A Dinamarca está pronta para negociar com os EUA e a Gronelândia as questões de segurança respeitantes à ilha do Ártico, mas mantém todas as opções em aberto, não descurando a hipótese de ter de responder a um ataque de forças norte-americanas. Nesta sexta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros Lars Lokke Rasmussen anunciou que as discussões entre os dois países e o território autónomo vão começar "relativamente rapidamente", embora primeiro seja necessário "parar o drama". Aos jornalistas, Rasmussen quis deixar bem claro o que estará e sobretudo o que não estará em cima da mesa, ao acrescentar que as discussões com Washington irão centrar-se "na segurança, na segurança e na segurança". Aliados na NATO, Dinamarca e Estados Unidos estiveram à beira de um até há pouco impensável confronto militar. A reiterada comunicação, nas últimas três semanas, do presidente Donald Trump de que, de uma ou de outra forma, o seu país teria de tomar a Gronelândia, não levou Copenhaga apenas a responder com o envio de militares, em conjunto com outros países europeus. As instruções que os soldados levaram inclui defender a soberania dinamarquesa por todos os meios, revelou a televisão pública DR.O cenário parece estar afastado desde que o presidente dos EUA afirmou, na quarta-feira, em Davos, na Suíça, que não vai tomar a Gronelândia pela força. Mas as chefias militares dinamarquesas não esperaram e, quando a Casa Branca divulgava uma fotomontagem de Trump a espetar uma bandeira na Gronelândia, já estava em curso o plano de defesa da ilha. Segundo o documento a que a DR acedeu, a operação militar em grande escala que decorre na Gronelândia, sob o nome Arctic Endurance, está planeada para se realizar em várias fases, deixando em aberto a possibilidade de enviar mais meios humanos e materiais, com o objetivo de "reforçar a presença e o nível de atividade na Gronelândia, de modo a demonstrar a vontade e capacidade de defender a soberania e integridade territorial do Reino da Dinamarca".Além disso, os militares destacados foram equipados com munições reais, pelo que, em caso de ataque, tinham ordens para responder ao potencial inimigo. À estação televisiva dinamarquesa, o especialista na NATO e professor na Universidade do Sul da Dinamarca Sten Rynning comentou: "Nunca pensei na minha vida que chegaríamos ao ponto em que se podia imaginar que soldados dinamarqueses fossem enviados para um exercício de defesa com munições reais devido a uma necessidade política de dissuadir os EUA." .Trump cancela tarifas à Europa após conseguir de Rutte princípio de acordo para o Ártico.Acordo, qual acordo?As tensões baixaram visivelmente após Trump ter dito que a opção militar estaria descartada, que iria desistir das taxas aduaneiras de 10% aos países que enviaram tropas para a Gronelândia e, mais tarde, ao reivindicar um acordo com a NATO, após ter reunido com o seu secretário-geral Mark Rutte. "É um bom acordo para o mundo inteiro", disse no final. "Formámos a base de um futuro acordo relativamente à Gronelândia e, de facto, a toda a região ártica. Esta solução, se concretizada, será excelente para os Estados Unidos da América e para todas os países da NATO", escreveu depois Trump na sua rede social, Truth Social. Acrescentou ainda que a proposta de incluir o sistema de defesa de mísseis Golden Dome, que ainda está no papel, estaria sujeito a mais discussões "no que diz respeito à Gronelândia".. No regresso a Washington, Trump voltou ao tema, mas ficou-se pelos limites, ou falta deles: "O limite de tempo é infinito, o que significa que não há limite de tempo. É para sempre. Isso foi discutido. Podemos fazer tudo o que quisermos. Podemos fazer [ações] militares, podemos fazer tudo o que quisermos", disse aos jornalistas, acrescentando ainda que tal está a "ser negociado". Mas, afinal, o que terá sido acordado com Rutte, que não estava mandatado para falar por Copenhaga? O chefe do governo gronelandês, Jens-Frederik Nielsen, disse "não saber o que contém o acordo".Segundo a agência Bloomberg, saiu do encontro uma promessa dos governos europeus de aumentar a sua contribuição para a segurança na região ártica, incluindo uma potencial missão da NATO. E foi abordada uma renegociação do acordo de defesa entre EUA e Dinamarca, assinado em 1951 e atualizado em 2004. Esse acordo que já prevê o acesso de soldados norte-americanos à Gronelândia em número irrestrito. No auge da Guerra Fria, chegaram a estar estacionados naquela ilha 10 mil soldados dos EUA. Neste momento, a presença norte-americana resume-se à base espacial de Pittufik. Situada no noroeste da Gronelândia, a 1500 quilómetros da capital Nuuk, foi construída em segredo e revelada em 1951, então com o nome Thule. Hoje, segundo indicações de Copenhaga, a base alberga uns 200 militares norte-americanos. .Pituffik. A base dos EUA na Gronelândia tem um radar que deteta mísseis balísticos mas também bowling e cinema.Decorrente dessa revisão do acordo estão outras hipóteses. A primeira foi aquela referida por Trump de instalar o sistema de defesa de mísseis Golden Dome. A segunda é a de prever uma alínea sobre as relações dos EUA com a Gronelândia caso esta se torne independente, como parte da população de 57 mil habitantes aspira. A terceira refere-se a um outro tipo de acesso dos EUA à ilha. O exemplo das bases aéreas britânicas de Akrotiri e Dekhalia em Chipre — nas quais Londres exerce a soberania do território — terá sido referido como modalidade a explorar. O acordo entre Copenhaga e Washington, apesar de permitir o reforço de recursos humanos e materiais, não cede o território aos EUA. Este cenário constituiria uma violação da tradição inuit que proíbe a propriedade privada de terrenos na ilha.Outros dois pontos foram referidos por algumas fontes, mas não confirmados por outras: um entendimento de que os EUA e a UE não irão impor mutuamente mais taxas aduaneiras; e a criação de um órgão para monitorizar os direitos de exploração de minerais para impedir que a China ou a Rússia tenham acesso às terras raras gronelandesas.Entre o discurso no Fórum de Davos, entrevistas, declarações à imprensa e publicações no Truth Social, Trump voltou ao tema da exploração de minerais. “Eles vão estar envolvidos em direitos minerais, e nós também,” disse Trump sobre a NATO e os Estados Unidos numa entrevista à CNBC.Mas do lado da NATO desmentiu-se que a conversa entre Rutte e Trump tenha ultrapassado a questão da segurança coletiva, tendo assegurado que o seu secretário-geral não havia "proposto qualquer compromisso sobre a soberania" da Gronelândia, como disse a sua porta-voz Allison Hart. Para Rutte, um acordo responderia a outra preocupação de Trump: evitar que "os chineses e os russos possam ter acesso económico e militar à Gronelândia". A resposta dos aliados pode passar por uma missão permanente da Aliança Atlântica naquele território. "Vamos reunir-nos na NATO com os nossos altos comandos para determinar o que é necessário", afirmou o secretário-geral. "Não duvido que possamos atingir este objetivo bastante rapidamente. Certamente em 2026.". Na ressaca dos acontecimentos, Rutte reuniu-se nesta sexta-feira de manhã, em Bruxelas, com a primeira-ministra dinamarquesa. Nas redes sociais, junto da foto do encontro, Mette Frederiksen disse concordar que "a NATO deve aumentar o seu envolvimento no Ártico". Na véspera, Frederiksen deixou bem clara a posição do seu país: "Podemos negociar todos os aspetos políticos: segurança, investimentos, economia. Mas não podemos negociar a nossa soberania". Já o ministro das Finanças do território, Múte Egede, afirmou: "Seja qual for a pressão exercida por outros, o nosso país não será cedido, nem será objeto de negócios sobre o nosso futuro." Frederiksen, depois de se reunir com Rutte, partiu para Nuuk, onde se encontrou com as autoridades locais. "Estamos a preparar os próximos passos", disse Frederiksen ao lado de Nielsen. "Estou aqui, acima de tudo, para mostrar o nosso forte apoio ao povo da Gronelândia num momento difícil."