Kylian Mbappé é capitão da França.
Kylian Mbappé é capitão da França.SARAH YENESEL/EPA

Comentário de Mbappé sobre Mao Tsé-Tung ameaça custar muitos milhões ao jogador, ao Real Madrid e à liga espanhola

Jogador francês enfrenta largas críticas após vídeo humorístico. China anuncia a suspensão da transmissão dos jogos do campeonato espanhol e impacta receitas de La Liga até 2030. Real Madrid teme perdas de 10% da receita de marketing.
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O futebolista francês Kylian Mbappé, avançado do Real Madrid e capitão da seleção francesa, enfrenta duras críticas e um boicote à publicidade e aos seus direitos de imagem depois de declarações relacionadas com um meme que o associava a Mao Tsé-Tung, fundador da República Popular da China e presidente de 1949 a 1976.

O caso ganhou dimensão depois de circular, há dois dias, 26 de outubro, nas redes sociais um vídeo no qual se subentende que Mbappé se refere a Mao Tsé-Tung como um "ditador chinês", sem mencionar o nome do político e ideólogo, ao comentar uma montagem digital que colocava o rosto do futebolista no corpo do antigo líder. O meme foi partilhado no seu grupo de amigos em conversas privadas.

A polémica levou várias empresas chinesas a terminar os contratos publicitários com o jogador, colocando em causa a sua imagem comercial num dos mercados mais importantes para o futebol internacional e para o Real Madrid, orientado por José Mourinho.

Entre as empresas que anunciaram o fim das parcerias com o jogador estão a Dongpeng, do setor das bebidas, a Mengniu, uma das principais produtoras de lacticínios da China, e a Milkground, ligada à produção de queijo. "A nossa empresa opõe-se firmemente a qualquer comportamento que ofenda os sentimentos nacionais e adota uma política de tolerância zero", afirmou o grupo Dongpeng em comunicado.

A polémica teve consequências nas redes sociais. Mbappé tinha cerca de 1,1 milhões de seguidores na rede social Xiaohongshu e teve a conta banida. A plataforma alegou violação das regras da comunidade. Foram eliminados resultados nas buscas online quando se fazem pesquisas locais sobre o segundo classificado da Bola de Ouro de 2026.

Em agosto, foi anunciado um acordo entre La Liga e a Migu, uma subsidiária da China Mobile, prevendo, num contrato até 2030, 380 jogos por época, além de conteúdos próprios para o mercado chinês e asiático. Essa plataforma possibilitará um aumento de 520 milhões de subscritores, detalha o El Mundo, que faz contas ao valor que a competição espanhola alcança por ano - no caso 1,5 mil milhões de euros, dos quais cerca de 750 milhões vindos de mercados internacionais. Identificados os EUA e a China como maiores consumidores, em notícias datadas de agosto, estimavam-se valores acima dos 130 milhões de euros anuais vindos da China. Com um contrato celebrado até 2030, o protocolo de suspensão poderia impactar em 500 milhões de euros o valor de receita.

Guo Jiakun, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, disse na terça-feira, 27 de outubro, que declarações ou comportamentos que "firam os sentimentos do povo chinês serão rejeitados por todos os setores da sociedade."

Na terça-feira, Mbappé desculpou-se e reconheceu que "magoou muitas pessoas na China e nas comunidades chinesas pelo mundo". A declaração em mandarim, francês e inglês não amenizou a polémica, uma vez que a televisão estatal chinesa anunciou a decisão de deixar de transmitir os jogos da Liga espanhola.

Foi a terreiro o presidente da competição, Javier Tebas, empenhado em proteger os interesses comerciais. Reuniu com o embaixador Yao Jing em Espanha e depois de se desculpar da declaração do jogador vincou: "Não podemos permitir que uma atuação individual manche essa relação nem prejudique os mais de 20 clubes das nossas competições profissionais e milhões de adeptos chineses."

Em Espanha, vários jornais, como Marca e o El Mundo, avançam que o Real Madrid pondera intervenção mais musculada, depois de ter atribuído à "expressão individual" do jogador a resposta à polémica. Isto porque se estima que cerca de 10% da receita de marketing do clube venha da China. A Reuters relata que os principais pontos de venda da marca Adidas têm camisolas do Real Madrid, mas que se retirou a veste de Mbappé. Outras marcas de roupa, como a Dior, retiraram acessórios que tinham Mbappé como embaixador.

Esta quarta-feira, o porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Guo Jiakun voltou a pronunciar-se, já com uma comunicação mais compreensiva: "Levamos a sério os pedidos de desculpa que foram feitos." Em 2019, considerando interferência política e social de intervenientes da NBA, a China suspendeu por um ano a transmissão de jogos do principal campeonato de basquetebol.

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