Em outubro de 2025, Rui Martins representou a Universidade de Macau na assinatura de um acordo  de cooperação com a Universidade de Coimbra. A assinatura do acordo assinalou a adesão formal  da Universidade de Macau ao projeto da Cátedra UNESCO em Diálogo Intercultural em Patrimónios  de Influência Portuguesa, lançado pela Universidade de Coimbra.
Em outubro de 2025, Rui Martins representou a Universidade de Macau na assinatura de um acordo de cooperação com a Universidade de Coimbra. A assinatura do acordo assinalou a adesão formal da Universidade de Macau ao projeto da Cátedra UNESCO em Diálogo Intercultural em Patrimónios de Influência Portuguesa, lançado pela Universidade de Coimbra.

Espírito pioneiro: 30 anos dum académico e investigador português em Macau (II)

A 29 de Outubro de 1992, um académico e investigador português ligado à Microelectrónica chegava discretamente à Universidade de Macau, acompanhado pela esposa e três crianças. Três décadas depois, Rui Martins, agora vice-reitor, acaba de ser distinguido com o Prémio de Amizade do Governo Chinês. Pelo meio, há um percurso ímpar ligado à formação académica, ao desenvolvimento tecnológico e à cooperação com os países de língua portuguesa.
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Em 1993, foram lançados os primeiros programas de mestrado da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Macau, incluindo um mestrado em Engenharia Eletrotécnica e Eletrónica, coordenado pelo próprio Rui Martins. Contudo, o caminho não foi isento de desafios. Houve quem se opusesse ao programa, recordaria Rui Martins anos mais tarde.

“Era alegado que era impossível fazer investigação em Electrónica em Macau, que apenas grandes empresas como a IBM ou a Intel tinham essa capacidade.” Os anos seguintes provariam o contrário.

O pai dos chips “made in Macau”

Apesar de algum ceticismo, o caminho fez-se. Sob a orientação de Rui Martins, e apesar dos recursos limitados, foi desenvolvida com sucesso, em 1994, a primeira geração de chips desenhados na Universidade de Macau.

Motivado por estes avanços, Rui Martins dedicou-se à formação de uma equipa de investigação em Microelectrónica no seio da Universidade de Macau. Em 1997, foi inaugurado o primeiro programa de doutoramento nesta área, tendo U Seng Pan e Tam Kam Weng como os dois primeiros doutorandos. Em 2001, Tam Kam Weng fundou o Laboratório de Investigação de Comunicações Sem-Fios na Universidade de Macau, seguido pela criação, em 2003, do Laboratório de Investigação em Circuitos Analógicos e Mistos, cofundado por Rui Martins e U Seng Pan.

O Laboratório de Investigação em Circuitos Analógicos e Mistos cresceu rapidamente e, em novembro de 2010, foi elevado a Laboratório de Referência do Estado, tornando-se o primeiro fora do interior da China nesta área a receber a distinção.

Em mais de quatro décadas de investigação, Rui Martins publicou, em coautoria, uma dezena de livros, contando com 26 patentes registadas no interior da China e 42 nos Estados Unidos. Os artigos em revistas científicas superam as várias centenas.

Além disso, apoiou a incubação, na Universidade de Macau, de diversas startups tecnológicas ligadas a projetos de antigos alunos da instituição, incluindo a empresa de biotecnologia Digifluidic Biotech e o Grupo Silergy, ligado à área dos circuitos integrados - este último é liderado pelo seu antigo aluno e colega U Seng Pan, que, no ano passado, foi seleccionado pelo chefe do Executivo, Sam Hou Fai, para integrar o Conselho Executivo.

Em junho de 2022, Rui Martins, vice-reitor da Universidade de Macau, apresentou, em conferência de imprensa, um raro manuscrito do século XVIII recentemente incorporado ao acervo da universidade - o Relatório Oficial da Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongzheng da China em 1725-1728. Este documento histórico, que regista a visita do enviado português a Pequim via Macau, constitui uma fonte de grande importância para o estudo das relações sino-portuguesas e do papel central de Macau nessas interações históricas.
Em junho de 2022, Rui Martins, vice-reitor da Universidade de Macau, apresentou, em conferência de imprensa, um raro manuscrito do século XVIII recentemente incorporado ao acervo da universidade - o Relatório Oficial da Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongzheng da China em 1725-1728. Este documento histórico, que regista a visita do enviado português a Pequim via Macau, constitui uma fonte de grande importância para o estudo das relações sino-portuguesas e do papel central de Macau nessas interações históricas. Remi Ieong

Um legado de pontes e progresso

Para lá da Microelectrónica, Rui Martins tem sido uma figura-chave na promoção da cooperação académica entre a China e os países de língua portuguesa. Em representação da Universidade de Macau, desempenhou vários cargos na Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP), na qual foi presidente entre 2014 e 2017. É actualmente vice-presidente da organização. Em setembro de 2021, foi nomeado membro honorário da AULP, honra concedida apenas a um punhado de personalidades em todo o mundo.

Rui Martins tem sido um dos responsáveis pelo aprofundamento da colaboração bilateral entre a Universidade de Macau e Instituições do Ensino Superior do mundo de língua portuguesa, nomeadamente na formação de quadros qualificados e na investigação científica. Em Portugal, manteve a ligação ao Instituto Superior Técnico, no qual é membro do corpo docente desde outubro de 1980, sendo atualmente professor catedrático da instituição.

Ao longo da sua carreira, foi distinguido pelo governo por três ocasiões, sendo a mais recente em 2021, quando lhe foi atribuída pelo governo da RAEM a Medalha de Mérito Educativo. Recebeu também o Prémio Nacional da Ordem dos Engenheiros, em Portugal, na área de Engenharia Eletrotécnica, em 2024, na edição inaugural do galardão. Em Julho de 2010, foi eleito, por unanimidade, membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, tendo sido posteriormente elevado, em 2022, a membro efetivo, sendo o único português membro da academia a trabalhar e a viver na Ásia.

Em entrevista à Revista Macau no ano passado, Rui Martins recordava as muitas mudanças que a Universidade de Macau tinha vivido ao longo dos últimos 25 anos, desde o retorno da cidade à Pátria. “Eu já era vice-reitor em 1999. A universidade tinha à volta de 3000 alunos e eu era o único vice-reitor. Neste momento, a universidade tem cerca de 15.000 alunos - sendo metade de cursos de licenciatura e metade de mestrados e doutoramentos - e cinco vice-reitores”, afirmava então.

“Profundamente honrado” com a atribuição do Prémio de Amizade do Governo Chinês, Rui Martins pretende continuar a contribuir para o futuro da cidade, sublinhou um comunicado da Universidade de Macau, pouco depois de o académico ter recebido o galardão. A meta já foi traçada pelo próprio: transformar a distinção “numa força motivadora para continuar a contribuir para o futuro da China e o bem-estar do seu povo”.

O texto desta página é extraído da REPORTAGEM da Secção: Arte & Cultura, publicada na Revista Macau, em Novembro de 2025.

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