Face à ascensão da China, à Rússia que questiona a ordem internacional e a uma relação mais delicada com os EUA, é ainda mais indispensável para a França enfrentar o desafio europeu e agir como país europeu para defender a sua posição no mundo?Antes de mais, é realmente muito importante, enquanto ministra delegada da Francofonia, das Parcerias Internacionais e dos Franceses no Estrangeiro, estar aqui em Portugal, um dia depois das vossas eleições, para trabalhar em vários projetos de cooperação... Para reafirmar o nosso compromisso com o multilateralismo e com a União Europeia. E sei que o faço num país que também está convicto da importância da UE, num país com o qual temos laços históricos profundos, uma vontade de trabalhar em conjunto e muitos projetos em curso. Em suma, o lugar da França é necessariamente europeu, dentro de uma Europa forte e unida. Uma Europa que nem sempre concorda. Somos 27 países, é normal que tenhamos pontos de discórdia, mas precisamos de estar de acordo no essencial. E o essencial num mundo com toda esta instabilidade geopolítica é que a Europa seja independente e soberana, que seja capaz de garantir a sua própria Defesa e de exercer influência no equilíbrio do poder global. Em relação aos EUA, que este ano assinalam 250 anos de independência, a França sempre teve uma relação próxima com a América. De Lafayette à Estátua da Liberdade até aos nossos dias, como qualifica essa história comum e qual o estado atual da parceria franco-americana?Os EUA são um aliado histórico. Quando olhamos para trás, vemos o papel que a França teve na independência dos EUA. Vemos, já no século XX, o papel que os EUA desempenharam na libertação da Europa do domínio nazi. Assim, creio que hoje, enquanto nações, somos obviamente aliados. Contudo, as decisões tomadas pela atual Administração dos EUA por vezes violam o Direito Internacional e representam uma rutura com este compromisso de ação multilateral e concertada. E é neste sentido que importa relembrar a estes aliados históricos os valores a que estamos profundamente ligados.A francofonia é hoje uma verdadeira ferramenta de influência para a França e um meio de transmitir uma certa visão do mundo na cena internacional? Sei que vem de uma série de visitas a África e que daqui volta para o continente africano…Sim, vou para a Etiópia. Mais do que apenas uma ferramenta de influência, penso que a Língua Francesa constrói pontes, permite-nos unirmo-nos em torno de valores partilhados. E este espaço francófono, é como qualquer família: não concordamos em tudo, mas concordamos no essencial. E o que é interessante, quando olhamos para a Organização Internacional da Francofonia, a OIF, é o seu compromisso com o multilateralismo. Trata-se de poder influenciar uma série de conflitos e situações geopolíticas, e de dar voz a um multilateralismo que não está a falhar, porque estamos a conseguir avançar, tomar decisões e promover a Língua Francesa. E promover a Língua Francesa não é promover a França. O maior número de falantes de francês está em África. Existem 320 milhões de francófonos, e as projeções indicam que, até 2050, este número atingirá os 700 milhões. Este aumento será particularmente acentuado em África. Por isso, é importante dizer, em primeiro lugar, que a Francofonia não pertence à França; é um espaço de países que partilham esta língua ou desejam partilhá-la, porque mesmo que não seja a língua nacional, alguns países aderem à Francofonia porque querem promover o uso do francês. Não se trata apenas de promover a língua francesa ou determinados valores, mas de promover o multilinguismo, a interação entre diferentes línguas e o facto de, nos fóruns internacionais, não falarmos apenas uma língua, mas várias. Creio que nos podemos unir nesta vocação comum, que é garantir que temos um concerto com várias línguas.Existe uma visão francófona do mundo?Penso que existe uma forma diferente de exprimir certas coisas quando se fala francês, seja em África, na América do Norte, no Quebeque, ou na Ásia, nas suas várias regiões francófonas. Muitas vezes, nas organizações internacionais, é mais fácil falar inglês, porque pressupomos que todos compreendem inglês até certo ponto. Eu insisto que falemos francês, que falemos espanhol, que falemos outras línguas, que são línguas oficiais das Nações Unidas, porque é importante termos esta diversidade. Os franceses que vivem fora da França são os primeiros embaixadores do seu país no estrangeiro?Com certeza. Estima-se que existam aproximadamente 3,5 milhões de cidadãos franceses a viver no estrangeiro. Apenas 1,8 milhões estão oficialmente registados, mas não é obrigatório. E sabemos que em alguns países, como Portugal, onde existem muitos cidadãos com dupla nacionalidade, um número significativo de cidadãos franceses não se regista. ou não sentem necessidade, ou simplesmente se esquecem. Mas quero deixar uma mensagem importante para os franceses que vivem aqui em Portugal: façam o registo! Isso permite-nos personalizar os serviços consulares que lhes são oferecidos. É importante, porque o facto de não estar registado não significa que não queira casar-se aqui, registar o seu filho ou obter o seu passaporte. É importante termos um mapa real da presença francesa fora de França. Eu sou uma francesa do estrangeiro. Nasci em Paris, mas aos 2 anos e meio fui viver para as Caraíbas. Depois vivi em Nova Iorque. Vivi na Suíça. Morei em vários países. E constato que, onde quer que se esteja, esta comunidade francesa no estrangeiro, que muitas vezes se concentra em torno de um liceu francês, de um centro cultural ou de uma representação diplomática francesa - afinal, temos a segunda maior rede diplomática do mundo - é importante. Para mim, é sempre uma alegria conhecer estas comunidades francesas. Em Lisboa, entre as etapas obrigatórias da minha visita estava a ida ao Liceu francês e o encontro com representantes da comunidade francesa..Na sua função tem oportunidade de visitar as comunidades em todo o mundo. Há uma ligação à França que as une, mesmo que vivam nos lugares mais distantes?Sim, noto uma saudade genuína de França. Ao mesmo tempo, estão longe por opção própria. Decidiram estabelecer-se no exterior. Por vezes, apaixonam-se no exterior. Por vezes, decidem abrir um negócio. E nem sempre se trata de expatriação, por vezes, trata-se simplesmente de terem dupla nacionalidade e de viverem no estrangeiro. Quaisquer que sejam as razões da sua presença fora de França, noto, de um modo geral e bastante uniforme, um desejo de saber o que se passa em França, de participar no debate público nacional, de expressar as suas opiniões, de serem cidadãos de pleno direito. É isso que procuro fazer enquanto ministra responsável por os representar. Considero uma honra e uma grande responsabilidade fazê-lo sendo eu própria uma cidadã francesa do estrangeiro. Estou a dedicar todo o meu empenho e trabalho para garantir que os direitos dos cidadãos franceses no estrangeiro são consagrados, nomeadamente no âmbito de um projeto de lei que pretendo apresentar em breve à Assembleia Nacional, e também, de forma mais geral, no seu dia a dia, na resolução das questões que possam surgir em diferentes regiões geográficas, pois todas as comunidades francesas no estrangeiro têm realidades diferentes.Como foi o contacto com a comunidade francesa em Portugal?Foi longe das ideias preconcebidas, longe da imagem dos reformados franceses a viver no Algarve. A comunidade francesa em Portugal também inclui reformados, e nós adoramos os nossos reformados, mas há muitos jovens que se mudaram recentemente para o estrangeiro. É uma comunidade muito inovadora, dinâmica, focada na cultura e no empreendedorismo, e muito ligada a França. Na verdade, são duas horas e meia de voo, mas a comunidade francesa está bem integrada na sociedade portuguesa. É muito binacional, tem expectativas, e é muito importante para França.A estreita relação entre França e Portugal, alimentada pela grande comunidade portuguesa em França e por uma crescente comunidade francesa em Portugal, facilita a integração dos franceses em Portugal? Por exemplo, muitos portugueses falam francês…Claro que é muito importante. A língua é fundamental, e cada vez mais franceses que vêm viver para Portugal também se esforçam por aprender português. Penso que estas trocas entre diásporas - gosto de usar a palavra diáspora, que se aplica tão bem à diáspora portuguesa em França, como à diáspora francesa aqui - significam que os nossos cidadãos que vivem no estrangeiro são os principais construtores de pontes. São eles que estendem a mão amiga, são eles que alertam para os problemas e são muitas vezes eles que permitem encontrar soluções. Eu gostaria de elogiar o que estão a fazer, porque diariamente estão a fomentar esta aproximação que vemos na diplomacia. Isto leva a melhores relações diplomáticas devido à presença de diásporas interligadas, como é o caso entre os nossos países.E isso facilitou o seu encontro com a sua congénere portuguesa, a secretária de Estado da Cooperação, Ana Isabel Xavier?Com certeza. Acabámos por fazer a conversa em português porque eu falo português, mas podíamos tê-la feito em francês. E o facto de ela me compreender tão bem como eu a compreendo, cria uma sensação de proximidade. Isso ajuda as nossas relações diplomáticas e as nossas relações dentro da União Europeia, porque, voltando à sua primeira pergunta, o que procura a diplomacia francesa? Procuramos a autonomia, a independência e fazer com que a voz da Europa seja ouvida. Para isso, é muito importante termos relações privilegiadas como a que temos com Portugal.Quando pensamos na França, vemos a potência económica, a potência nuclear também, o membro do Conselho de Segurança da ONU. Mas também a gastronomia, o vinho, a música, o cinema. Esse soft power, para usar um anglicismo, é uma vantagem na sua vida de diplomata?Tento promover todos esses aspetos. Sou a ministra responsável pelo soft power, entre aspas. Porque, quer a Francofonia, quer as parcerias internacionais quer os cidadãos franceses no estrangeiro, tudo isto são ferramentas de influência formidáveis. Penso, em particular, na rede de escolas francesas no estrangeiro, para a qual tenho a difícil, mas fundamental, tarefa de reformar o sistema para o tornar mais sustentável, mais forte e mais independente. Ora, todos estes instrumentos fazem parte desse soft power. E sim, a França, para além dos clichés, tem uma influência real na gastronomia, na cultura, etc. E eu esforço-me por a promover. Existe também a diplomacia feminista, que é extremamente importante no nosso ministério. E tenho a sorte, como única ministra no Quai d’Orsay, de a poder personificar, de defender esta diplomacia feminista, que nós, juntamente com o Presidente da República, optámos por seguir. Tudo isto contribui para a influência da França. Mas, para além de promovermos as nossas ideias e interesses, ambicionamos ter uma voz significativa nas discussões internacionais, em tudo o que está a acontecer hoje. E é por isso que é importante fazê-lo, não sozinhos, mas como parte de uma iniciativa europeia.Já mencionou que nasceu em Paris, mas cresceu na República Dominicana, viveu em vários países. Toda esta experiência, quase este multilateralismo que personifica, de certa forma, influenciou a sua forma de exercer as suas responsabilidades ministeriais e a sua visão do mundo?Gosto de acreditar que assim é, porque penso que temos uma perspetiva diferente do nosso país quando o observamos de longe. E observei-o de longe muitas vezes. Agora, estou em França há alguns anos, envolvida na política francesa, sou ministra. Mas, durante muito tempo, observei a França a uma certa distância. É isso que fazem os franceses que vivem no estrangeiro. Num debate político tão polarizado, os franceses que vivem no estrangeiro trazem nuances, levantam questões e oferecem outras formas de ver o mundo. É enriquecedor. E contribui para a forma como desempenho essas funções, para as escolhas que faço. Por exemplo, vim a Lisboa para o lançamento de uma coligação de pioneiros na proteção dos oceanos. Ser caribenha levou-me a envolver-me muito com a conservação dos oceanos. Porque quando se está nas Caraíbas, é algo que se vê. E a França é um país das Caraíbas com territórios nessa região. Penso que para Portugal, onde o mar faz parte da sua identidade, é também fundamental. Não se pode ter uma política oceânica sem multilateralismo. Portanto, em tudo o que constitui esta magnífica pasta que tenho a sorte de poder defender e promover, penso que esta abertura e o facto de ser uma francesa do estrangeiro fazem com que talvez veja as coisas de forma diferente.Umas palavras em português, para terminar?Sim. Adoro Lisboa. Foi uma honra conhecer a comunidade francesa aqui. E participar nestas reuniões sobre a proteção dos oceanos. Espero voltar.."França e Alemanha são, especialmente nestes tempos, exemplo de como os inimigos se podem tornar amigos"