Um lado clama uma “vitória total e completa” ou “avassaladora”. O outro alega que o inimigo “sofreu uma derrota inegável, histórica e esmagadora” e foi “forçado a render-se”. Mas o acordo de cessar-fogo de duas semanas, alcançado entre EUA e Irão a 90 minutos de terminar o ultimato dado pelo presidente Donald Trump, é frágil e já foram registadas violações. E ao mesmo tempo que Washington e Teerão tentam vender um possível acordo de paz, que ainda vão ter que negociar no Paquistão, Israel expande os ataques contra o Líbano e o Irão responde fechando o Estreito de Ormuz.Enquanto os mercados respiravam de alívio com o anúncio da possível abertura do estreito por onde passa 20% do petróleo mundial e os iranianos festejavam nas ruas o facto de a sua civilização não ter sido destruída como Trump ameaçava fazer, as Forças de Defesa de Israel atingiam no espaço de apenas dez minutos mais de uma centena de alegados alvos do Hezbollah, incluindo no centro de Beirute. Foram os “maiores ataques desde o início da Operação Rugido de Leão” (que os EUA apelidam de Fúria Épica), não tendo havido qualquer aviso prévio. Segundo as autoridades libanesas, o ataque israelita resultou na morte de pelo menos 254 pessoas (nas cinco semanas anteriores tinham morrido mais de 1500), deixando ainda quase 1200 feridos. Israel não esteve envolvido nas negociações do cessar-fogo, com o gabinete do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, a emitir um comunicado em inglês apenas três horas depois de o Paquistão ter anunciado o início da trégua (à hora em que terminava o ultimato de Trump, pelas 01h00 de quarta-feira em Lisboa). “Israel apoia a decisão do presidente Trump de suspender os ataques contra o Irão durante duas semanas, sob a condição de o Irão abrir imediatamente o Estreito [de Ormuz] e cessar todos os ataques contra os EUA, Israel e países da região”, dizia o comunicado, falando ainda dos esforços para garantir que o Irão não representa uma ameaça nuclear. O texto terminava contudo dizendo que “o cessar-fogo de duas semanas não inclui o Líbano”.Isto apesar de, no anúncio do cessar-fogo, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, ter dito que os EUA e “os seus aliados” tinham aceitado o fim das hostilidades “em todo o lado, incluindo o Líbano”. Trump, em declarações à CBS, disse contudo que o Líbano não estava incluído “por causa do Hezbollah”. O chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, reagiu no X às palavras de Trump: “As condições para um cessar-fogo entre o Irão e os EUA são claras. Os EUA precisam de escolher: cessar-fogo ou guerra contínua através de Israel. A decisão está nas mãos dos EUA e o mundo observa para ver se agirão de acordo com os seus compromissos.”Teerão respondeu também com alegados ataques de drones contra vários países do Golfo, com o Koweit a reportar danos materiais em instalações vitais de uma companhia petrolífera. O Hezbollah também disse que reserva o seu “direito natural e legal de resistir à ocupação e responder” aos ataques israelitas.“Foram reportadas violações do cessar-fogo em alguns pontos da zona de conflito, o que mina o espírito do processo de paz”, indicou Sharif noutra mensagem no X. “Exorto, de forma séria e sincera, todas as partes a exercerem contenção e a respeitarem o cessar-fogo durante duas semanas, conforme acordado, para que a diplomacia possa assumir um papel preponderante no sentido da resolução pacífica do conflito”, acrescentou.Após os ataques israelitas ao Líbano, o Irão terá também suspendido a reabertura do Estreito de Ormuz, segundo a agência de notícias iranianas Fars. “Atenção a todos os navios no Golfo Pérsico e no Mar de Omã. Esta é a Estação Naval da Guarda Revolucionária Islâmica. A travessia do Estreito de Ormuz permanece encerrada e é necessária autorização da Guarda Revolucionária Islâmica antes de navegar pelo estreito. Qualquer navio que tente entrar será alvejado e destruído”, será a mensagem que está a ser transmitida.Negociações em IslamabadOs termos daquilo que foi acordado para permitir o cessar temporário das hostilidades não são claros, com a Casa Branca a dizer aos media que o plano de dez pontos que estaria a ser divulgado pelo Irão não corresponde ao que Trump considera ser uma “base viável” para negociar. A porta-voz, Karoline Leavitt, deixou claro que aquilo que o Irão divulga aos media é muito diferente do que está a acontecer a nível privado - e que não tem também nada a ver com o plano inicial de dez pontos que tinha sido enviado a Washington. “A ideia de que o presidente Trump aceitaria uma lista de exigências iranianas como parte de um acordo é completamente absurda”, afirmou, explicando que as linhas vermelhas do presidente se mantêm (nomeadamente no que diz respeito ao nuclear e à entrega do urânio enriquecido).Segundo o The Wall Street Journal, Teerão já avisou entretanto os mediadores internacionais que a participação nas negociações de paz com Washington, previstas para começar esta sexta-feira (10 de abril) em Islamabad, está dependente de o cessar-fogo ser alargado ao Líbano. A delegação iraniana deverá incluir o líder do Parlamento e ex-comandante da Guarda Revolucionária, Mohammad Baqer Qalibaf, e Araghchi. Do lado norte-americano, Leavitt anunciou que a delegação será liderada pelo vice-presidente dos EUA, JD Vance, que irá até ao Paquistão com o enviado especial da Casa Branca para o Médio Oriente, Steve Witkoff, e o genro de Trump, Jared Kushner. Vance, que não é o maior fã da participação dos EUA em conflitos - tem ido um papel mais de bastidores, com a Reuters a dizer que tem falado com o general paquistanês Asim Munir sobre as negociações. Netanyanu nega surpresaNuma conferência de imprensa, o primeiro-ministro israelita garantiu que Israel não foi “surpreendido” pelo acordo de “cessar-fogo temporário” acordado entre os EUA e o Irão. Benjamin Netanyahu garantiu que “isto não é o fim da guerra, mas uma etapa no caminho para alcançar todos os objetivos.” E insistiu: “O Irão está mais fraco que nunca, Israel está mais forte do que nunca - esta é a verdade absoluta.”As palavras de Netanyahu, que deixou claro que os israelitas continuam com “o dedo no gatilho”, surgem depois de o líder da oposição, Yair Lapid, o ter acusado de “enganar os israelitas”. Isto em ano eleitoral em Israel. .Irão suspende tráfego em Ormuz após ataques no Líbano, que segundo Trump não está abrangido pelo cessar-fogo