholas, hoje com 31 e 27 anos.
Ao partilhar finalmente com o filhos de John as últimas palavras do pai, Bill conseguiu a paz de que precisava? “Sim, trouxe-me alívio, saiu-me um peso do peito. Havia algo que ele me tinha dito e que se destinava a ser dito aos rapazes e eu finalmente consegui fazê-lo”, explica o ex-bombeiro, enquanto limpa as lágrimas.
O próprio Bill passou vários dias internado depois da queda da Torre Norte. Quando acordou numa cama de hospital, “percebi, em primeiro lugar, as minhas lesões e que nunca mais trabalharia. Perdi todos os meus colegas e perdi o meu emprego de bombeiro nesse dia.” De facto, dos 12 membros do Rescue 5 destacados para o local dos ataques naquele 11 de setembro de 2001, apenas Bill sobreviveu.
“Era um trabalho que eu adorava, por isso doeu”, admite o ex-bombeiro. Sentiu alguma vez a chamada “culpa do sobrevivente”? Bill admite que “houve momento em que desejei estar com eles. Mas também queria estar com a minha família, ver o meu filho de dois meses crescer para se tornar um jovem adulto de 25 anos e ver o meu outro filho crescer e tornar-se enfermeiro e bombeiro como o pai. E ter uma relação maravilhosa com a minha mulher. Vinte e cinco anos depois acho que isso é o mais importante, e foi-me concedido. Portanto, não estar ali com os outros rapazes... Não senti aquela culpa de sobrevivente porque lutei para sobreviver”.
Questionado sobre se teve noção de como os eventos daquele dia iam mudar para sempre Nova Iorque, a América e o resto do mundo, com o presidente George W. Bush a lançar então a Guerra ao Terror, Bill admite que não. “Só quando saí do hospital três dias depois e enquanto me levavam para casa é que vi os veículos de emergência e os aviões militares no céu. Foi só então que percebi a gravidade da situação. Tudo nos EUA estava paralisado. A Disney World estava fechada!”, exclama ainda hoje.
Mensagem de entreajuda que ainda ressoa hoje
Naquela terça-feira, 11 de setembro de 2001, o britânico Louis Lee Ray tinha “12 ou 13 anos” e estava numa aula de Educação Física quando os aviões embateram nas Torres. E só quando a mãe de um amigo os foi buscar à escola é que soube o que acontecera. “Ela tinha família em Nova Iorque e não sabia se eles estavam bem. Felizmente, estavam. Mas, portanto, cheguei mais cedo da escola e tínhamos uma pequena TV na cozinha, e lembro-me de estar a ver as notícias”, recorda o produtor de 9/11 Reunited, cujo pai trabalhava para a BBC. “O meu pai trabalhava na área das notícias internacionais. Não o vi durante dias depois disso, porque estava muito envolvido na cobertura”, explica ao DN por Zoom.
Mas como surgiu agora a ideia desta série documental? “Queríamos que fossem histórias contadas pelos sobreviventes do 11 de Setembro, mas também sabíamos que, para além dessas histórias, e do horror daquele dia, havia atos extraordinários de altruísmo, de coragem, de resiliência e de pessoas que se uniram nas circunstâncias mais terríveis. Parecia que havia algo maior a ser dito sobre a humanidade e sobre o que somos capazes de fazer em termos de demonstrar bondade uns aos outros nas circunstâncias mais terríveis”, conta.
Daí a ideia, não só de contar o que se passou há 25 anos, mas também de promover esta série de reencontros.
Questionado sobre o momento que mais o emocionou, Louis Lee Ray hesita, mas um dos que destaca é o encontro de Bill Spade com os filhos de John D’Allara. “Estar lá, poder desempenhar um pequeno papel na sua reunião e vê-lo dizer aos rapazes que o pai deles estava a pensar neles nos seus momentos finais foi extremamente emocionante para todos os envolvidos”, admite.
Apesar das memórias que tem do dia dos ataques e de tudo o que já lera e vira sobre o 11 de Setembro, o produtor confessa: “Eu conhecia um pouco a história, tinha uma visão geral, sabia o que tinha acontecido, mas só ao fazer este projeto é que consegui realmente ter uma noção das coisas extraordinárias pelas quais aquelas pessoas passaram. As coisas terríveis pelas quais passaram, mas também as coisas extraordinárias que aquelas pessoas fizeram umas pelas outras.”
Mas essa foi apenas uma das perspetivas. Com este documentário, Louis Lee Ray passou a ver os acontecimentos de uma nova pespetiva. “Imagino que haja um poder extraordinário em acompanhar o desenrolar dos acontecimentos, sabendo o que vai acontecer. Mas as pessoas envolvidas, naquele dia, não faziam ideia do que estava para vir. E quando se faz a cronologia da forma como nós fizemos, quando se mostra os acontecimentos quase em tempo real, obviamente intercalados com os reencontros, há um poder extraordinário e uma certa tragédia em ver estas pessoas a viver tudo isto, sem saber que, muitas vezes, o pior ainda está para vir”, conta.
Destacando o impacto que os episódios têm no espectador, o produtor sublinha que “a mensagem da série e o que de extraordinário se retira dela é o quanto as pessoas se esforçaram para ajudar completos desconhecidos. Arriscando as suas próprias vidas, só para ajudar alguém que claramente precisava de ajuda. “
Essa é uma mensagem que, segundo Louis Lee Ray, “ainda ressoa nos dias de hoje.”
Desde 2001 foram vários os filmes e documentários que tiveram o 11 de Setembro como tema. De World Trade Center, de Oliver Stone, a Voo 93, que relata os eventos a bordo do voo da United Airlines que caiu na Pensilvânia, passando por Fahrenheit 9/11 de Michael Moore. Então o que é que este 9/11 Reunited traz de novo? “O que queríamos fazer era duplo. Queríamos encontrar uma nova forma de apresentar a história a um novo público. Afinal, toda uma geração cresceu sem qualquer experiência vivida do 11 de Setembro. E, quisemos tratar o assunto de uma forma que ninguém fizera, com a cronologia do dia a desenrolar-se, o entrelaçamento, os reencontros, não como um ponto final, mas como uma parte central da história à medida que ela acontece, pareceu-nos a forma perfeita de contar a história para o 25º aniversário dos ataques”, explica Louis Lee Ray.
E acrescenta: “Espero que o que as pessoas absorvam disto seja a mensagem de que, passados 25 anos, é realmente importante que nos lembremos destas histórias e que elas lancem uma nova luz e uma nova compreensão sobre o 11 de Setembro, em termos dos extremos a que as pessoas estavam dispostas a ir para se ajudarem umas às outras. E espero que esta abordagem diferente não só atraia um novo público, mas também ofereça algo diferente ao público que já conhece a história.”
Bill Spade também destaca a importância de transmitir o que aconteceu naquele dia às novas gerações - “para garantir que não nos esquecemos.”
Ele próprio é voluntário há muitos anos no Memorial ao 11 de Setembro, onde conta a estudantes e outros visitantes a sua história e a daquele dia que marcou uma viragem na história dos EUA e do mundo. “ O meu objetivo é educar as crianças. Estou sempre disposto a falar com alunos e coisas desse género, seja através do Zoom ou em visitas a escolas”, explica.
Quanto a atrair as novas gerações com este documentário, o ex-bombeiro mostra-se cético: “quantos jovens vão ligar a TV e ver o programa sozinhos? Não sei. Mas confesso que o que o incomoda mesmo é o 11 de Setembro não estar em muitos livros escolares. Não é ensinado nas escolas, e isso incomoda-me. Porque é muito importante.”

