A presidente do Kuomintang, o principal partido da oposição em Taiwan, foi notícia há dois meses quando visitou a China a convite de Xi Jinping, com quem se encontrou. Visita que Cheng Li-wun justificou com o desejo de “promover a paz e a reconciliação, incluindo a reconciliação entre os partidos governantes e de oposição em Taiwan, e a reconciliação e a paz em todo o Estreito de Taiwan”, região que, prosseguiu “ninguém quer ver mergulhar novamente numa tensa crise militar numa altura em que a situação internacional já é turbulenta.”Durante o encontro dos dois líderes em Pequim, Xi Jinping disse a Cheng que “os compatriotas de ambos os lados do Estreito de Taiwan pertencem à nação chinesa”. Já Cheng Li-wun elogiou a liderança de Xi, propondo que trabalhassem na garantia de melhores relações entre os dois lados do Estreito. E expressou a sua esperança de um dia receber Xi em Taiwan.Cheng Li-wun, de 56 anos, venceu as primárias do Kuomintang em outubro com um discurso conciliador em relação a Pequim, ao contrário do antecessor, Eric Chu, que não visitou a China nos quatro anos em que foi líder. Aliás, a visita de Cheng à China foi a primeira de um presidente em exercício do KMT desde 2016.Mas o seu discurso não foi sempre assim tão apaziguador. Cheng frequentou a faculdade de Direito na Universidade Nacional de Taiwan, tendo participado no movimento estudantil Lírio Selvagem - uma manifestação de seis dias em 1990 pela democracia, em que exigiam eleições diretas para presidente e vice-presidente de Taiwan e novas eleições populares para todos os representantes na Assembleia Nacional - e defendeu a independência de Taiwan, descrevendo tanto o Kuomintang como o Partido Comunista Chinês como “tirania”. Fez também campanha pelo Partido Democrático Progressista, do atual presidente da ilha, Lai Ching-te, que considera Taiwan um Estado soberano. Militante do DPP entre 1988 e 2002, Cheng foi deputada na Assembleia Nacional de 1996 a 2000 e, mais tarde, na organização juvenil do partido. Foi suspensa e demitiu-se do DPP em 2002 após uma disputa com a liderança sobre o tratamento das alegações de assédio sexual contra Twu Shiing-jer, então ministro da Saúde. Após a sua saída do DPP, começaram os rumores de que estava a aproximar-se do Kuomintang, o que foi confirmado com a sua presença num comício do partido em março de 2004, acabando por se tornar militante em 2005, tendo acompanhado a visita do presidente do KMT, Lien Chan, à China. Paralelamente, tornou-se numa forte opositora da independência da ilha, apelidando o movimento de “fascismo da independência de Taiwan”. Na campanha para se tornar presidente do Kuomintang disse querer que “todos os taiwaneses pudessem dizer com orgulho e confiança: ‘Eu sou chinês’”, defendendo a redução das tensões entre os dois lados do Estreito através de negociações. Por outro lado, Cheng Li-wun apoia relações próximas com os Estados Unidos, mas é contra a excessiva dependência da ilha em relação a Washington, afirmando que esta “não se deve tornar um sacrifício ou moeda de troca de Trump”. “Será que os EUA estão a tratar Taiwan como uma peça de xadrez, um peão, para provocar estrategicamente o Partido Comunista Chinês em momentos oportunos?”, questionou. Um receio que não a impediu de ter começado esta segunda-feira uma visita de duas semanas aos Estados Unidos, tendo garantido que estaria “muito disposta” a encontrar-se com Donald Trump, sublinhando que estava aberta a reunir-se com qualquer pessoa “propícia à paz” e ocupe uma posição de liderança fundamental - tem previstos encontros no Congresso - tal como se encontrou com Xi Jinping em Pequim. Uma visita que acontece num período de crescente pressão de Pequim sobre Washington em relação a Taiwan, Após a sua visita à China, em maio, Donald Trump suspendeu a venda de armas à ilha.A mensagem que Cheng leva é a seguinte, conforme disse numa entrevista recente ao El País: “O que todos temem - um confronto entre os Estados Unidos e a China - é algo que pode ser evitado. A opção pacífica é absolutamente viável e é a que realmente serve os interesses nacionais dos Estados Unidos”..Trump entre a espada de Pequim e a muralha de Taipé.P&R. O que representa a visita da líder da oposição de Taiwan à China?