Depois de na véspera ter considerado a resposta do Irão “inaceitável”, o presidente dos Estados Unidos voltou ao tema, acrescentando que a mesma é “estúpida”. Pelas declarações aos jornalistas na Sala Oval, depreende-se que o facto de o regime iraniano não abdicar do programa nuclear de vez é o motivo pelo qual Donald Trump rejeita o documento iraniano e afirma que o cessar-fogo está “ligado à máquina”. A viagem à China poderá trazer novidades no campo negocial.Para o presidente norte-americano a questão resume-se à simplicidade e à excelência do seu plano, “o melhor de sempre”. Nas suas palavras: “Sabem, é um plano muito simples — não sei por que é que não dizem as coisas como elas são — o Irão não pode ter uma arma nuclear.” Prosseguiu: “Eu tenho um grande plano: eles não podem ter uma arma nuclear. E eles não disseram isso na carta.” Em entrevista telefónica à CBS News, Trump foi desafiado a pormenorizar o conteúdo da proposta iraniana, mas limitou-se a reconhecer que a outra parte fez concessões em relação ao programa nuclear, “mas não foram nem de perto suficientes”. E voltou a criticar a mesma: “Foi simplesmente uma proposta má, uma proposta estúpida, na verdade... feita por pessoas que não têm ideia do perigo em que se encontram.”.Irão responde à proposta dos EUA e ameaça potencial missão no estreito de Ormuz.Tendo considerado aos jornalistas que o cessar-fogo está num ponto “incrivelmente fraco”, e tendo rejeitado o documento iraniano, isso significa o regresso à guerra? Não necessariamente. Para Trump, um acordo “é muito possível”, apesar de, segundo as suas palavras, já ter chegado a um acordo “quatro ou cinco vezes” com os iranianos, mas estes “mudam de ideias”. À Fox News, o empresário nova-iorquino disse que vai negociar com a linha dura até chegarem a acordo, mostrando-se otimista de que aqueles “vão quebrar”. Até lá, poderá voltar ao ‘Projeto Liberdade’, iniciativa para “guiar” os navios bloqueados no Golfo Pérsico a navegarem pelo estreito de Ormuz, a qual foi anunciada e suspensa horas depois. “Não sei, ou isso, ou [algo] muito mais grave”, disse à CBS News.Em reação às palavras de Trump, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão disse que os EUA continuam a fazer “exigências irrazoáveis”, acrescentando que a resposta do Irão à última proposta dos EUA, que Teerão enviou ao Paquistão no domingo, “não foi excessiva”. Não só isso como, segundo Esmaeil Baghaei, Teerão elaborou uma “oferta generosa e responsável”, a qual incluiu as exigências do fim do bloqueio naval aos iranianos e o trânsito seguro através do estreito de Ormuz, mas também, disse, à libertação dos ativos iranianos congelados em bancos, e o “estabelecimento da segurança na região e no Líbano”, isto é, o fim da guerra entre Israel e o Hezbollah. Não disse uma palavra, contudo, sobre o programa nuclear. Ao que se sabe da mais recente proposta de paz norte-americana, o Irão comprometer-se-ia em não desenvolver uma arma nuclear e a suspender todo o enriquecimento de urânio durante pelo menos 12 anos, bem como em entregar o seu stock de urânio enriquecido. Trump disse na segunda-feira que os iranianos mudaram de ideias quando dois dias antes a parte iraniana havia concordado com este ponto. Porém, teriam de ser os norte-americanos a retirá-lo das instalações nucleares bombardeadas no ano passado pelos EUA, porque “o local estava tão destruído que só um ou dois países poderiam extraí-lo”. O outro país, adiantou, é a China. E é em Pequim que alguns diplomatas apostam para o desbloqueio do conflito. O embaixador iraniano acreditado na capital chinesa disse que o seu país apoia a proposta de paz de quatro pontos de Xi Jinping (coexistência pacífica, respeito pela soberania nacional, pelo direito internacional, e desenvolvimento e segurança coordenada). Nada de novo: o chefe da diplomacia Abbas Araghchi já expressara o mesmo na semana passada, quando se encontrou com o homólogo chinês. O timing não será inocente: Trump encontra-se na quinta-feira com Xi. Segundo disseram fontes da Casa Branca aos media, o norte-americano irá tentar pressionar o anfitrião para que a China deixe de comprar petróleo e vender bens de dupla utilização. Se for essa a tática, não se antevê uma nova via negocial; pelo contrário, se Trump aderisse aos princípios de Xi, estaria criado um ambiente para uma saída negociada. Uma fonte disse à CNN que o futuro das negociações “depende do resultado da visita do presidente Trump a Pequim”.Prémio Nobel fica nos cuidados intensivos Reagindo à transferência de Narges Mohammadi, na véspera, de um centro de saúde em Zanjan para o hospital Pars em Teerão, a fundação com o nome da Prémio Nobel da Paz disse que, com base no diagnóstico da equipa médica e devido à necessidade de monitorização dos sinais vitais, a ativista dos direitos humanos “permanecerá nos cuidados intensivos nesta unidade até novo aviso”. .Nobel da Paz Narges Mohammadi hospitalizada após agravamento do estado de saúde em prisão iraniana.Face à crescente pressão internacional e à deterioração do estado de saúde, as autoridades iranianas “suspenderam a sentença” de Mohammadi — foi condenada a um total de 31 anos e 154 chibatadas, tendo cumprido pena de mais de dez anos, incluindo períodos em solitária —, permitindo que receba cuidados médicos. A sua advogada em França, Chirinne Ardakani, apelou para que a mobilização prossiga, agora para a sua libertação, bem como dos outros prisioneiros políticos.