Felipe VI visitará a cidade de Melilla, também na costa do Norte de África
Felipe VI visitará a cidade de Melilla, também na costa do Norte de ÁfricaEPA/MARISCAL

Ceuta: Felipe VI faz na terça-feira primeira visita de um Rei de Espanha em 20 anos

Monarca visita cidade numa altura em que a crise imigratória atinge o território, um enclave espanhol na costa do Norte de África, cuja soberania é contestada por Marrocos
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O Rei Felipe VI faz na terça-feira a primeira visita em 20 anos de um chefe de Estado espanhol a Ceuta, cuja soberania é reivindicada por Marrocos e onde em julho entraram ilegalmente mais de 70.000 pessoas.

Felipe VI visitará pela primeira vez Ceuta desde que foi proclamado Rei, em 2014, e vai dormir na cidade, pelo que será também o primeiro chefe de Estado de Espanha a dormir no enclave espanhol no norte de África desde 1927.

Depois da passagem por Ceuta, Felipe VI e a mulher, Letizia Ortiz, seguem para Melilla, o outro enclave de Espanha no norte de África e com fronteiras com Marrocos.

A última visita de um chefe de Estado espanhol a Ceuta e Melilla foi em 2007, nas únicas deslocações aos enclaves que fez Juan Carlos I, o pai do atual monarca.

As deslocações de poucas horas a cada uma das cidades de Juan Carlos I desencadearam então uma crise diplomática com Marrocos, que retirou temporariamente o embaixador de Madrid.

A imprensa espanhola, citando diversas fontes da época, noticiou que as visitas do anterior monarca foram anunciadas a Marrocos e negociadas com Rabat, com a reação das autoridades marroquinas a ser já a esperada por parte de Madrid.

Desta vez, a visita de Felipe VI e Letizia Ortiz tem como cenário a crise desencadeada em Ceuta com a entrada ilegal, em 30 e 31 de julho, de mais de mais de 70.000 pessoas naquele território autónomo, naquilo que o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, qualificou logo naqueles dias como um ataque e uma violação à integridade territorial de Espanha.

O ocorrido em Ceuta em 30 e 31 de julho e a crise no terreno que desencadeou - com milhares de pessoas a continuarem ilegalmente na cidade, um aumento da tensão entre a população e os migrantes e relatos de alguns episódios de violência - mantêm-se até hoje no centro do debate público e político em Espanha, com o Governo de Sánchez a ser alvo de críticas generalizadas, da esquerda e da direita.

O executivo tem sido acusado de uma resposta lenta à situação no terreno, com milhares de pessoas a dormirem nas ruas e praias de Ceuta até há poucos dias e de subserviência a Marrocos.

Só mais de um mês após o ocorrido Sánchez admitiu dúvidas sobre o papel de Marrocos nesta crise e disse ter pedido "ações e explicações" a Rabat.

Quanto à situação no terreno, o executivo tem sublinhado a dimensão da crise e deixado críticas às autoridades locais, dizendo que dificultaram a disponibilização de espaços para o acolhimento e registo dos migrantes, antes da conclusão dos processos de repatriamento ou asilo, como exige o Pacto Europeu de Migrações.

Ceuta saltou também para o centro do debate migratório e de gestão de fronteiras da União Europeia (UE), que tem nesta cidade e em Melilla as únicas fronteiras terrestres com África.

Ceuta e a imigração, a par da crise na habitação, serão os temas que previsivelmente dominarão a campanha para as eleições legislativas antecipadas de 29 de novembro, entretanto convocadas por Pedro Sánchez.

Segundo a agenda divulgada pela Casa Real, Felipe VI vai na terça-feira receber e reunir-se em Ceuta com as autoridades locais, representantes da sociedade civil e líderes das diversas comunidades religiosas da cidade, que se orgulha de ser há séculos “a cidade das quatro culturas” (católica, muçulmana, hindu e judaica).

Mais de 40% da população de Ceuta é católica e mais de 40% é muçulmana.

Felipe VI e Letizia Ortiz vão também participar numa cerimónia ecuménica no cemitério muçulmano Sidi Embarek de Ceuta, onde estão enterradas mais de 80 pessoas que morreram em 30 e 31 de julho ao tentarem entrar na cidade a nado e cujos corpos foram resgatadas no lado espanhol da fronteira.

“Fontes militares" citadas pelo jornal El País disseram que a visita de Felipe VI "não vai ficar sem resposta" por parte de Rabat.

Segundo os dados mais recentes do Governo de Espanha, a maioria das 70.000 pessoas que entraram ilegalmente em Ceuta em 30 e 31 de julho saiu quase de imediato, nas horas e dias seguintes.

Desde 10 de agosto, saíram outras 11.026, a maioria voluntariamente (a exceção são 513 pessoas expulsas por delitos e infrações).

Segundo o executivo, há neste momento mais de 7.000 lugares para alojamento temporário e registo de migrantes em Ceuta, sendo que permanecem nestes centros cerca de 6.000 adultos.

Quanto aos menores de idade, há 2.827 nos centros de acolhimento de Ceuta, 86 foram reagrupados com familiares que já viviam em Espanha e outros 179 foram transferidos para outras regiões do país.

O Governo diz não haver estimativa neste momento de quantas pessoas permanecem em Ceuta ilegalmente e que só haverá números quando terminar o processo de alojamento, registo e repatriamento de todas.

A estimativa do executivo é que até meados deste mês todas as praias e outros espaços de Ceuta deixem de ter acampamentos ilegais e que a situação esteja normalizada na cidade até final do ano.

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