Num discurso após a II Guerra Mundial, o então primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, apelidou a ligação política, diplomática, militar, económica e cultural que unia o Reino Unido aos EUA de “relação especial”. Mas, 80 anos depois, esta relação está em crise, com o presidente norte-americano a dizer já em duas ocasiões que Keir Starmer “não é um Winston Churchill”. Mas o atual líder britânico sabe que Donald Trump tem uma fraqueza no que diz respeito ao Reino Unido: a família real. E está disposto a usar esse trunfo em plena tensão por causa da guerra no Irão. “Por recomendação do Governo (...) e a convite do presidente dos EUA, o rei e a rainha realizarão uma visita de Estado aos EUA”, dizia o anúncio do Palácio de Buckingham. “O programa (...) celebrará as ligações históricas e a relação bilateral moderna entre o Reino Unido e os EUA, assinalando o 250.º aniversário da Independência Americana”, acrescentava. .A visita de Estado, a primeira em quase 20 anos (Isabel II fez quatro, a última em 2007), esteve em risco devido ao conflito no Médio Oriente. Momentos depois dessa mensagem, Trump anunciava na sua rede social que a viagem será de 27 a 30 de abril e incluirá “um lindo banquete na Casa Branca” a 28. “Esta ocasião memorável será ainda mais especial este ano, pois comemoramos o 250.º aniversário da nossa grande nação. Estou ansioso por passar algum tempo com o rei, a quem respeito muito. Será FANTÁSTICO!”, acrescentou o presidente, que nunca escondeu o seu fascínio pela família real britânica..Os elogios aos reis contrastam com os seus ataques contínuos não só a Starmer, que acusa de fraqueza, mas ao próprio Reino Unido - com o líder dos Liberais Democratas, Ed Davey, a falar na viagem como uma “humilhação” e a responsável pela Comissão dos Negócios Estrangeiros, a trabalhista Emily Thornberry, a defender há dias na BBC que a visita devia ser adiada para não “envergonhar” os monarcas. Basta olhar para o que diz Trump para saber que não será fácil. Momentos antes da confirmação da viagem, o presidente tinha dado dois conselhos aos países que não têm combustível de avião - identificando especificamente o Reino Unido, “que se recusou a envolver-se na decapitação do Irão”. O primeiro conselho era “comprem aos EUA, temos bastante” e o segundo era “ganhem coragem” e “vão buscar o vosso próprio petróleo!”. Isto porque “terão de começar a aprender a lutar por vocês próprios; os EUA já não estarão lá para vos ajudar, tal como vocês não estiveram lá por nós”. Não é a primeira vez que parece ameaçar deixar a NATO, tendo acusado várias vezes os aliados de não ajudarem, apesar de os EUA terem gasto “muito dinheiro” para garantir a sua defesa. A “relação especial” até começou bem, depois de Starmer usar o trunfo da família real na sua primeira visita à Casa Branca após o regresso de Trump. O primeiro-ministro entregou ao presidente uma carta do rei a convidá-lo para uma segunda visita de Estado ao Reino Unido, que se realizou em setembro. O líder do Labour, partido que tinha apoiado a democrata Kamala Harris, acabou por conseguir ter uma boa relação com Trump. Mas essa ligação foi sendo posta à prova, em especial após o presidente insistir em “comprar” a Gronelândia e ameaçar com sanções. A gota de água foi contudo o Irão. Três dias após o ataque inicial, Trump mostrou-se “muito desapontado” com Starmer por este ter bloqueado o uso da base militar de Diego García. Antes já tinha apelidado de “ato de grande estupidez” o acordo para transferir a soberania da ilha de Chagos, onde fica a base, para a Maurícia.Uma semana depois do conflito, Trump alegou que o Reino Unido se tinha oferecido para enviar um porta-aviões para o Médio Oriente - dizendo que “não precisamos de pessoas que se juntam à guerra depois de já termos ganhado”. Noutra ocasião disse que os navios britânicos são “brinquedos” quando comparados com os norte-americanos, esquecendo-se que o rei é o oficialmente o líder da Marinha. Starmer insiste que o seu Governo “não acredita numa mudança de regime vinda dos céus” e que o Reino Unido não se pode envolver numa guerra sem base legal. À Sky News, deixou claro que não vai ceder a Trump: “Esta pressão não me vai fazer vacilar. Não me vai fazer abandonar os meus princípios ou valores.” Mas entretanto já deixa que os EUA usem as bases britânicas para “ataques defensivos” contra o Irão e vai reforçar a presença militar na região, para ajudar os aliados do Golfo. .Tensão entre Washington e Londres prossegue por causa do Irão