Em pleno braço de ferro com Volodymyr Zelensky, Mykhailo Fedorov afirmava há dias que “existem apenas três cargos no país que, ao lado das tropas no campo de batalha, moldam realmente o rumo da guerra: o presidente, o ministro da Defesa e o comandante das Forças Armadas da Ucrânia”. Afastado da pasta da Defesa pelo chefe do Estado, o ministro recusou as ofertas de outros cargos que lhe foram feitas por Zelensky na esperança de acalmar os protestos de rua provocados pela saída do homem que reformou umas forças armadas ainda muito de estilo soviético e é visto como “o pai da guerra dos drones” insistindo que só volta para a Defesa. Mas e se ao tirá-lo do governo, Zelensky tiver transformado um ministro leal num potencial rival político?A questão tem sido colocada por vários analistas e foi alvo de um artigo de análise no Kyiv Independent. Tudo porque aos 35 anos, Fedorov viu a sua popularidade disparar desde que foi afastado do cargo, no passado dia 15 de julho. Segundo uma sondagem Rating Group, realizada nos dias 20 e 21 deste mês, o número dos inquiridos que dizem confiar no antigo ministro da Defesa passou de 35% para 65% numa semana. Mais, apenas 5% disseram apoiar a sua destituição. Um outro inquérito realizado pelo Instituto de Sociologia Internacional de Kiev revelou que a confiança do público em Fedorov subiu de 38% para 50% nos últimos seis meses, enquanto a confiança em Zelensky se manteve estável em cerca de 61-62%.Jovem, com credenciais de reformista e empenhado em quebrar a velha ordem marcada pela corrupção, Fedorov não deixa de fazer lembrar o Zelensky que em 2019 chegou ao poder. O antigo comediante, que ganhou fama no seu país com a série Servo do Povo, derrotou então o presidente Petro Poroshenko muito graças às suas posições anti-establishment. Semelhanças que levam o Kyiv Independent a ver em Fedorov um “Zelensky 2.0”.Nessa altura, Zelensky contou com a ajuda de um jovem Fedorov na gestão das redes sociais da sua campanha, que tiveram um papel essencial na sua vitória. E quando chegou ao poder, manteve-o na sua equipa, primeiro como conselheiro e depois como ministro para a Transformação Digital. Mas foi na pasta da Defesa, que assumiu em janeiro deste ano que Fedorov se tornou numa estrela do governo ucraniano. Pelo menos até ser sacrificado na última remodelação governamental. Pressionado pelas ruas, que, além do regresso de Fedorov, exigiam a destituição do comandante das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi, Zelensky acabou por ceder à segunda reivindicação uma semana depois, mas mantém-se firme na rejeição ao regresso do ministro. Mas ao recusar recuar, o que seria visto como sinal de fraqueza, Zelensky conseguiu um outro efeito, com incerteza menos desejado do seu ponto de vista: pela primeira vez o nome de Fedorov aparece entre os possíveis candidatos a umas presidenciais. Com a Ucrânia sob lei marcial e a guerra ainda sem fim à vista, a realização de um escrutínio é um cenário que não está em cima da mesa num futuro imediato. E Zelensky, cujo mandato deveria ter terminado em maio de 2024, continua a liderar as sondagens. A último do Rating Group dá-lhe 22,3% das intenções de voto, à frente do antigo comandante das Forças Armadas e atual embaixador da Ucrânia no Reino Unido, Valerii Zaluzhnyi, com 14,9%. Mas no terceiro lugar, com 13,4% aparece pela primeira vez Fedorov, ultrapassando o chefe de gabinete do presidente, Kyrylo Budanov, com 7,2%. Tanto Zaluzhnyi como Budanov há já algum tempo surgem como possíveis adversários de Zelensky numas eventuais presidenciais. Mas Fedorov pode vir baralhar as contas, num momento em que a popularidade do presidente está a ser afetada negativamente pela onda de indignação popular contra a destituição do seu ministro. “Neste momento, está a surgir um quarto candidato potencial - Fedorov”, afirmou o analista político Volodymyr Fesenko, citado pelo Kyiv Independent. Para ele, “o fator-chave, nesta altura, é a mitologia que se formou à sua volta - a imagem do reformador mais bem-sucedido da Ucrânia e do pai da guerra com drones”. A questão que se põe é quanto tempo vai durar esta onda de entusiasmo à volta de Fedorov. Afinal nada garante que o ex-ministro consiga manter a popularidade em alta se as presidenciais ainda estiveram a anos de distância. Para já, o próprio garantiu no X: “a mudança é inevitável”.