Há uma sombra a acompanhar as duas primeiras viagens do presidente sul-coreano. Quando se deslocou à China, a Coreia do Norte voltou a lançar mísseis balísticos para o Mar do Japão, em contravenção com as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Quando se encontrar nesta terça-feira, 12 de janeiro, com a primeira-ministra japonesa em Nara (terra natal desta última), ainda ressoam as ameaças de Pyongyang ripostar pela alegada violação territorial com drones de vigilância. A segurança é decerto um dos temas “regionais e globais” do encontro de Lee Jae Myung com a anfitriã Sanae Takaichi, como adiantou o gabinete do presidente. Mas outras questões estarão em cima da mesa, da economia às relações bilaterais, ainda e sempre afetadas pelo passado. No mês passado, o Supremo Tribunal da Coreia do Sul confirmou uma decisão de um tribunal de segunda instância que ordenava à Nippon Steel Corporation o pagamento de uma indemnização à família de um sul-coreano entretanto falecido, forçado a trabalhar durante a guerra, no período de ocupação japonês. Em 2018, o mesmo órgão judicial havia estabelecido a responsabilidade das empresas japonesas por danos a essas vítimas, mas esta é a primeira deliberação sobre um caso concreto. O tema é sensível: na sequência da decisão, o então primeiro-ministro japonês Shinzo Abe ripostou com a retirada do Coreia do Sul da lista de países com relações preferenciais e restringiu a exportação para a Coreia do Sul de três químicos (poliamida fluorada, fotorresistente e fluoreto de hidrogénio) essenciais para a produção de semicondutores e de ecrãs. À época, Tóquio alegou como motivo a “gestão inadequada” daqueles materiais e, como tal, que poderiam acabar na Coreia do Norte para serem usados no fabrico de armas. A Coreia do Sul, então presidida por Moon Jae-in, retrucou na mesma medida e, além disso, houve um boicote aos produtos nipónicos. .3Anos desde a última visita de um presidente sul-coreano ao Japão, a qual havia posto fim a um hiato de 12 anos. Já à China, a anterior viagem decorrera em 2019..Os japoneses discordam da decisão do Supremo sul-coreano. O tratado assinado entre ambos os países em 1965, 20 anos após a capitulação do Japão imperial, incluía uma verba em subvenções para a reconstrução do país e para indemnizar os indivíduos sujeitos a trabalho escravo. Em 2005, as feridas foram reabertas, quando o presidente sul-coreano Roh Moo Hyun deu visibilidade à questão das dezenas de milhares de mulheres obrigadas a prostituírem-se (as denominadas “mulheres de conforto”). Seul disse que aqueles abusos foram ignorados no acordo. E em 2018, como referido, o Supremo pronunciou-se sobre o tema, tendo concluído que o pactado entre os países deixava de fora as indemnizações das vítimas, abrindo a porta às ações judiciais individuais. .100Milhões de wons (59 mil euros) é a indemnização fixada há um mês pelo Supremo de Seul em favor dos descendentes de uma vítima de trabalho forçado durante a ocupação japonesa. Tema levou a uma crise entre os dois países entre 2019 e 2023..Em paralelo com o anunciado aprofundamento trilateral com os Estados Unidos de Joe Biden, na cimeira de Camp David, em 2023, as relações económicas foram normalizadas pela mão de Yoon Suk Yeol, destituído no ano passado na sequência da declaração da lei marcial, e de Fumio Kishida, que se demitiu em 2024. Podem as relações retroceder perante a mudança das lideranças? Não será do interesse de ambos, mas uma frase mal medida pode deitar os esforços por terra. Do lado sul-coreano, Lee provém do campo da esquerda nacionalista, como Moon Jae-in, e do lado japonês Takaichi é a herdeira política da ala nacionalista de Shinzo Abe. A chefe do governo tem um currículo de declarações e de apoios ao passado imperial, o que deixa os países vizinhos de pé atrás. Mas também já disse desejar relações “estáveis e viradas para o futuro” com Seul.. O Partido Democrático de Lee considerou apresentar na moção de destituição de Yoon a acusação de manter uma política pró-japonesa. No passado, Lee disse opor-se a qualquer cooperação militar com Tóquio enquanto a sua liderança não demonstrar “o mínimo arrependimento pelo passado”. Mas o novo presidente escolheu a palavra “pragmatismo” para definir a sua política de negócios estrangeiros. Tem como objetivo restabelecer o diálogo com o Norte e melhorar as relações com a China e com o Japão, como declarou depois de ter recebido os respetivos líderes à margem da cimeira da Cooperação Económica da Ásia-Pacífico (APEC), que decorreu em 31 de outubro e 1 de novembro passado. Na visita de quatro dias à China, deixou expresso o desejo de que Pequim exerça a sua influência junto de Kim Jong-un para que este retorne à via do diálogo. Após o fracasso da aproximação durante a presidência de Moon, o regime norte-coreano inscreveu na Constituição que o Sul é um “estado hostil”. O novo governo de Seul quer transformar essa classificação para a de “dois estados pacíficos”. Isto apesar de a Coreia do Sul continuar a perseguir os seus objetivos de defesa. Por exemplo, vai construir submarinos propulsionados a energia nuclear, resultante de um acordo com os EUA. Se o urânio vier a ser enriquecido pelos sul-coreanos, isso permitirá que Seul venha a ter capacidade para produzir armas nucleares no espaço de meses. Pyongyang depende em grande medida de Pequim, mas a sua aproximação à Rússia de Vladimir Putin pode adicionar uma camada extra de imprevisibilidade. Além disso, não se sabe até que ponto o líder chinês Xi Jinping está interessado em investir numa mudança de statu quo na península coreana. Em novembro, uma nova edição do livro branco chinês sobre armamento e proliferação deixou de mencionar a meta a desnuclearização da península coreana. Como a diplomacia chinesa não é conhecida pelo seu improviso ou incompetência, a omissão significa que, para Pequim, as prioridades são outras. Por exemplo, recalibrar as relações com Seul. Xi apelou para a Coreia do Sul estar do lado da China, ou seja “estar do lado certo da história e fazer as escolhas estratégicas corretas”, tendo havido referências de ambos sobre o passado imperialista japonês. Em Xangai, Lee visitou o edifício onde funcionou o governo coreano no exílio e encontrou-se com descendentes de ativistas pela independência. Mediador China-JapãoSe a Coreia do Norte é uma ameaça à instabilidade, Taiwan não o é menos. O recente exercício militar chinês que simulou um cerco total à ilha Formosa prova-o, e é o desenvolvimento mais recente depois de a primeira-ministra japonesa ter declarado em novembro que um eventual ataque de Pequim a Taipé equivaleria a uma “ameaça existencial para o Japão”. As relações sino-japonesas degradaram-se de imediato, com o governo chinês a dar indicações para os turistas evitarem o país do sol nascente, a cancelar concertos e exibições de filmes nipónicos, com as suas forças armadas a realizarem um exercício conjunto com a Rússia no Mar do Japão, e a restringir exportações..0Pandas no Japão dentro de dias, o que acontecerá pela primeira vez desde 1972, quando a China ativou a diplomacia do panda com Tóquio. É um programa de empréstimo daqueles animais que simboliza as relações bilaterais amistosas. A China tem direito às crias nascidas no estrangeiro..Lee tenta capitalizar neste tema. No início de dezembro, disse que posicionar-se de um dos lados iria apenas agravar as tensões e, mantendo a neutralidade, poderia trabalhar como mediador. Em Pequim, reafirmou a adesão à política de uma só China, mas também afirmou que “as relações com o Japão são tão importantes com as relações com a China”. Desconhece-se se vai entregar alguma mensagem de Xi a Takaichi..China e Coreia do Sul acertam o relógio pela hora da paz