Lula é candidato à reeleição e a um inédito quarto mandato como presidente.
Lula é candidato à reeleição e a um inédito quarto mandato como presidente. EPA/ANDRE COELHO

Filme das eleições de outubro no Brasil já tem 'casting' quase definido

O presidente Lula da Silva, à esquerda, e o senador Flávio Bolsonaro, à direita, estão nos papéis principais. Ronaldo Caiado e Romeu Zema, também de direita, nos secundários. E até os figurantes são desse campo político.
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Lula da Silva, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Aldo Rebelo estão confirmados, até ver, no elenco das eleições de outubro de 2026 no Brasil, provavelmente as mais importantes de 2026 à escala mundial. Lula, candidato à reeleição e a um inédito quarto mandato como presidente do quinto maior país do planeta, corre quase sozinho pela esquerda. Pelo contrário, Flávio Bolsonaro lidera um congestionado pelotão de concorrentes de direita.

Como para se candidatarem os titulares de cargos públicos são obrigados, pela lei, a desvincular-se das respetivas funções seis meses antes, este 4 de abril serve como um tiro de partida na corrida. A partir de agora, outros nomes que surjam só sem cargo. Pode, entretanto, haver desistências ou alianças entre os que já se apresentaram.

Aproveitando a ocasião, Lula, candidato assumido desde meados do primeiro mandato pelo PT, de centro-esquerda, anunciou, dia 31, a continuidade de Geraldo Alckmin como seu vice. E Ronaldo Caiado, agora já ex-governador de Goiás, foi apresentado, no dia 30, como vencedor de uma espécie de primárias no PSD, de centro-direita, batendo Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, e Ratinho Júnior, o governador do Paraná que era o preferido do partido mas desistiu à última hora por supostas pressões na política local. Dias antes, Romeu Zema, do Novo, semelhante ao português Iniciativa Liberal, também se afastara do governo de Minas Gerais para tentar o Palácio do Planalto. 

Flávio Bolsonaro ainda é o favorito da direita.
Flávio Bolsonaro ainda é o favorito da direita.EPA/Andre Borges

Com Zema e Caiado confirmados, cresce a concorrência na direita a Flávio Bolsonaro, do PL, ainda o favorito desse campo e segundo melhor pontuado nas sondagens de primeira volta, atrás apenas de Lula, com quem empataria em caso de eventual segunda. E os demais candidatos acima de 1% nas pesquisas de opinião são também de direita, o novato Renan Santos, do Missão, e o experiente Aldo Rebelo, do Democracia Cristã.

Como outros países, o Brasil está altamente polarizado desde que, nas eleições de 2018, surgiu o fenómeno Jair Bolsonaro, que na ocasião bateu à segunda volta Fernando Haddad, candidato na ausência de Lula, então preso. Uma polarização acentuada em 2022, quando o mesmo Lula bateu o mesmo Bolsonaro pela menor diferença de sempre na história democrática brasileira: pouco mais de dois milhões de votos num universo de 157 milhões de eleitores. E que, à partida, se manterá agora que o atual presidente defronta Flávio, filho do do detido e inelegível Jair, que o indicou como sucessor.

Mas Caiado, sobretudo, e Zema insistem que o país está cansado dessa polarização, apostando na fatia do eleitorado, a chamada “terceira via”, que não é nem lulista, nem bolsonarista a 100%. “A polarização está a chegar a um grau insustentável”, sublinhou Caiado nesta semana. “O brasileiro está cansado desta idolatria política”, afirmou Zema, dias antes. 

Ronaldo Caiado foi apresentado, no dia 30, como vencedor de uma espécie de primárias no PSD, de centro-direita.
Ronaldo Caiado foi apresentado, no dia 30, como vencedor de uma espécie de primárias no PSD, de centro-direita.

Lula e Flávio, entretanto, miram-se um ao outro com metáforas de efeito. “Lula é um Opala [carro antigo] velhão”, disse o candidato do PL. “Tive um Opala 94, era turbinado, se ele conhecesse o meu Opala não falava… Opala velho é o pai dele que até já está no desmanche”.

Com o atual presidente já com vice definido, os demais candidatos procuram agora alguém que os complete. No campo de Flávio fala-se na senadora Tereza Cristina, ministra da Agricultura no governo Bolsonaro, para esvaziar a histórica ligação ao agronegócio de Caiado. Já Caiado, por ser de um estado, Goiás, fora dos grandes centros, prioriza alguém da região Sudeste, que concentra 43% da população do Brasil e é o motor económico do país, de preferência do segmento evangélico. 

Mas o candidato a vice dos sonhos de ambos é… Romeu Zema, que por ora garante correr por conta própria.

LULA DA SILVA (PT)

É candidato à reeleição e a um inédito quarto mandato. Lidera nas sondagens mas pode ser ultrapassado numa segunda volta se a direita se unir. Idade, 80 anos, e governo sem marca relevante são vistos como pontos fracos.

FLÁVIO BOLSONARO (PL)

Indicado pelo pai, espera herdar o espólio eleitoral – mais de 58 milhões de votos em 2022 – dele. Senador, tem 44 anos, nenhuma experiência executiva mas fama de menos radical da família Bolsonaro. Está em segundo nas sondagens.

RONALDO CAIADO (PSD) 

Veterano da direita brasileira, concorreu em 1989 nas primeiras eleições pós-redemocratização e volta a candidatar-se agora, aos 76, embalado por oito anos como governador muito bem avaliado de Goiás. Representa a “terceira via”.

ROMEU ZEMA (NOVO)

Vencedor surpresa das eleições de 2018 para o governo de Minas Gerais, segundo estado mais populoso do Brasil, reelegeu-se em 2022 e é hoje aprovado por mais de 60% dos mineiros. Empresário de 59 anos é quase um ultraliberal na economia.

RENAN SANTOS (MISSÃO)

Mais novo ainda do que Flávio, 42 anos, e mais liberal na economia ainda do que Zema, fundou o Movimento Brasil Livre, grupo que se destacou em manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. Começa a pontuar nas sondagens.

ALDO REBELO (DC)

Ocupou um ministério no primeiro governo de Lula e três na presidência de Dilma mas com o tempo trocou o Partido Comunista do Brasil pela Democracia Cristã é hoje é um nacionalista de direita. Tem 70 anos.

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