Andy Burnham não conseguiu esconder a tensão em que se encontrava durante a reunião com Donald Trump.
Andy Burnham não conseguiu esconder a tensão em que se encontrava durante a reunião com Donald Trump.Daniel Torok / CASA BRANCA

Chagos, o arquipélago no Índico que se atravessa entre Londres e Washington

Devido à guerra no Irão, o arquipélago que alberga a base militar de Diego Garcia fez Trump mudar de ideias. E com isso atrapalhar a entrega da soberania à República da Maurícia.
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Na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas e ao seu redor, ilhas cujas populações em conjunto representam menos do que 0,0009% da população mundial ganharam preponderância.

O presidente de Nauru David Adeang anunciou que o nome é agora Naoero, como a população se refere àquele microestado do Pacífico. Entre considerações pouco simpáticas para com a ONU, o presidente argentino Javier Milei pediu ao governo britânico para se retomar negociações sobre as ilhas Malvinas, Falklands para os seus ocupantes. À margem dos discursos, o presidente dos EUA Donald Trump assinou um acordo com os chefes dos governos da Dinamarca Mette Frederiksen e da Gronelândia Jens-Frederik Nielsen sobre a expansão do acordo de segurança de 1951 relativo à ilha e região circundante. Mas se o líder norte-americano pôs fim a meses de tensões com Copenhaga e, por extensão, com a União Europeia e a NATO, devido às suas ameaças de tomar o território autónomo, reabriu uma ferida com o Reino Unido devido às ilhas Chagos — e impediu que Londres ponha em prática um acordo com a Maurícia para a transferência da soberania do arquipélago em questão.

Questionado por um jornalista sobre o acordo entre o Reino Unido e a Maurícia, Trump classificou-o de "ridículo" e disse: "Não o apoio. Acho horrível. Foi um acordo terrível. Estrategicamente é muito importante. É incrível como é estratégico, e acho que o primeiro-ministro vai analisar isso." A seu lado, Andy Burnham anuiu depois de o líder norte-americano ter dito que as relações entre ambos os países estavam agora melhores do que com o antecessor, Keir Starmer.

Foi com Starmer que o dossiê Chagos se encaminhou para uma solução, ao assinar um acordo com o seu homólogo em maio de 2025, depois de as negociações terem iniciado com o antecessor, o conservador Rishi Sunak. Apesar de a Maurícia estar a uma distância de Chagos superior à que dista Lisboa de Paris, Londres acedeu às pretensões de décadas de Porto Luís. Estas foram decisivamente apoiadas por uma deliberação, de 2019, do Tribunal Internacional de Justiça, ainda que não vinculativa.

Ao contrário da Maurícia, o conjunto de atóis não obteve a independência de Londres. No final da década de 1960, os britânicos, em conjunto com os norte-americanos, desalojaram os habitantes e fizeram da maior ilha do arquipélago, Diego Garcia, uma base militar usada pelos EUA nas guerras do Iraque e do Afeganistão e considerada de enorme valor geostratégico. Prova disso mesmo foi que, na guerra dos EUA com o Irão, Washington quis usar a base, mas o executivo trabalhista recusou. "Tivemos de enviar os bombardeiros B-2 de volta para casa, no Missouri. Em vez de voarem por um curto período, voariam por um período prolongado”, queixou-se Trump. Depois de uma recusa inicial total, Starmer limitou o uso de bases britânicas aos EUA para operações de defesa, o que incluía alegando alvejar locais de lançamento de mísseis. "Não vou envolver o nosso pessoal militar em ações ilegais", explicou então o trabalhista aos deputados.

Ao regressar à Casa Branca, o nova-iorquino havia dito ao primeiro-ministro britânico que "estava inclinado em concordar" com os termos do acordo — o qual prevê que Diego Garcia se mantenha sob controlo britânico por 99 anos em troca de um contrato no qual Londres iria pagar 35 mil milhões de libras (40,6 mil milhões de euros). Mas com o aproximar-se da guerra com o Irão que o tema voltou a ser questionado por Trump. E agravou-se depois do bater de pé de Starmer ao uso das bases aéreas.

No primeiro encontro entre Burnham e Trump, o que o primeiro menos precisava era de um tema sensível como este. No final, o britânico disse ter herdado a questão e que esta tem de ser resolvida. “É fundamental proteger o futuro da base, o que nos preocupa por razões de segurança, mas também é claramente importante para os Estados Unidos. O que disse na reunião [com Trump] foi que trabalharemos para encontrar essa resolução entre as diferentes partes e nos empenharemos para encontrá-la.”

O acordo ainda não foi ratificado na Câmara dos Comuns, onde a oposição conservadora e populista se mostra contra, alegando a proximidade política da Maurícia à China e os valores envolvidos no negócio. Segundo o Telegraph, Nigel Farage fez pressão junto da administração Trump, na semana anterior, para que o presidente mantivesse a sua oposição ao acordo entre Reino Unido e Maurícia.

Ainda de acordo com o citado jornal, a estratégia de Burnham passará por esperar que Trump saia da Casa Branca. Até lá, terá de aplacar a fúria dos mauricianos. Já na próxima semana, o primeiro-ministro Navin Ramgoolam visita Londres e irá encontrar-se com o conselheiro de segurança nacional do governo britânico Jonathan Powell.

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