Do ensino à empregabilidade: o que ainda falta para o sucesso dos jovens em Portugal?

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Os jovens estão hoje, tanto a nível mundial como em Portugal, mais qualificados do que nunca. Segundo dados da UNESCO, nas duas últimas décadas o número de estudantes universitários mais do que duplicou a nível mundial, criando gerações mais preparadas e abertas ao mundo. Ainda assim, a transição do percurso académico para o mercado de trabalho continua a ser um desafio, num momento em que, em Portugal, mais de 20% dos jovens estão em situação de sobrequalificação, ou seja, possuem níveis de escolaridade superiores às exigências da função que exercem.

Perante esta realidade, importa refletir sobre o que ainda falta fazer para garantir que o talento que se forma no país encontra, também aqui, oportunidades para crescer. De facto, se a formação académica tradicional já não parece ser suficiente para garantir o sucesso profissional, qual será, então, a solução?

Atualmente, um dos principais desafios para os jovens é efetivamente a ligação entre o ensino e as necessidades reais do mercado de trabalho. Muitos estudantes chegam ao final do seu percurso académico com um forte conhecimento teórico, mas com pouca exposição a contextos profissionais reais. Esta lacuna traduz-se frequentemente numa insegurança ao entrar no mercado de trabalho e numa adaptação mais demorada às dinâmicas das empresas.

Perante este desafio, reforçar pontes entre universidades e empresas é mais fulcral do que nunca. Programas de estágios ou projetos desenvolvidos em parceria com empresas, por exemplo, são excelentes estratégias para aproximar os estudantes da realidade laboral. Mais do que os preparar, em teoria, para uma área específica, o objetivo deve ser desenvolver competências relevantes e práticas que os ajudem a navegar num mercado cada vez mais dinâmico.

Além do domínio técnico, numa era em que a Inteligência Artificial (IA) começa a assumir tarefas rotineiras e o contacto entre profissionais de diferentes perfis, idades e localizações é cada vez mais recorrente, competências humanas como pensamento crítico, resolução de problemas, colaboração, comunicação e adaptabilidade são determinantes para o sucesso profissional. De facto, hoje já não basta dominar tecnicamente uma área; é o lado humano que distingue efetivamente os melhores profissionais.

Mas desenvolver competências e conhecer empresas e profissionais de referência depende também de uma postura proativa dos jovens na construção do seu percurso. Participar em eventos do setor de interesse, assistir a webinars, integrar workshops ou conferências e procurar oportunidades de networking são formas valiosas de complementar a formação académica. Estes momentos permitem não só acompanhar tendências e desenvolver novas competências, como também estabelecer contactos relevantes, compreender as dinâmicas do mercado e abrir portas a futuras oportunidades profissionais.

A entrada no mercado de trabalho depende de um esforço coletivo que envolve empresas, associações, governos e a sociedade em geral. Criar oportunidades de aprendizagem prática, promover o contacto entre estudantes e profissionais e valorizar o talento jovem são passos fundamentais para garantir que esta geração constrói um percurso sólido e de sucesso.

Portugal tem hoje uma geração de estudantes com enorme potencial. O desafio passa por garantir que o caminho entre o ensino e a empregabilidade se torna mais claro, mais acessível e mais alinhado com as necessidades de um mundo em constante mudança. Se conseguirmos fortalecer esta ligação, estaremos não só a apoiar o sucesso dos jovens, mas também a construir um futuro mais sustentável e inovador para o país.

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