Eleições no Brasil. Ronaldo Caiado será o escolhido da via alternativa a Lula e Flávio Bolsonaro

Eleições no Brasil. Ronaldo Caiado será o escolhido da via alternativa a Lula e Flávio Bolsonaro

Direita e centro-direita quase optaram por Ratinho Júnior, que desistiu na reta da meta, mas decidiram-se pelo veterano governador de Goiás, que cultiva fama de “xerifão”.
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Depois de Lula da Silva anunciar a recandidatura, pela centro-esquerda, à presidência da República, e de Flávio Bolsonaro ter sido indicado pelo pai, Jair Bolsonaro, como o candidato da extrema-direita, faltava a terceira via, área algures entre a centro-direita e a direita, escolher o seu candidato nas eleições presidenciais de outubro no Brasil. Já não falta: Ronaldo Caiado, 76 anos, médico de formação, político há quatro décadas e atual governador de Goiás, vai concorrer pelo PSD, partido que tinha outros dois nomes em carteira para o Planalto. O anúncio oficial está previsto para o início da noite, no horário de Lisboa.

O partido estava inclinado a optar por Ratinho Júnior, jovem governador do Paraná que pontuava melhor nas sondagens contra Lula e Flávio e que, em recente entrevista ao DN, garantia “estar pronto” para o desafio presidencial caso fosse o escolhido. Mas acabou por se decidir por Caiado, que numa conversa anterior com o DN prometia mostrar aos brasileiros que “é possível, sem corrupção e com respeito pelo dinheiro público, melhorar a vida da população”. 

Ratinho abandonou a corrida na segunda-feira, 23, para se dedicar a manter a preponderância no estado que governa. Dias antes, o PL, de Jair e de Flávio Bolsonaro, anunciara Sergio Moro, até então senador pelo União Brasil, como candidato a governador do Paraná pelo partido. Preocupado, Ratinho, que não se pode recandidatar no estado por já ter exercido dois mandatos, preferiu concentrar-se na tarefa de encontrar um sucessor próximo da sua ala política para não perder o poder local para o ex-juiz da Operação Lava Jato.

Sobraram dois presidenciáveis no PSD, o citado Caiado e Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, visto como alternativa mais ao centro. Gilberto Kassab, o líder do partido, optou pelo primeiro e o segundo, com meros 41 anos, já até anunciou a aliados estar a preparar a candidatura a uma vaga no Senado Federal.

E quem é então o surpreendente vencedor das primárias no PSD, partido que na fundação se descreveu, segundo Kassab, “de esquerda, de direita e de centro”? Ronaldo Caiado, nascido em Anápolis, a 140 km de Goiânia, a capital de Goiás, é formado em medicina, tem património avaliado em mais de quatro milhões de euros e descende de uma família de grandes latifundiários com mais de 100 anos de atividade na política local.

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“O Brasil de Lula é um misto de mau-caratismo e incompetência”

Logo aos 40 anos foi um dos candidatos à presidência da República nas primeiras eleições diretas no Brasil pós-redemocratização, em 1989, por outro PSD sem ligação ao atual. Nas eleições ganhas por Collor de Mello a Lula da Silva na segunda volta, foi o décimo mais votado na primeira, com perto de 500 mil votos, equivalentes a 0,7% do total. Ou seja, 37 anos depois, Lula e Caiado voltam a enfrentar-se numa relação presidencial. Flávio Bolsonaro, em 1989, tinha meros oito anos. 

Foi depois deputado federal, de 1991 a 2015, senador, de 2015 a 2019, e, desde esse ano, governador de Goiás. À saída do cargo, a aprovação em torno de 70%, que indica superar clivagens ideológicas, motivou-o a tentar o Planalto. 

Entre os seus trunfos está o combate à criminalidade no estado, que lhe valeu a fama de “xerifão”. “Várias pesquisas indicam que a segurança pública é a principal preocupação de mais de 80% da população. E eu tenho resultados para mostrar. Goiás é uma exceção no Brasil. Aqui bandido não se cria e os índices de criminalidade estão em queda há anos”, contava ao DN em abril do ano passado.

Com 4% nas sondagens – Ratinho pontuava 7%...– Caiado acredita que esse discurso focado na segurança pública tem apelo no eleitorado, já que é citado em sondagens, de facto, como a maior preocupação dos brasileiros, acima de economia e saúde. Por outro lado, o governador goiano atrai apoios no chamado agronegócio, setor de que é porta-voz desde as referidas presidenciais de 1989.

Considerado o mais à direita dos três presidenciáveis do PSD – Ratinho e Leite mantiveram boa relação com o governo federal nos últimos quatro anos – e opositor fervoroso de Lula há décadas, a quem chamou de "misto de mau-caratismo e incompetência" ao DN, Caiado pode, por isso, "roubar" o discurso de Flávio. Para José Casado, colunista da revista Veja, “Caiado é um estorvo” para Flávio. “Mas enfrenta a dificuldade de convencer o eleitor de direita de que é melhor votar nele do que em alguém com o apelido Bolsonaro”, complementa o jornal O Globo, em reportagem. 

Na rádio CBN, a comentadora Malu Gaspar considera que “o foco do PSD” ao nomear o político goiano “é mais tirar votos de Flávio e não tanto de Lula”. “As pesquisas qualitativas, as que avaliam qualidades da personalidade dos candidatos, mostraram ao PSD que Caiado é visto como pessoa experiente e honesta e que Flávio é visto como inexperiente e desonesto, o que estimulou o partido a colocar Caiado na corrida…”.

A chamada "terceira via", entretanto, não se resume a Caiado. Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais pelo partido Novo, semelhante ao português Iniciativa Liberal, também disputa o eleitorado de direita e centro-direita. Além deles, há mais seis pré-candidatos declarados, a maioria deles de direita, como Renan Santos, do pequenino mas agitado nas redes sociais Missão.  

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