Dumitru-Dorin Prunariu continua um apaixonado pelo Espaço
Dumitru-Dorin Prunariu continua um apaixonado pelo EspaçoVitalie Brega

Dumitru Prunariu: "Ninguém imaginaria que 20 anos, um mês e dois dias depois do voo de Gagarin, eu me tornaria o 'Gagarin da Roménia'"

Recorda-se do voo histórico do russo Iuri Gagarin. Depois, tornou-se em 1981 o primeiro cosmonauta romeno, o 103.º homem a ir ao espaço. DN conversou por zoom com Dumitru-Dorin Prunariu, que tem um asteroide com o seu nome.
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Nasceu em Brasov, em 1952, numa altura em que a cidade se chamava Orasul Stalin [Cidade Estaline]. As pessoas continuavam a chamar-lhe Brasov?

Sim. No dia a dia, as pessoas continuavam a chamar-lhe Brașov, o nome histórico da cidade. Orașul Stalin era a designação oficial, usada pelas autoridades e pela propaganda. Depois da morte de Estaline, muitos dos nomes associados a ele foram sendo substituídos, tanto na União Soviética como noutros países.

Como foi a sua infância? Os seus pais tinham alguma ligação à aviação ou ao espaço?

Nenhuma. A minha mãe, que tinha formação de professora, ficou em casa até eu entrar na universidade, a cuidar de mim e da minha irmã. Para ela era muito importante que andássemos sempre limpos, bem vestidos, com tudo em ordem.

Quando é que o espaço se tornou importante para si?

Primeiro foi a aviação. Olhava para o céu e via aviões, umas coisas muito pequenas a voar. Lembro-me de ter uns quatro ou cinco anos e perguntar ao meu pai o que era aquilo, como voava. Ele explicou-me qualquer coisa, mas não tinha os conhecimentos necessários, porque a sua especialidade era completamente diferente. Na altura, não se divulgavam muito as possibilidades de estudar aviação. Só mais tarde descobri que, no Instituto Politécnico de Bucareste, havia uma secção de aviação integrada na Faculdade de Mecânica. Ninguém na minha família estava ligado a esta área, mas eu estava fascinado. Os meus pais tentaram demover-me, porque em Brașov havia um instituto politécnico com várias opções de formação. Mas o meu sonho era a aviação. Fui para Bucareste, fiz os exames de admissão e comecei a estudar. Nessa época, a indústria aeronáutica romena estava em expansão. Ceaușescu considerava a aviação uma das grandes prioridades tecnológicas da Roménia, capaz de impulsionar outras indústrias. Desenvolveram-se fábricas aeronáuticas em várias cidades importantes.

Para a aviação civil ou militar?

Havia produção para fins civis e militares. Grande parte do equipamento da nossa aviação militar era de origem soviética, mas a Roménia procurou também desenvolver soluções próprias e cooperar com outros países. Começámos a fabricar helicópteros sob licença francesa, aviões sob licença britânica e camiões com tecnologia da Alemanha Ocidental. Utilizávamos também imagens dos satélites norte-americanos Landsat. Eram exemplos de uma abertura que refletia uma certa autonomia de Bucareste em relação a Moscovo.

Voltando à faculdade, o que estudou?

Estudei Engenharia Aeronáutica em Bucareste, numa época em que o ensino desta área estava a desenvolver-se. Havia três grandes vertentes: estruturas e aerodinâmica dos aviões, motores e equipamentos de bordo. Escolhi a primeira, porque o meu sonho era construir o meu próprio avião.

O sonho não era ser piloto?

O primeiro pensamento foi ser piloto. Em criança e no liceu, construí pequenos aviões num clube de aeromodelismo em Brasov, onde aprendi noções de aerodinâmica e de mecânica. Eram modelos pequenos, mas muito importantes para eu perceber o processo. Queria construir o meu avião e depois pilotá-lo. Infelizmente, descobri que a universidade não dava licença de piloto, ensinava a projetar e construir aviões. Fui então para o aeroclube, onde tive oportunidade de voar em pequenos aviões. Nunca consegui construir o meu próprio avião, mas acabei o curso e fui trabalhar para uma fábrica de aviação em Brasov, a minha cidade natal.

O jovem cosmonauta Dumitru-Dorin Prunariu
O jovem cosmonauta Dumitru-Dorin Prunariu DR

E depois entrou para a Força Aérea?

Foi um pouco mais tarde. Todos os licenciados eram obrigados a cumprir serviço militar: seis meses, saindo com o posto de oficial na reserva. Durante esse período, candidatei-me voluntariamente à seleção para um voo espacial e fui escolhido. Antes de partir para a Cidade das Estrelas, na Rússia, o comandante da aviação militar perguntou-me se queria tornar-me oficial da Força Aérea e apresentou-me muitas vantagens. A logística do treino na Rússia era assegurada pela Força Aérea romena e o programa científico pela Comissão Romena para as Atividades Espaciais. Aceitei. Se não tivesse sido selecionado, nunca teria sido oficial, teria continuado como engenheiro civil.

Como foi a seleção?

Primeiro pediram engenheiros. Avaliaram os parâmetros médicos e psicológicos: força de vontade, determinação. No primeiro grupo ficámos cinco, e só um era oficial de carreira. Seguiram-se mais testes psicológicos e provas de resistência e de aptidão física. Dois desistiram por iniciativa própria: souberam que iam para a Rússia e acharam que as condições seriam más, porque ninguém tinha uma ideia clara do que nos esperava lá. Os três que restaram fizeram a última fase em Moscovo, no Instituto de Problemas Biomédicos. Nessa fase, foram identificados problemas no aparelho vestibular de um dos candidatos, que acabou por ser excluído. Eu e o Dumitru Dediu fomos enviados para treinar. Foram três anos na Cidade das Estrelas, onde russos e estrangeiros treinavam para voar nas Soyuz.

Já falava russo?

O meu conhecimento de russo era praticamente nulo. Os soviéticos tinham pedido que a Roménia enviasse candidatos que tivessem estudado na União Soviética e conhecessem a língua. No entanto, a Roménia tinha reduzido essas ligações e desenvolvido a sua própria formação militar. Na escola, eu aprendera francês e alemão. Nunca imaginara que viria a aprender russo e, ao princípio, nem gostava da sonoridade da língua.

Na Cidade das Estrelas tínhamos oito horas de aulas por dia, em russo, e os instrutores perceberam logo que o nosso nível era muito fraco. Tínhamos estudado a língua durante dois meses na Roménia, mas isso era muito pouco. Passámos a ter aulas com professores russos experientes no ensino a estrangeiros, duas ou três vezes por semana. Toda a formação decorria em russo, e a documentação usava o alfabeto cirílico: íamos voar numa nave soviética, com um comandante soviético. O inglês não era a língua de trabalho daquele programa, tal como o russo não era a língua de trabalho do programa norte-americano. Ao fim de seis meses, já me exprimia bastante bem; passado um ano e meio, falava russo com grande fluência.

Depois de três anos de treino, chegou o voo, em maio de 1981. Teve medo?

Depois de treinar três anos com o desejo de ir ao espaço, sente-se muito bem preparado. Passámos centenas de horas em simuladores, em todas as fases do voo, incluindo as piores situações que podiam acontecer e como enfrentá-las. O desejo era tão grande que não havia medo. Era só a vontade de subir, ver a Terra lá de cima e realizar as experiências científicas que tínhamos estudado.

Ser astronauta é algo raríssimo. Quantos são hoje?

O número continua a aumentar e depende também do critério utilizado, nomeadamente de se incluírem os voos suborbitais. Em julho de 2026, estavam registados 648 astronautas que tinham completado pelo menos uma órbita em torno da Terra e 145 pessoas que tinham realizado voos suborbitais. Eu fui o 103.º ser humano a chegar ao espaço.

Que memórias guarda desses oito dias no espaço?

Há livros e entrevistas sobre o meu voo em que conto muitas dessas experiências, embora grande parte desse material esteja em romeno. Nunca escrevi uma autobiografia. Na verdade, trabalhei muito desde o regresso e continuo bastante ativo. Mantenho uma forte ligação às atividades espaciais, através das Nações Unidas, de iniciativas europeias e de organizações como a Moon Village Association e a Asteroid Foundation. Viajo muito e continuo a participar em encontros internacionais.

Fala sempre da sua experiência?

Não só. Falo de vários temas ligados ao voo espacial. Às vezes convidam-me para falar dos problemas médicos do voo, e estudo muito o comportamento humano no espaço, também para perceber o que me aconteceu na altura.

Na altura do voo já era casado?

Sim, e tinha dois filhos. Casei aos 21 anos, no quarto ano do curso, com uma colega um ano mais nova, também de Engenharia Aeroespacial. Tivemos o primeiro filho ainda estudantes, e ela estava grávida do segundo quando acabou o curso. Quando voei, o mais velho tinha cinco anos e o mais novo três.

Percebiam que o pai tinha ido ao espaço?

Até o mais novo. Andavam no jardim de infância e às vezes falavam russo entre eles, porque sabiam mais coisas sobre brinquedos e brincadeiras em russo. Eu trabalhava o dia todo e a minha mulher ficava com eles à tarde. Viam televisão e contavam-nos histórias: «O pai do Ivan vai numa nova missão ao espaço», «o pai do Grisha voltou do espaço». Para eles, ir ao espaço era perfeitamente normal. Difícil foi quando voltaram para a Roménia e perceberam que eu era o único romeno que tinha ido ao espaço.

E os netos olham para si como astronauta?

Nenhum deles quer, para já, trabalhar na aviação ou no espaço. Sonham com outras coisas, hoje a informática está no topo. Para eles, a aviação e o espaço são coisas do dia a dia. Participaram em algumas atividades que organizei com crianças e às vezes fazem perguntas, mas receio que já estejam saturados destas histórias.

Na Roménia é visto como um herói nacional?

Sim. Aos olhos das pessoas tenho um estatuto muito especial, por ser o único que foi ao espaço e por estar sempre envolvido em atividades profissionais. Dou muitas entrevistas e, de duas em duas semanas, tenho um programa de uma hora na televisão sobre as novidades do espaço, em que explico as coisas ao nível de compreensão do público. Até termos um segundo, continuo a ser o único. A minha experiência é hoje uma parte pequena do que falo. Explico sobretudo as novas atividades espaciais e o futuro, e falo muito da Lua, porque trabalho nessa área.

De que forma?

Nas Nações Unidas, em Viena, funciona o Comité para a Utilização Pacífica do Espaço Exterior, conhecido pela sigla inglesa COPUOS. Tem um Subcomité Científico e Técnico e um Subcomité Jurídico, além da sessão plenária anual. Represento a Roménia neste comité desde 1992 e presidi-lhe durante o mandato de 2010 a 2012. É um fórum que reúne mais de uma centena de Estados, além de organizações internacionais com estatuto de observador. Os cinco tratados fundamentais das Nações Unidas sobre o espaço foram elaborados no âmbito deste processo multilateral. Em nome da Roménia, enquanto Estado-membro das Nações Unidas, propus a criação de uma equipa de ação dedicada à consulta sobre as atividades lunares, a ATLAC — Action Team on Lunar Activities Consultation. A presença de um número crescente de intervenientes na Lua torna necessário melhorar a troca de informações e a coordenação. Defendo um mecanismo através do qual os participantes possam comunicar as suas operações, os parâmetros orbitais e as atividades na superfície. A minha visão é que este trabalho contribua para um mecanismo permanente de consulta e cooperação e para o desenvolvimento de regras acordadas entre os Estados. Isso ajudaria a reduzir o risco de interferências e de danos e a promover a interoperabilidade dos equipamentos, especialmente em situações de emergência.

O que o trouxe a Portugal em 2025?

Fui a Portugal para uma reunião dos astronautas europeus. A Association of Space Explorers organiza um Congresso Planetário que reúne astronautas e cosmonautas de vários países. A sua secção europeia realiza também reuniões próprias para debater questões de organização e iniciativas europeias. Em 2025, encontrámo-nos em Lisboa, com o apoio da Agência Espacial Portuguesa. Ficámos cinco dias e visitámos Sintra, o Palácio da Pena, a Quinta da Regaleira, o Cabo da Roca e Cascais.

Dumitru-Dorin Prunariu na Embaixada da Roménia em Lisboa.
Dumitru-Dorin Prunariu na Embaixada da Roménia em Lisboa. DR

Durante a Guerra Fria houve cooperação entre as superpotências. Ainda hoje, com todas as tensões geopolíticas, o espaço continua a ser um lugar de cooperação?

Sim. Durante a Guerra Fria houve uma competição muito intensa entre a União Soviética e os Estados Unidos, mas, a certa altura, os dirigentes dos dois países decidiram mostrar ao mundo que também era possível cooperar. Em 1975, realizaram a missão Apollo-Soyuz: uma tripulação partiu de Baikonur numa nave soviética e outra da Florida numa nave norte-americana. As duas naves acoplaram em órbita, as tripulações realizaram atividades em conjunto e regressaram à Terra. Depois do colapso da União Soviética, essa cooperação ganhou uma nova dimensão. Os acordos do início da década de 1990 abriram caminho ao programa Shuttle-Mir e, mais tarde, à Estação Espacial Internacional, que reúne os Estados Unidos, a Rússia, o Canadá, o Japão e parceiros europeus. A estação mantém uma presença humana contínua desde novembro de 2000. Mesmo em períodos de forte tensão política, os programas de voos tripulados têm preservado formas de cooperação, incluindo a participação de cosmonautas russos em missões da SpaceX para a NASA e de astronautas norte-americanos em voos Soyuz. Essa continuidade resulta também da interdependência técnica e operacional dos parceiros. O encerramento da estação terá de ser coordenado, incluindo a sua retirada de órbita de forma controlada.

Há um asteroide com o seu nome. Como começou a ligação aos asteroides?

A minha participação neste trabalho remonta a 2005. A Association of Space Explorers reuniu um grupo dedicado aos objetos próximos da Terra, liderado por Rusty Schweickart, astronauta da Apollo 9, muito empenhado na defesa planetária. Trabalhámos com colegas de vários países e organizámos quatro encontros internacionais, com financiamento privado, para reunir especialistas a título pessoal. Desse trabalho resultou o relatório Asteroid Threats: A Call for Global Response, levado às Nações Unidas. Defendi esse caminho porque a ONU era o fórum adequado para discutir uma resposta global. Em 2010, assumi a presidência do COPUOS, durante um mandato de dois anos, e continuei a acompanhar o tema. Este processo contribuiu para a criação de duas estruturas internacionais: a Rede Internacional de Alerta de Asteroides, conhecida pela sigla IAWN, e o Grupo Consultivo para o Planeamento de Missões Espaciais, o SMPAG. A primeira articula a observação e a avaliação de ameaças; o segundo promove a coordenação entre agências espaciais na preparação de possíveis respostas. A defesa planetária avançou também com missões como a DART, da NASA, que alterou a órbita de um pequeno corpo de um sistema binário de asteroides, e a Hera, da Agência Espacial Europeia, concebida para estudar em detalhe os efeitos desse impacto. Em 2016, também em nome da associação, propus às Nações Unidas o reconhecimento de um dia dedicado aos asteroides. O dia 30 de junho foi proclamado Dia Internacional dos Asteroides, para promover a sensibilização e a educação em todo o mundo. Um asteroide recebeu também o meu nome.

Em 1957 tinha cinco anos. Lembra-se do Sputnik? E, mais tarde, de Gagarin?

Lembro-me dos dois. Em 1957, todos os meios de comunicação falavam do primeiro satélite. Ouvi na rádio e perguntei ao meu pai o que era um satélite. Ele explicou-me em poucas palavras que era uma esfera com quatro varetas, as antenas, que fazia bip-bip lá do espaço e fora lançada pela União Soviética. Nos dias seguintes houve um concurso de desenho no jardim de infância e eu desenhei o satélite, um círculo com quatro varetas, por cima da minha casa, comigo e com a minha irmã de mãos dadas a olhar para cima. Eu tinha nove anos quando Iuri Gagarin voou para o espaço. Soube do seu voo através de uma transmissão de rádio, na manhã de 12 de abril de 1961. Na altura, não compreendia bem o que era o espaço nem a importância histórica daquele voo, mas, mais tarde, o meu pai, que era engenheiro, ajudou-me a compreender melhor tudo isso. Naquele momento, ninguém poderia imaginar que, apenas 20 anos, um mês e dois dias depois, eu me tornaria o 'Gagarin da Roménia', o primeiro cosmonauta romeno. A figura de Gagarin ficou para sempre como uma referência na formação e nos voos espaciais de todos os exploradores do espaço.

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