Estiveram juntos no domingo, no camarote à prova de bala do estádio Nova Iorque/Nova Jérsia, onde assistiram à final do Mundial de futebol. Nesse momento, a indignação de Donald Trump para com o primeiro-ministro canadiano relacionava-se com o ar poluído oriundo do vizinho a norte e voltou a alvitrar a hipótese de impor taxas aduaneiras punitivas. No dia seguinte, esquecidas as consequências dos fogos florestais, o presidente dos Estados Unidos tirou da manga uma lei de 1930 para alegar discriminação por parte de Otava e assim impor uma nova ronda de tarifas. É o mais recente capítulo da tensão alimentada pela administração Trump com o Canadá. Há uma semana, o presidente republicava na sua rede social uma fotografia em que aparece na Sala Oval com líderes europeus e um mapa em fundo em que o Canadá se encontra sob as cores da bandeira dos EUA. Trump tem tratado o Canadá como o futuro 51.º estado do seu país em paralelo a uma renegociação pela força dos acordos comerciais. Os fogos florestais no Canadá foram o mais recente combustível para Trump querer impor direitos aduaneiros. “Os Estados Unidos estão a ser invadidos desnecessariamente por ar sujo, poluído e insalubre, cuja qualidade é perigosa e totalmente inaceitável!”, queixou-se na Truth Social o homem que retirou o país do Acordo de Paris sobre o clima, que desregulou as proteções ambientais e que promove a indústria do carvão como uma energia “bonita e limpa”. No domingo, afirmou: “O nosso ar foi envenenado. Tenho uma boa relação com o Mark Carney, mas sabem que temos de parar os incêndios lá em cima. Se pudermos ajudá-los, vamos ajudá-los. Mas talvez eles devam pagar-nos por alguns danos ou algo assim, ou devíamos aplicar algumas tarifas.” Os jornalistas começaram a perguntar à Casa Branca a base legal desta medida — que, de qualquer das formas, deveria ser da matéria do Congresso. A resposta veio na segunda-feira. Deixada a poluição no ar, a administração fez-se valer de uma lei nunca usada de 1930, que prevê taxas aduaneiras de até 50% contra países que discriminem produtos norte-americanos. Isto porque o Canadá foi o único país, além da China, a responder na mesma moeda à imposição de tarifas. No caso, a Casa Branca queixa-se dos boicotes provinciais às bebidas alcoólicas norte-americanas — que custaram cerca de 500 milhões de dólares aos produtores norte-americanos —, mas também dos limites impostos à importação de automóveis e produtos lácteos oriundos dos EUA. “É irónico, para dizer o mínimo, usar esta autoridade para impor tarifas como retaliação contra tarifas que foram impostas em resposta a ações tomadas pelos EUA”, comentou à Reuters John Veroneau, responsável pelo comércio na administração republicana de George W. Bush.Segundo a empresa Capital Economics, citada pela CNN, apenas cerca de 5% das importações canadianas seriam afetadas pelas novas taxas, que deverão entrar em vigor em 30 dias, o que é visto como uma janela temporal para que os dois países entrem em negociações. Isso mesmo disse o primeiro-ministro Mark Carney, depois de ter falado com Trump na terça-feira. “Concordámos em intensificar as negociações nas próximas semanas e a minha equipa e eu estamos entusiasmados por isso.” Carney disse ainda que o seu governo está a tentar chegar a um acordo comercial geral com a administração Trump, em vez de resolver disputas.Ponte desbloqueadaUma ponte não só liga duas margens como é também símbolo da sua união. E quando esta tem a sua inauguração adiada devido ao desentendimento entre os dois países envolvidos, muito está dito. É o caso da ponte Gordie Howe, que liga Detroit, no Michigan, a Windsor, Ontário. Vai, por fim, abrir no domingo, depois de ter sido renegociado o acordo de exploração e de distribuição dos lucros das portagens. Em fevereiro, Trump alegou como motivos para não deixar abrir a ponte a retaliação do Canadá às tarifas. Mas há também quem aponte o adiamento como uma manobra de pressão da família Moroun, doadora da campanha de Trump e proprietária da única ponte — Ambassador — até agora a ligar as duas cidades (além de um túnel)..EUA impõe taxas de 50% sobre maioria dos produtos do Canadá. Carney pronto para "intensificar" negociações com Trump.Ponte entre os EUA e Canadá abre daqui a duas semanas. Custa quatro mil milhões de euros