Sentimentos antichinês é alegação usada no regime liderado por Xi Jinping.
Sentimentos antichinês é alegação usada no regime liderado por Xi Jinping.Foto: KAI NAITO / POOL

Como Pequim restringe a liberdade de expressão sobre a China fora de portas

Através da rede social controlada pelo regime, Weibo, e depois pelos meios oficiais, campanhas são lançadas contra tudo o que os censores julguem beliscar a imagem do país e dos seus líderes.
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O longo braço do Partido Comunista da China (PCC) voltou a sentir-se a milhares de quilómetros em dois casos badalados nos últimos dias. Como no passado, referências à história ou aos líderes do regime comunista que possam conflituar com a versão e a imagem oficial são alvo de uma campanha de pressão a que nada nem ninguém parece resistir. Desta vez os protagonistas foram o jogador de futebol Kylian Mbappé, o seu clube, Real Madrid, e a empresa japonesa Sanrio, da personagem Hello Kitty.

À vez, o francês Mbappé, a sociedade desportiva espanhola e a empresa nipónica desculparam-se perante a China. O primeiro caso, mais badalado, envolveu a imagem do jogador sobreposta ao que este pensava ser de um “ditador chinês” - a imagem de Mao Tsé-tung, o “grande timoneiro”, líder da revolução comunista. O legado de Mao é intocável na China, ainda que tenha deixado um rasto de morte de milhões entre os seus. Falando em nome de todos os chineses, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros Guo Jiakun afirmou que “qualquer comentário ou ação que ofenda os sentimentos do povo chinês acaba naturalmente por ser rejeitado por toda a sociedade chinesa” - e de pronto contratos publicitários do futebolista e de transmissões televisivas de jogos espanhóis, e não apenas do clube madrileno foram cancelados - retirando uma importante fatia de faturação, avaliadas em conjunto em cerca de 140 milhões de milhões de euros. De nada valeram os pedidos de desculpa em mandarim.

Mbappé não é a primeira estrela do pontapé na bola a irritar os chineses. Aconteceu a Lionel Messi, em 2024, na sequência de o argentino não ter jogado com a sua equipa, Inter Miami, em Hong Kong. Com os fãs a pagarem o equivalente a mais de 500 euros, este foi vaiado no estádio, mas mais do que isso, foi alvo de uma campanha nas redes sociais na qual foi acusado de faltar ao respeito a toda a China. Messi gravou um vídeo com legendas em mandarim para justificar a sua ausência em campo. E ainda fez juras de amor à China. Os norte-americanos tinham bem presente o que acontecera em 2019, quando Daryl Morey, um dirigente de basquetebol, então ao serviço do Houston Rockets, partilhou no então Twitter uma imagem com a mensagem “Luta pela liberdade, apoia Hong Kong”, quando no território os manifestantes se insurgiram com a legislação que iria permitir a extradição para a China continental. De pronto, a liga chinesa de basquete anunciou o corte de relações com os Rockets, clube onde atuou o gigante chinês Yao Ming. O Diário do Povo, jornal oficial do PCC, disse que “a posição de Morey magoa os fãs chineses de basquetebol e também ofende o povo chinês”. Os pedidos de desculpas do presidente dos Rockets e da NBA não evitaram o corte das transmissões televisivas durante um ano e ao mesmo tempo enfureceram alguns congressistas republicanos e democratas. “Se as empresas americanas não enfrentarem de forma decidida esta campanha de intimidação, o governo chinês vai cada vez mais restringir a liberdade de expressão fora da China”, lia-se numa carta que aqueles enviaram à direção da NBA.

Imagem do futebolista francês Kylian Mbappé, num estádio em Pequim.
Imagem do futebolista francês Kylian Mbappé, num estádio em Pequim.FOTO: EPA/WU HAO

Depois desta controvérsia, outra surgiu, em 2020, com marcas como H&M, Adidas, Nike ou Uniqlo a serem acusadas no Ocidente de usar matérias-primas de trabalho forçado da minoria uigure na província chinesa de Xinjiang. As marcas de material desportivo responderam com comunicados a condenar a situação, o que lhes valeu uma campanha negativa na rede social usada na China, Weibo, e as vendas caíram a pique. Um exemplo do que a cientista política Debby Chan, da Universidade Nacional da Austrália, denomina de “nacionalismo de consumo”. Neste, “os atores estatais e não estatais utilizam conjuntamente o mercado para promover a narrativa oficial”, obrigando pessoas e empresas a retractarem-se face às consequências diplomáticas e comerciais.

O mesmo aconteceu agora com a empresa Sanrio. A gestora da personagem Hello Kitty, que cria e gere licenças de personagens, anunciou na Weibo que vai terminar a colaboração com a série de TV japonesa Vivant. Esta, descrita como um thriller de espionagem, apresentou personagens chineses a recorrer a métodos de tortura similares aos usados pelas tropas japonesas contra civis chineses. O Global Times, ponta-de-lança ideológica em inglês, condenou a “distorção deliberada da verdade e a inversão de papéis”. Num país no qual a imagem do inofensivo urso Winnie The Pooh está banida devido a um meme que o comparava ao líder Xi Jinping, as susceptibilidades são mais do que muitas.

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