Mudança de política económica para um foco na alta tecnologia apontado como fator para mercado de trabalho sem contratar.
Mudança de política económica para um foco na alta tecnologia apontado como fator para mercado de trabalho sem contratar.Foto:

“Estou a chorar, estou exausto". Falta de emprego afeta milhões de jovens recém-licenciados na China

País enfrenta crise de desemprego jovem numa altura em que número de licenciados atinge um recorde -- 12,6 milhões de graduados. Falta de condições de trabalho afastam jovens de muitos empregos.
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Numa altura em que milhões de estudantes se licenciam nas universidades chinesas, a principal preocupação dos recém-graduados reside numa falta generalizada de emprego para quem entra no mercado de trabalho, noticiou o jornal britânico The Guardian, que sublinha que as hipóteses desta leva sejam as “mais desanimadoras até à data”.

O número de licenciados na China atingiu novos recordes este ano, acrescentou o jornal, chegando aos 12,7 milhões, mais 480 mil que em 2025. A taxa de desemprego jovem (entre os 16 e os 24 anos) está em níveis semelhantes à verificada na UE, por exemplo, sendo 15,6% na China e a taxa média europeia estando nos 15,1%.

Porém, segundo o jornal britânico, o mercado chinês está a ficar cada vez mais implacável. Com a procura baixa para cursos de artes, humanidades e línguas, várias universidades começaram a eliminar cursos ditos “obsoletos”, preferindo apostar em disciplinas que sigam o caminho nacional na aposta nas novas tecnologias.

A escala dos números de novos desempregados também é um grande desafio para as autoridades chinesas, lê-se. Apesar do recorde ser deste ano, o número de graduados ultrapassa os 10 milhões desde 2022, um número próximo da população de Portugal.

Uma das licenciadas é Jasmine, uma jovem de 22 anos que tirou Contabilidade na cidade de Xangai. Ao The Guardian, contou que esperava ter um emprego logo a seguir à licenciatura. Porém, 150 currículos enviados depois, ainda não teve sorte. Tem sido muito mais difícil do que eu imaginava”, relatou a licenciada, sublinhando que, para além do “problema” da “falta de vagas”, um trabalho com condições aceitáveis também é muito escasso.

A concorrência também é intensa, especialmente para empregos que oferecem fins de semana livres e segurança social adequada”, frisou Jasmine. Nas redes sociais chinesas, especialmente no Xiaohongshu (equivalente ao TikTok na China), a ansiedade é legível. Numa sondagem de um graduado de 2025 vista pelo jornal, 10 mil dos 14 mil que responderam disseram estar no desemprego. Noutra, pouco mais de três mil dos 4.600 que responderam disseram estar “desempregados desde a graduação”.

Nos comentários, um licenciado desabafou e pediu que “alguém o salvasse”. “Estou a chorar, estou exausto, estou calado, rendi-me”, acrescentou. Fan, que se licenciou na Universidade de Sichuan, também se queixa da falta de emprego com condições aceitáveis, como “horas regulares” e “estabilidade a longo prazo”.

Problema não é novo

Um investigador da Unidade de Informação do The Economist, que não revelou a sua identidade, contou ao The Guardian que o desemprego jovem é um problema que dura desde 2020 e que “não melhorou”, muito devido à mudança de rumo para um modelo de crescimento para bens como “veículos elétricos, baterias, semicondutores e robôs”. Esta adaptação, acrescentou, ficou ainda mais dificil com o crescimento das tecnologias de IA e que eliminaram muitos trabalhos de entrada.

Quem não consegue arranjar nada, acaba por optar pela economia dos biscates, que emprega mais de 200 milhões de pessoas em trabalhos como entregadores de encomendas e de comida. Ao jornal britânico, o investigador do The Economist sublinhou que este tipo de trabalhos “pode conduzir a uma desvalorização das competências a longo prazo, a um menor crescimento dos rendimentos e a uma progressão na carreira mais limitada”.

“As respostas políticas serão importantes para ajudar os trabalhadores a adaptarem-se e para garantir que a transição não resulte em perdas duradouras de competências e rendimentos para uma geração de jovens”, lê-se ainda.

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