Os rumores de que Emmanuel Macron vai fazer uma remodelação no governo, começando pela primeira-ministra, já andavam a circular há semanas e tornaram-se esta segunda-feira à tarde realidade quando Elisabeth Borne apresentou a sua demissão (e do seu executivo) após um encontro de cerca de uma hora com o presidente francês no Palácio do Eliseu, a segunda reunião entre os dois em menos de 24 horas. O pedido foi aceite por Macron, agradecendo àquela foi apenas a segunda mulher a ocupar a chefia do governo em França pelo trabalho “exemplar” ao “serviço da nação”. “Você levou a cabo o nosso projeto com a coragem, o compromisso e a determinação de uma estadista. Obrigado do fundo do meu coração”, escreveu ainda o chefe de Estado na rede social X..A primeira parte do último capítulo desta novela governamental francesa teve lugar no domingo à noite quando Borne foi ao Palácio do Eliseu para oficialmente discutir com o presidente o mau tempo em Pas-de-Calais e a vaga de frio que está a assolar França. “Assuntos importantes”, justificaram aos media fontes próximas de Macron. Mas serão assim tão importantes que precisassem de um encontro cara a cara, perguntaram vários analistas, achando que a reunião tinha servido para discutir o calendário da remodelação. Um novo encontro entre os dois teve lugar esta segunda-feira à tarde, durando cerca de uma hora, acabando-se por ser confirmar a demissão da primeira-ministra e do governo, que assegurarão a gestão corrente até à nomeação do seus sucessores. Uma fonte do Eliseu adiantou esta segunda-feira à noite ao Le Monde que a nomeação do novo primeiro-ministro terá lugar hoje de manhã..O tempo está contra Emmanuel Macron, que precisa de refrescar o seu governo, alvo de duras críticas. Logo à cabeça a própria primeira-ministra, Elisabeth Borne, cuja posição ficou debilitada desde a polémica lei da imigração de Macron, que acabou por ser aprovada em dezembro, mas às custas de negociações com os conservadores d’Os Republicanos e o voto a favor da extrema-direita. .No final, nem todos os deputados do Renaissance (o partido do presidente) deram o seu apoio à lei, o ministro da Saúde demitiu-se em protesto e o próprio presidente francês pediu que esta fosse analisada pelo Conselho Constitucional. .Nos seus 20 meses como primeira-ministra, Borne também deu a cara por outras mudanças polémicas, como as mexidas na lei das pensões, que alterou a idade da reforma de 62 para 64 anos, gerando muitos protestos. Na carta de demissão endereçada ao chefe de Estado, Elisabeth Borne defendeu ser “mais que nunca necessário prosseguir as reformas” em França..De acordo com a AFP, Emmanuel Macron consultou várias pessoas na última semana sobre a remodelação, incluindo o ministro das Finanças, Bruno Le Maire, o antigo primeiro-ministro Édouard Philippe, mas também François Bayrou, líder centrista que também já fez parte de um governo de Macron. Aliás, Bayrou disse no domingo na BFMTV que “uma mudança é necessária”. “Chegámos ao fim de uma sequência de textos difíceis: há necessariamente um novo período que se abre”, argumentou..Moção de censura já prometida pela esquerda.A remodelação governamental agora anunciada, apesar de ainda não serem conhecidos os novos nomes do Executivo e quem transitará do atual governo, chega não só após um ano carregado de polémicas - nomeadamente com a reforma do sistema de pensões e a lei da imigração -, mas também a cinco meses das eleições europeias, com as sondagens a mostrarem que o partido de Macron está oito a dez pontos atrás nas intenções de voto em relação ao Reunião Nacional de Marine Le Pen. O presidente francês espera agora dar um novo fôlego ao seu segundo (e último) mandato e conseguir contornar a ausência de uma maioria absoluta na Assembleia Nacional..A demissão de Borne foi saudada tanto pela extrema-direita como pela extrema-esquerda: Sébastien Chenu, vice-presidente da Reunião Nacional , recebeu a notícia com um “Finalmente!”, enquanto Mathilde Panot, líder parlamentar de A França Insubmissa, acusou a primeira-ministra demissionária de “deixar para trás uma democracia gravemente danificada”..Segundo o Le Monde, Panot terá já anunciado que o seu grupo parlamentar apresentará uma moção de censura contra o próximo governo de Emmanuel Macron, seja ele qual for, se o presidente francês não apresentar previamente uma moção de confiança perante a Assembleia Nacional. .Os três nomes mais falados.O jovem ministro da Educação, Gabriel Attal, surgiu ontem como o favorito a suceder a Borne, indicou uma fonte próxima do executivo. Aos 34 anos, tornar-se-ia assim o mais jovem primeiro-ministro da V República, batendo o recorde do socialista Laurent Fabius, nomeado aos 37 anos, em 1984, e também o primeiro chefe de governo francês assumidamente homossexual..Também na corrida poderá estar Sébastien Lecornu, de 37 anos, o ainda ministro das Forças Armadas e antigo militante d’Os Republicanos, que se juntou às fileiras de Macron em 2017, tendo-se tornado um dos seus conselheiros mais próximos..Julien Denormandie, ministro da Agricultura entre 2019 e 2022, é outro dos nomes falados para o cargo de primeiro-ministro. De 43 anos, Denormandie está com Emmanuel Macron desde o início da sua primeira campanha presidencial, tendo, antes disso, sido seu chefe de gabinete adjunto quando Macron era ministro da Economia de François Hollande.