Na madrugada de 28 de fevereiro, o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou que os militares dos EUA tinham dado início a “grandes operações de combate no Irão” com vista a “eliminar ameaças iminentes do regime iraniano”. Mas aquilo que mais tarde apelidou de “pequena excursão”, dizendo que não ia durar “muito mais tempo”, já vai a caminho da quarta semana. E acabou por se tornar numa guerra económica e energética, com Teerão a retaliar fechando o estreito de Ormuz (por onde passa 20% do petróleo mundial) e atacando instalações petrolíferas e de gás dos países do Golfo. O preço do barril de petróleo ultrapassou os 115 dólares na quarta-feira (esta quinta-feira recuou para os 110 dólares), depois de Israel atacar o Campo de Gás de South Pars, no Irão. Este campo offshore faz parte das maiores reservas do mundo, que são partilhadas com o Qatar e contêm gás natural suficiente para satisfazer as necessidades mundiais durante 13 anos. Os preços do gás na Europa subiram 35%. Teerão respondeu atacando o o terminal de Ras Laffan, no Qatar, que acolhe a maior instalação de exportação de Gás Natural Liquefeito do mundo. O CEO da QatarEnergy e ministro da Energia, Saad al-Kaabi, disse à Reuters que o ataque destruiu 17% da capacidade de exportação do país, sendo preciso três a cinco anos para a recuperar. Uma perda anual de rendimentos de 20 mil milhões de euros que ameaça o fornecimento de milhões de pessoas na Europa e Ásia.O Irão atacou ainda uma refinaria e um complexo petroquímico na Arábia Saudita, além de um campo de gás nos Emirados Árabes Unidos e outra refinaria no Kuwait, alegando que os EUA e Israel cometeram “um grande erro” ao atacar South Pars. “Caso isso se repita, os ataques à sua infraestrutura energética e à dos seus aliados não cessarão até que esta seja completamente destruída”, indicaram os Guardas da Revolução em comunicado.Numa mensagem na Truth Social, Trump disse que Israel, “enfurecido com os acontecimentos no Médio Oriente”, atacou “uma parte relativamente pequena” de South Pars. “Os EUA não tinham conhecimento deste ataque específico, e o Qatar não estava envolvido de forma alguma, nem fazia ideia de que iria ocorrer”, escreveu, procurando demarcar-se do sucedido. Mas fontes israelitas disseram à Reuters que o ataque foi “coordenado” com EUA, o que ameaça irritar ainda mais os aliados de Washington na região.O presidente indicou ainda que não haverá mais ataques israelitas contra este campo de gás “a não ser que o Irão, imprudentemente, decida atacar um país inocente, neste caso, o Qatar”. Nesse caso, avisou, “os EUA, com ou sem a ajuda ou consentimento de Israel, farão explodir massivamente a totalidade do Campo de Gás de South Pars com uma força e potência nunca vistas ou testemunhadas pelo Irão”.Mas o mal pode já estar feito, com o conflito a passar definitivamente de ser apenas um confronto militar (mesmo se o Pentágono vai pedir mais 200 mil milhões de dólares ao Congresso para “matar os maus”) para se tornar numa guerra económica, em que as infraestruturas de energia são um alvo válido para ambos os lados. Com consequências em todo o mundo. .Há 2500 ‘marines’ a caminho do Irão. Vão os EUA pôr tropas na ilha de Kharg?.Trump disse esta quinta-feira (19 de março) que sabia que os preços do petróleo iam subir (apesar de ter dito noutra ocasião que nunca imaginou que o Irão atacasse os países do Golfo) e que a economia dos EUA se ia ressentir “um bocadinho” por causa da guerra. “Pensei que seria pior - muito pior, na verdade. Não está assim tão mau. E vai acabar em breve”, alegou. Mas mesmo que a guerra acabe rapidamente, as consequências não vão desaparecer de um dia para o outro. “O impacto económico será provavelmente sentido durante anos”, escreveu no X a diretora do Centro de Estudos Rússia-Europa-Ásia, Theresa Fallon.O aumento do preço do petróleo devido ao fecho do estreito de Ormuz causa o aumento dos combustíveis, que se repercute num aumento de muitos outros bens devido ao impacto na cadeia de fornecimento. Além disso, as infraestruturas entretanto destruídas ou danificadas poderão levar anos a estar de novo operacionais a 100%. Finalmente, não é só petróleo ou gás que passam pelo estreito, com o mercado dos fertilizantes também a ser atingido - a situação ainda não é tão grave como em 2022, após o início da guerra na Ucrânia. Por Ormuz passa um terço dos fertilizantes do mundo, com o risco de desencadear uma nova crise alimentar. “O prolongado encerramento do estreito de Ormuz causa um enorme sofrimento a muitas pessoas em todo o mundo que nada têm a ver com este conflito”, lembrou esta quinta-feira (19 de março) o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.Trump pediu aos aliados que enviassem navios de guerra para permitir reabrir o estreito, tendo recebido um “não” de todos. Um deles o Japão. Esta quinta-feira (19 de março), a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, foi recebida por Trump na Casa Branca, tendo procurado reforçar a aliança entre os dois países apesar de tudo.“Acredito firmemente que só tu, Donald, podes alcançar a paz mundial”, disse a japonesa, com o presidente norte-americano a dizer depois que Tóquio estava a “esforçar-se” - sem dar detalhes. De manhã, o Japão - junto com Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Países Baixos - manifestaram a sua “disponibilidade para contribuir com os esforços necessários para garantir a passagem segura pelo estreito”, saudando “o empenho das nações que estão a empenhar-se no planeamento preparatório”. Mas não estabeleceram prazos.“Chegou a hora de a força da lei prevalecer sobre a lei da força”, disse Guterres, defendendo a diplomacia. Isto numa altura em que, vendo-se sob a mira do Irão, os países do Golfo equacionam passar à ação. “Penso que é importante que os iranianos compreendam que o reino, bem como os seus parceiros que foram atacados e outros, possuem capacidades e recursos muito significativos que poderiam ser utilizados, caso assim o desejassem”, disse o chefe da diplomacia saudita, Faisal bin Farhan Al Saud. “A paciência demonstrada não é ilimitada”, acrescentou.O ministro da Energia dos Emirados Árabes Unidos e CEO da Empresa Nacional de Petróleo de Abu Dhabi, Sultan Al Jaber, escreveu no LinkedIn que “as infraestruturas de energia nunca devem ser alvos”. E denunciou “um ataque injustificado, não provocado e ilegal contra uma nação pacífica”, deixando o aviso: “Não se trata apenas de uma questão regional - é uma guerra económica global. Os fluxos de energia estão a ser usados como arma.” .Irão: Petróleo Brent para entrega em maio dispara 10% e aproxima-se dos 120 dólares