Eleições no Quebeque. Separatistas favoritos à vitória com promessa de referendo... mas só no pós-Trump
Os 6,4 milhões de eleitores do Quebeque vão esta segunda-feira (5 de outubro) às urnas, para decidir qual será a composição da Assembleia Nacional e, consequentemente, quem formará governo nesta província canadiana.
As sondagens apontam para a vitória dos separatistas do Partido Quebequense (PQ), liderados por Paul St-Pierre Plamondon (ou PSPP, como é conhecido), que querem voltar ao poder após 12 anos na oposição - primeiro ao Partido Liberal do Quebeque (PLQ) e, desde 2018, à Coligação Futuro Quebeque (CAQ, na sigla original em francês).
Uma das suas promessas é a realização de um novo referendo independentista (será o terceiro, depois de os eleitores terem rejeitado confortavelmente essa ideia em 1980 e de forma mais estreita em 1995).
Mas, em plena guerra comercial com os EUA, a ideia é que este só se realize após a saída de Donald Trump da Casa Branca. O que não deixará de ser um teste para o primeiro-ministro canadiano, o liberal Mark Carney, a duas semanas de outra consulta (não vinculativa) sobre a independência da província de Alberta.
Como decorrem as eleições?
Os 127 deputados da Assembleia Nacional do Quebeque são eleitos através de um sistema uninominal maioritário, com os eleitores a escolher um representante por cada um dos distritos eleitorais. O vencedor é o mais votado, mesmo que não tenha alcançado a maioria.
O partido com mais deputados forma o governo, que poderá ser de maioria se conseguir ter 64 representantes na Assembleia Nacional. Apesar de as sondagens não lhe darem mais do que 30% das intenções de voto, o Partido Quebequense pode conseguir essa maioria (seria a com a menor percentagem de votos de sempre).
E o que dizem as sondagens?
A média das sondagens feita pelo site Poliwave dá a vitória aos nacionalistas do PQ com 29,4% das intenções de voto, mais de seis pontos percentuais acima dos liberais de Charles Milliard (23,2%), que são federalistas e querem continuar a fazer parte do Canadá.
O partido de PSPP está, nas projeções, à beira da maioria (com os votos a poderem ser dispersados por várias formações políticas), razão pela qual o líder apela aos eleitores ainda indecisos para votarem nele e lhe darem um "mandato sólido".
Em terceiro lugar, com 18,4%, surge o CAQ, de Christine Fréchette, que está atualmente no poder tendo conseguido uma maioria absoluta de 79 deputados nas últimas eleições de 2022 -- nas quais o PQ ficou reduzido a apenas três representantes (entretanto subiu para sete) e o PLQ ficou com 18.
O CAQ é nacionalista e quer proteger a identidade do Quebeque, a única província canadiana onde o francês é maioritário e a única língua oficial, mas é contra um referendo.
O Partido Conservador do Quebeque (o mais à direita na província), de Éric Duhaime, deverá estrear-se na Assembleia com uma dezena de deputados, estimando-se que tenha 17,3% das intenções de voto.
Os progressistas urbanos do Quebeque Solidário, coliderados por Ruba Ghazal e Sol Zanetti, surgem com 10,2%.
É a promessa de um novo referendo que está a fazer subir o Partido Quebequense?
A ascensão do PQ desafia as tendências políticas no Canadá, onde se assiste a uma onda de patriotismo em resposta à guerra comercial de Trump e às constantes referências ao país como 51.º estado norte-americano.
O PQ insiste em querer um novo referendo. “O objetivo da luta corajosa do nosso povo é sobreviver em francês” num país que é predominantemente de língua inglesa e “tornar-se um país”, disse St-Pierre Plamondon num debate na campanha.
"Esse momento está a chegar”, acrescentou, tendo anunciado contudo no mês passado que o referendo só se pode realizar depois de Trump deixar a presidência.
Uma decisão “requer condições que permitam um debate informado e calmo”, afirmou, dizendo que este não pode ser "sequestrado pelas turbulências da política norte-americana, nem pelo teatro de um presidente imprevisível".
Mas não é o fervor nacionalista que está por detrás dos números do PQ, segundo a cientista política Valerie Gaudreau, que disse à AFP que é o resultado da "desilusão" em relação ao atual governo, principalmente no que diz respeito ao custo de vida.
“O desejo de mudança é mais forte do que o desejo de independência”, disse a colunista do jornal Le Soleil à agência de notícias francesa.
De facto, as últimas sondagens apontam que só 31% dos eleitores defendem a independência do Quebeque, sendo que o primeiro-ministro é mais popular na província do que Paul St-Pierre Plamondon (67% de Carney, contra 40% de PSPP).
Em todo o Canadá a taxa de aprovação de Carney é de 70%, segundo um estudo da Spark Insight. É a maior taxa de aprovação alguma vez registada na história do Canadá para um primeiro-ministro.
Porque é que a eleição pode tornar-se num teste a Carney?
O primeiro-ministro canadiano tem-se mantido de fora da campanha, não querendo ser acusado de influência federal, mas tem mostrado o seu apoio ao Quebeque.
Uma das razões pela qual disse ter suspendido as negociações comerciais com os EUA foi porque Trump queria que enfraquecesse as regras relacionadas com a proteção da língua francesa.
Mas, caso o PQ ganhe, Carney pode esperar maior pressão da parte do governo de Quebeque, com St-Pierre Plamondon a dizer que iria eliminar a pasta de ministro dos Assuntos Intergovernamentais (que faz a ligação com o governo federal) e nomear um ministro da Independência, responsável por procurar o melhor para a província - ameaçando a unidade do país em plena guerra comercial.

