Eva Menasse esteve no Instituto Goethe de Lisboa para falar sobre a liberdade de expressão e o cancelamento na era digital.
Eva Menasse esteve no Instituto Goethe de Lisboa para falar sobre a liberdade de expressão e o cancelamento na era digital.FOTO: Gerardo Santos

Eva Menasse: “Na Áustria, como na Alemanha, os judeus eram o bode expiatório perfeito”

A escritora e jornalista austríaca Eva Menasse, esteve em Lisboa, para uma conferência no Instituto Goethe, e conversou com o DN sobre a experiência da sua família judia durante a Segunda Guerra Mundial, tema do livro ‘Vienna’, publicado em 2005 e traduzido para várias línguas, mas ainda sem edição portuguesa. O seu último romance 'Alleinruhelage' é sobre uma mulher que vive no leste da Alemanha.
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Vienna, o seu primeiro romance, saiu há duas décadas e nasce da história da sua família. Como é que uma família judia conseguiu sobreviver em Viena durante a Segunda Guerra Mundial? Parece um milagre. 

Porque a minha avó não era judia e decidiu não se divorciar do meu avô judeu. Nestes casos, a Gestapo tentava forçar o divórcio, e há investigação histórica sobre isso: muitos homens não judeus aproveitaram a oportunidade para se separarem das mulheres, enquanto as mulheres não judias, em geral, não se divorciavam. Provavelmente por terem uma visão mais tradicional da família. A minha avó sofreu todas as leis antissemitas depois de decidir não se divorciar. Tiveram de se mudar para um apartamento com outros judeus. Muitos foram deportados, pouco a pouco. Mas não se podia deportar alguém que ainda tivesse um cônjuge ariano, e o meu avô estava nessa situação. Tiveram de mandar os filhos embora para o estrangeiro, o que foi a parte mais cruel de toda a experiência. Ela ficou com ele até ao fim da guerra. Depois estavam livres e podiam tentar encontrar os filhos. 

Mas houve membros da família que não sobreviveram. 

A minha bisavó, mãe do meu avô, tinha mais de 80 anos e foi enviada para Theresienstadt, ou Terezín, onde foi morta. E a minha tia, a filha mais velha dos meus avós — isto também está descrito no romance —, fugiu para o Canadá e morreu lá de tuberculose. Os meus avós só souberam depois da guerra, porque não havia comunicação entre a Áustria e os países onde as crianças estavam. 

O seu pai e o seu tio foram para a Grã-Bretanha. Tiveram de fugir, como a irmã mais velha, apesar de terem mãe ariana. 

A mãe ariana não contava neste caso. Os nazis distinguiam entre casamentos mistos "vantajosos" e "desvantajosos": se os filhos fossem educados na religião cristã, eram considerados vantajosos; caso contrário, não. O meu pai e os irmãos consideravam-se judeus e estavam registados na comunidade judaica. 

Era uma questão de sobrevivência. 

Era, sem dúvida. Matavam crianças com essa origem. 

Saíram com a ajuda de organizações humanitárias? 

Sim, várias. Um desses projetos foi o Kindertransport, o transporte de crianças, que resgatou dez mil crianças judias da Alemanha, da Áustria e da Holanda. Todas foram levadas para Inglaterra. A Inglaterra garantiu que elas podiam entrar. Os pais, não. 

Durante o Império Austro-Húngaro, e mesmo depois da Primeira Guerra Mundial, a Áustria parece ter sido um lugar onde os judeus se integraram completamente. O Anschluss, em 1938, foi uma rutura com a história austríaca ou parte lógica dela? 

O período crucial foi o que vai do fim da Primeira Guerra Mundial ao Anschluss. A Áustria tinha sido um país enorme, com muitas línguas, difícil de atravessar de ponta a ponta — ia de Trieste, hoje na  Itália, a territórios que hoje pertencem à Ucrânia. E o imperador Francisco José ajudou a que os judeus fossem tolerados. Depois da Primeira Guerra Mundial, o país desintegrou-se. Nasceram vários países mais pequenos, a Checoslováquia, a Hungria; partes do território foram anexadas pela Itália. Ficou apenas a parte de língua alemã. Muita gente na altura, incluindo os sociais-democratas austríacos, achava que este país remanescente não sobreviveria e tentou a união com a Alemanha, que os vencedores da guerra não permitiram. Sentiram-se perdidos, sem esperança, com a economia destruída. É aí que vêm ao de cima todos os maus sentimentos — e procura-se um bode expiatório. Na Áustria, como na Alemanha, os judeus eram o bode expiatório perfeito. Os austríacos seguiram o comportamento alemão em relação aos judeus e encontraram algum alívio na ideia de que os arianos alemães eram uma raça superior. 

E depois de 1945 a Áustria assumiu o papel de vítima. 

Durante muitos anos. Só na minha infância e juventude, nos anos 80, é que um sobrevivente judeu chamado Leon Zelman fundou o Serviço de Acolhimento Judaico. Organizou fundos públicos para trazer de volta à Áustria judeus expulsos do país, a viver em Israel e nos Estados Unidos. Só nessa altura começou a surgir uma compreensão coletiva de que a Áustria não tinha feito nada depois de 1945. Desempenhou um papel realmente negativo, até aos anos 80, ao não reconhecer o seu próprio passado criminoso e ao insistir que tinha sido a primeira vítima da Alemanha nazi. 

Contudo, Bruno Kreisky era judeu. Como é que um judeu chega a chefe do Governo austríaco? 

Chegou ao poder em 1970. Social-democrata, refugiado— teve de fugir de Viena para a Suécia, e foi lá que conheceu Willy Brandt e Olof Palme, mais tarde os grandes líderes sociais-democratas europeus da sua geração. Sobreviveu no exílio, regressou depois da guerra e começou muito cedo a carreira política. Que tenha sido eleito ainda é uma espécie de milagre, mas ele não sublinhava o facto de ser judeu. Era um social-democrata. 

As pessoas sabiam? 

Sabiam. E foi uma época extraordinária. Historicamente, é um período notável da história austríaca pelas reformas que a era Kreisky, como hoje lhe chamamos, conseguiu implementar. A escola e o ensino superior tornaram-se gratuitos. A minha geração, a minha família, provavelmente não teria podido pagar o liceu. Em algumas áreas, a social-democracia austríaca foi até melhor ou mais rápida do que a alemã — na lei do aborto, por exemplo. 

Mas isso significa que os austríacos comuns, em geral católicos, puderam eleger um judeu sem problemas nos anos 70. 

Sim, não tenho tanta certeza se não tiveram problemas, mas, como se veio a verificar, Bruno Kreisky também estava muito interessado no conflito do Médio Oriente. Era um dos principais especialistas em ajudar os palestinianos a obterem atenção internacional. Foi ele quem levou Yasser Arafat a conferências internacionais. 

Era crítico em relação a Israel. 

Sim, era muito crítico em relação a Israel. E talvez isso tenha ajudado. E isso ainda é útil hoje em dia, porque a Áustria não é tão radical nestas matérias como a Alemanha atualmente. 

Nos anos 80 descobre-se que o Presidente da República tinha um passado nazi que escondera. 

Conseguiu escondê-lo mesmo quando foi secretário-geral das Nações Unidas. Hoje há quem pense que algumas pessoas sabiam e que ele podia, de certa forma, ser chantageado com essa informação. Não tenho a certeza, mas é possível. De qualquer modo, a eleição de Kurt Waldheim virou a Áustria de pernas para o ar. Lembro-me muito bem, tinha 16 anos. Havia discussões em todo o lado — nas escolas, nas universidades, na sociedade. As pessoas zangavam-se umas com as outras. O meu pai, por exemplo, achava que ele não era assim tão vilão e que seria exagero transformá-lo em bode expiatório. Mas foi definitivamente o fim da história da Áustria como primeira vítima da Alemanha nazi. Coletivamente, foi doloroso para a sociedade. Muitos historiadores e políticos ajudaram a implementar a nova perspetiva sobre a história austríaca. Desde então, tornou-se mais fácil falar destas coisas. 

Os austríacos de hoje orgulham-se de serem de um país distinto da Alemanha? 

Sem dúvida. Isso foi mesmo um problema para a extrema-direita quando ascendeu nos anos 80. Jörg Haider, o primeiro político de direita verdadeiramente bem-sucedido, vinha de uma família nazi e jogava com os sentimentos alemães, arianos, essas coisas estúpidas. Não funcionou muito tempo, porque já na minha infância os austríacos se orgulhavam de não serem alemães. Quando viajávamos e nos perguntavam "então são da Alemanha?", respondíamos sempre: "Não, não, somos da Áustria." Há uma competição permanente com a Alemanha, também no desporto. Digo isto meio a brincar, mas é verdade: os austríacos são muito maus no futebol, mas saem à rua para celebrar quando a Alemanha perde em torneios internacionais. 

Precisaram de quase um século depois da queda do império dos Habsburgos para consolidar essa ideia. 

Precisaram de outra guerra mundial, digamos. Não é uma história totalmente positiva, mas funcionou. Internacionalmente aliam-se muitas vezes aos alemães, em discussões e votações dentro da União Europeia; a Áustria e a Alemanha são muito próximas politicamente e economicamente. Mas os austríacos sentem-se diferentes e não querem ser considerados alemães.  

Vive na Alemanha há muitos anos. Como interpreta os resultados da AFD? Há algo de semelhante à década de 1930 ou é um fenómeno diferente? 

É um fenómeno diferente, mas com semelhanças. Tem a ver com a reunificação de 1989-90, mas tem também elementos globais. Há uma enorme diferença entre as grandes cidades e as províncias. As províncias estão vazias, não têm economia. E todos os que não podem sair sentem-se negligenciados e sentem raiva — não têm médicos, não têm supermercados, não têm transportes públicos suficientes. 

Não está a falar apenas da antiga RDA. 

É um problema geral. A isso soma-se, claro, na antiga RDA todo o ressentimento e o desespero que ficaram da reunificação, quando foram cometidos muitos erros. 

Mas a AfD também tem votos no Ocidente. 

Menos, mas significativos. E o essencial é que a maioria dos líderes e dos pensadores da AfD vem do Ocidente. Depois encontram o campo fértil para colher os frutos nas regiões orientais. Parte deles vive no Ocidente. Alice Weidel vive na Suíça. 

Há quem veja uma contradição em que a líder de um partido de extrema-direita seja lésbica, casada com uma mulher do Sri Lanka e em parte viva na Suíça. Mostra que não é a velha extrema-direita? 

Continua a haver setores da velha extrema-direita, sobretudo na Saxónia-Anhalt, o estado que votou na AfD. Uma direita reacionária, que rejeita toda a influência que venha de fora, e apoia-se naquilo que eles acham que é a cultura alemã. É uma coisa horrível e antiquada. Mas ao mesmo tempo usam todos os recursos modernos. Há inúmeros estudos a demonstrar que o impacto da direita se propaga de forma mais eficaz através dos meios digitais, porque procura sempre a raiva e o conflito, e não o compromisso ou a compreensão. 

Os partidos tradicionais já não são capazes de identificar os problemas e de os resolver? 

É esse o sentimento das pessoas. Pergunto-me sempre quanto é que a política nacional ainda consegue influenciar. Há maneiras de mudar o sistema fiscal e coisas do género a nível nacional. Mas, com a globalização e a digitalização, é muito difícil promover mudanças para a própria população sem desagradar a outras nações — dentro da União Europeia, por exemplo. A UE é ainda uma estrutura com atores muito diferentes, de origens e contextos económicos muito distintos, e é difícil criar um único tipo de política que se aplique a todos. Há muitos atritos, e isso dificulta a ação das políticas nacionais. Há também esta crença horrível de que basta mudar a narrativa. Na Alemanha e na Áustria os políticos estão sempre a dizer que é preciso explicar melhor o que estamos a fazer, apresentar uma narrativa otimista. Não se trata de narrativas. Trata-se de as pessoas não terem dinheiro suficiente, de verem que os ricos estão cada vez mais ricos, de as alterações climáticas não estarem a ser enfrentadas. É medo em relação ao futuro. Há dez anos eu teria dito que a Alemanha ainda era de certa forma imune, porque soube abordar o seu passado e tentou lidar com ele. Durante muito tempo os movimentos de direita mantiveram-se pequenos. E depois alastraram como uma onda. 

Em 2000 houve uma reação dramática da União Europeia contra a Áustria, por causa da entrada da extrema-direita no governo. 

Hoje até tem graça — dispararem sobre caça pequena com canhões. Na altura foi um choque para nós. 

E a extrema-direita continua forte na Áustria. 

Foram o partido mais votado nas últimas eleições. Ficaram em primeiro lugar e não conseguiram formar governo. E parecia que não queriam. Negociaram meses com os conservadores e não resultou; acabou por haver outra coligação. É uma sensação estranha, porque uma pessoa pergunta-se por que razão agiram assim. Porque não ceder um pouco para chegar ao poder? 

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