Dois candidatos às presidenciais francesas e um possível candidato foram alvo de campanhas de desinformação. Uma candidata foi acusada de “traição a França” pelo homem mais rico do planeta. Como prevê um dos visados, Raphäel Glucksmann, “a campanha de 2027 vai ser marcada por desinformação em massa”.O primeiro alvo foi Édouard Philippe. O candidato do campo do centro-direita e antigo primeiro-ministro foi informado de que o seu nome circulava numa campanha de desinformação sobre o seu estado de saúde, tendo sido “pouco visível”. Viginum, o serviço francês responsável pela vigilância e proteção contra ingerências estrangeiras, atribuiu a mesma a indivíduos ou organizações pró-russas, tal como fez à campanha que atingiu outro ex-primeiro-ministro e também candidato Gabriel Attal. Neste caso, soube-se de mais detalhes, com o líder do Renascimento a ser vinculado a um “império de drogas” deixado em herança pelo pai, que teria morrido de overdose, além de que sofreria de Parkinson. Por fim, Glucksmann, eurodeputado e líder do pequeno partido de centro-esquerda Place Publique tem como companheira a jornalista da TV Léa Salamé. A campanha de desinformação — que em todos estes casos usurpa a identidade visual de meios de comunicação franceses — afirmava que Salamé oferecia 50 mil euros aos media que publicassem artigos favoráveis. Marine Le Pen, líder de facto do Reagrupamento Nacional, está na frente das sondagens das eleições presidenciais , cuja primeira volta está marcada para abril. À quarta candidatura, Le Pen recebe o apoio não declarado da Rússia, o que não é novidade, e agora também do empresário Elon Musk. Em 2011, quando sucedeu ao pai, Jean-Marie Le Pen, Marine iniciou uma aproximação ao Kremlin. No mesmo ano em que os russos invadem a Crimeia, a anexam e iniciam uma guerra no leste ucraniano, a então Frente Nacional não só defendia os argumentos de Vladimir Putin como contraía um empréstimo de nove milhões de euros de um banco russo. A invasão da Ucrânia, em 2022, não alterou o discurso. Pelo contrário, Marine Le Pen mostra-se contra a assistência militar francesa a Kiev. Quando esta foi recebida por Putin no Kremlin, em 2017, a semanas do escrutínio que iria levar Emmanuel Macron para o Eliseu, o russo disse que “de forma alguma” queria “influenciar os acontecimentos”, mas reservou-se ao direito de se encontrar com a líder da extrema-direita francesa. Não queria influenciar, mas a horas do encerramento da segunda volta entre Macron e Le Pen, 15 Gb de dados da campanha do primeiro são pirateados e divulgados, e envoltos em informações falsas, como, por exemplo, a de que o candidato tinha uma conta offshore nas Bahamas. Mais tarde, a operação foi atribuída a duas equipas do GRU, o serviço de espionagem externo da Rússia. O principal acionista da Tesla, SpaceX e X juntou Le Pen à lista de políticos a quem endossou o apoio, depois de Donald Trump, a alemã Alice Weidel (AfD), ou Ben Habib (Restore UK), este último depois de ter entrado em conflito com Nigel Farage. Disse que a mulher condenada em definitivo pela justiça por fraude e desvio de fundos é “a última esperança” de França. Declarações que deixaram os nacionalistas embaraçados, tendo em conta a sua ligação a Trump, extremamente impopular entre os franceses. Além disso, de pronto reabriu um debate sobre as condições de igualdade dos candidatos nas redes sociais, e em particular no antigo Twitter. “Agora é com as autoridades garantir que o algoritmo do X na Europa não favoreça nenhum candidato”, alertou o antigo comissário europeu Thierry Breton. . Perante a declaração de apoio de Musk, as operações de desinformação já reportadas e a inação do governo, a candidata ecologista Marine Tondelier — que tem como lema “Uma outra Marine é possível” — denunciou o “algoritmo manipulado” do X, exigiu a transposição da lei europeia dos serviços digitais e lançou a ideia de cortar a plataforma durante o mês que precede as eleições. “O problema desta rede social não é só uma questão de ‘liberdade de expressão’ ou de ‘liberdade de iniciativa’. Esta ferramenta pertence a uma pessoa, nos EUA, com uma ideologia supremacista e que, claramente, quer pôr a Europa totalmente submissa aos Estados Unidos”, afirmou ao Libération. A resposta de Musk não tardou: “Exijo que a calem por traição contra a França!”..Marine Le Pen contradiz-se e avança como candidata.Do corte ao quarto poder de Bezos ao poder da manipulação de Musk.Autoridades francesas fazem buscas nos escritórios da rede social X em Paris e convocam Musk para tribunal