O secretário-geral da NATO parece ter mostrado esta quarta-feira, 21 de janeiro, que ainda merece o título de “encantador de Trump”, depois de ter aparentemente convencido o presidente dos Estados Unidos a recuar na sua ameaça de tarifas comerciais de 10% contra oito países europeus já a partir de 1 de fevereiro por causa da Gronelândia, ao acordar com ele o “quadro de um futuro acordo” sobre o território dinamarquês e a região do Ártico, segundo anunciou o norte-americano na Truth Social após um encontro com Mark Rutte em Davos.“Esta solução, a concretizar-se, será excelente para os Estados Unidos da América e para todos os países da NATO. Com base neste entendimento, não imporei as tarifas que entrariam em vigor a 1 de fevereiro”, escreveu Trump na sua rede social. “Estão a ser realizadas discussões adicionais sobre a Cúpula Dourada [sistema antimísseis dos EUA], no que diz respeito à Gronelândia. Mais informações serão disponibilizadas à medida que as discussões forem avançando”. Donald Trump referiu ainda que o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff “e outros, conforme necessário, serão responsáveis pelas negociações, e reportarão diretamente a mim”. As ações em Wall Street subiram acentuadamente depois de Trump ter publicado a novidade na Truth Social - o índice Dow Jones subiu mais de 700 pontos, ou 1,6%, o S&P 500 avançou 1,5% e o Nasdaq disparou 1,7%, quase 400 pontos.À saída do Fórum Económico Mundial, Trump afirmou que a estrutura de acordo agora assinada com Rutte é “um grande acordo para todos”, e, apesar de dizer que os detalhes ainda estão a ser definidos, realçou que seria “realmente fantástico para os EUA”. Questionado sobre a sua duração, Trump afirmou que se é de longo prazo. “É um acordo para sempre. É o que chamamos um acordo infinito”, disse o líder norte-americano, acrescentando que “o acordo será divulgado muito em breve” e que este garante ao seu país “tudo o que precisávamos.”De recordar que o presidente dos Estados Unidos tinha anunciado no fim de semana a imposição de tarifas de 10%, a partir de 1 de fevereiro, contra oito países que enviaram militares para a Gronelândia na semana passada - Alemanha, Finlândia, França, Noruega, Países Baixos, Reino Unido e Suécia, além da própria Dinamarca -, com Donald Trump a avisar que essa tarifa subirá para 25% em junho, mantendo-se em vigor até que haja um acordo “para a compra total e completa da Gronelândia” por parte de Washington.Uma ameaça que deixou a Europa em estado de alerta, com António Costa a ter convocado para esta quinta-feira um Conselho Europeu extraordinário para discutir a resposta que seria dada aos Estados Unidos. Estavam em cima da mesa várias hipóteses, desde o descongelamento do pacote de 93 mil milhões de euros adotado pelos líderes europeus durante o verão e que foi suspenso após o acordo UE-EUA na Escócia - cuja ratificação foi suspensa esta semana pelo Parlamento Europeu em retaliação - ao uso da chamada “bazuca comercial”, um instrumento criado em 2023 a pensar na China, embora nunca tenha siso usado, que envolve restrições ao comércio de bens e serviços, aos direitos de propriedade intelectual e ao investimento direto estrangeiro. Um porta-voz do Conselho Europeu, citado pela Reuters, adiantou que os líderes dos 27 vão manter a reunião marcada para esta quinta-feira. Antes do seu encontro com Trump, Mark Rutte, como tinha acontecido nos dias anteriores, não comentou a questão da Gronelândia, garantindo que está “a trabalhar nesta questão nos bastidores, mas não posso fazê-lo publicamente”. Já durante a reunião entre os dois, que aconteceu depois do discurso do norte-americano em Davos, o neerlandês respondeu a algumas das críticas de Trump, garantindo que “se os EUA forem atacados, os seus aliados estarão consigo”, tal como fizeram após o 11 de Setembro. Trump agradeceu o elogio. “Ele é um bom homem, nunca me mentiu”, disse “Só que quando vejo o que se passa na Gronelândia, fico a pensar.”Ação militar afastadaNo seu discurso desta quarta-feira no Fórum Económico Mundial, Trump já tinha dedicado grande parte dos mais de 70 minutos da sua duração à questão da Gronelândia, explicando que se trata de uma necessidade de “segurança nacional estratégica e segurança internacional” e não está relacionada com as riquezas minerais da ilha do Ártico, pois existem muitas dificuldades de mineração - “é preciso atravessar centenas de metros de gelo”.Neste sentido, apelou a “negociações imediatas” para que os EUA adquiram a Gronelândia à Dinamarca, país que acusou de ingratidão pela proteção norte-americana à ilha durante a Segunda Guerra Mundial. “Esta enorme ilha desprotegida faz parte da América do Norte. É o nosso território”, disse, insistindo que precisava de “direito, título e propriedade” para o defender da China e da Rússia e construir “a maior Cúpula Dourada de sempre” contra mísseis intercontinentais. Trump refere frequentemente que a Gronelândia fez parte dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial, mas não corresponde à verdade - faz parte da Dinamarca há séculos, como Washington reconheceu num documento de 1916 assinado pelo então secretário de Estado Robert Lansing, e durante o conflito estabeleceu lá bases militares através de um acordo de segurança em tempo de guerra com Copenhaga.Pela primeira vez, o presidente dos EUA pareceu descartar de forma definitiva uma ação militar para atingir os seus objetivos. “Não preciso de usar a força. Não quero usar a força. Não vou usar a força”, afirmou o presidente norte-americano. Mesmo assim, lembrou que “provavelmente não conseguirão nada” a menos que decida “usar força excessiva”, o que, para Trump, tornaria os EUA “imparáveis”. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca afirmou que a declaração de Trump de que não iria usar a força para tomar a Gronelândia foi positiva, embora não tenha abandonado as suas ambições de adquirir a ilha. “O que fica claro após este discurso é que a ambição do presidente permanece intacta”, disse Lars Lokke Rasmussen, citado pela Bloomberg. “É positivo, isoladamente, que se diga que a força militar não será utilizada, mas isso não elimina o problema. O desafio continua.”Já o governo da Gronelândia anunciou esta quarta-feira um novo folheto com orientações para a população em caso de “crise” no território. Este documento é “uma apólice de seguro”, explicou o ministro da Autossuficiência, Peter Borg, numa conferência de imprensa pouco depois de Trump ter declarado que não usaria a força militar. “Não esperamos ter de a usar”. Num outro momento do seu discurso desta quarta-feira em Davos, Donald Trump voltou a falar da importância da Gronelândia, dizendo que “queremos um bloco de gelo para proteção mundial, e não nos vão dar”. “Podem dizer sim e nós ficaremos muito agradecidos. Ou podem dizer não e nós vamos lembrar-nos”, alertou.O presidente dos EUA ligou ainda a questão da ilha do Ártico à NATO, mas também à Europa e à Rússia. “Damos tanto e recebemos tão pouco em troca”, disse numa referência à ilha, sublinhando que os Estados Unidos só recebem “morte, desordem e enormes quantidades de dinheiro [dadas] a pessoas que não valorizam o que fazemos”. E prosseguiu, afirmando que os EUA “não obtiveram nada da NATO”, para além de protegerem a Europa da Rússia. “É tempo de a NATO intensificar a sua atuação”, uma vez que “nós estamos a ajudá-los com a Ucrânia”, disse ainda. Uma queixa sem fundamento já que os EUA foram o único membro da Aliança a invocar o seu artigo 5.º, o que aconteceu depois do 11 de Setembro. Ultimato ao Hamas A guerra na Ucrânia também mereceu alguma atenção de Trump no seu discurso, declarando estar a negociar com Vladimir Putin, “quer fechar um acordo”, e que Volodymyr Zelensky, com quem se encontrará hoje em Davos, também pretende o mesmo. Segundo o norte-americano, os dois líderes podem unir-se e fechar um acordo (...) e se não o fizerem serão estúpidos, isto é válido para ambos”. “Não quero ofender ninguém, mas é preciso fechar este acordo. Muita gente está a morrer.”Um outro foco de conflito não esquecido por Donald Trump foi o Médio Oriente, onde garantiu que “temos paz”. “Há algumas situações isoladas, como a do Hamas, e o Hamas aceitou entregar as suas armas”, afirmou, ressalvando que “nasceram com uma arma na mão, por isso não é fácil”.“É isso que eles concordaram em fazer, vão fazê-lo. (...) E saberemos nos próximos dois ou três dias, certamente nas próximas três semanas, se o farão ou não”, prosseguiu. “Se não o fizerem, serão derrotados muito rapidamente”. Trump relacionou ainda este ultimato com a campanha contra o Irão, afirmando que Teerão já não é o “bully do Médio Oriente” devido à destruição das suas instalações nucleares.Já após o seu discurso, Trump falou do seu Conselho de Paz garantindo que haverá “muitos” países representados neste organismo, que se teme que tente ser uma alternativa à ONU, pouco apreciada pelo presidente dos EUA. “Alguns precisam de aprovação parlamentar, mas, em geral, todos querem participar”, afirmou. O que não corresponde à verdade - veja-se, por exemplo, o caso de Emmanuel Macron, que foi convidado, mas face às suas reticências sobre este Conselho da Paz, Trump ameaçou com a aplicação de tarifas de 200% sobre os vinhos e champanhes franceses numa tentativa de o fazer mudar de ideias. Europa enfraquecidaQuanto ao continente europeu, disse querer partilhar a sua receita para o sucesso dos EUA para que outros a sigam, pois afirma que “certos lugares na Europa são irreconhecíveis”. “Eu adoro a Europa e quero ver a Europa prosperar, mas não está a ir na direção certa”. “Questões como a energia, o comércio, a imigração e o crescimento económico devem ser preocupações centrais para quem quer ver um Ocidente forte e unido, porque a Europa e estes países precisam de fazer o que precisam de fazer. Precisam de sair da cultura que criaram nos últimos dez anos. É horrível o que estão a fazer a si próprios. Estão a destruir-se. Queremos aliados fortes, não aliados seriamente enfraquecidos”, prosseguiu o líder da Casa Branca, sublinhando que “acreditamos profundamente nos laços que partilhamos com a Europa enquanto civilização”.Para o final da sua intervenção, Trump deixou mais um momento de autoelogio, em jeito de balanço do seu primeiro ano neste regresso à Casa Branca. “(...) Os Estados Unidos estão de volta. Maiores, mais fortes e melhores do que nunca.” .Europa quer “manter a calma” enquanto discute resposta à “chantagem” de Trump sobre a Gronelândia.“Precisamos de paz”: dia D (de diplomacia) na guerra da Ucrânia