A democracia, a economia de mercado, o direito internacional e a defesa dos direitos humanos são princípios na base do Foro La Toja. Como vê a deterioração destes valores?Quando começámos este projeto, no ano de 2019, havia já uma situação complexa relacionada com a ascensão do populismo e dos nacionalistas identitários. Era o momento em que os partidos populistas pareciam representar uma ameaça maior na Europa do que representam agora. Mas não víamos que o sistema de governação global, a aliança transatlântica e a estabilidade política que governava o mundo desde 1948 estivesse em risco existencial. Hoje está, assim como a relação transatlântica, que tem sido a espinha dorsal de uma era de prosperidade e de um período de democracia global e de princípios democráticos na governação global. Nessa altura, isso não se previa, mas o que temos observado com preocupação é a forma como a situação evoluiu. Há hoje de facto um risco existencial para a aliança transatlântica e para uma série de princípios e valores.E como enfrentar esse desafio existencial no Foro La Toja?Com duas perspetivas. Em primeiro lugar, com a necessidade de manter o vínculo transatlântico. Desde logo porque esperamos e desejamos que alguns dos problemas que estão a surgir sejam conjunturais e estejam relacionados com as atuais circunstâncias políticas. E que as coisas regressem a um certo equilíbrio. Mas há um segundo princípio: a Europa precisa de aprender com esta situação e, sem pôr em risco a relação transatlântica, fortalecer a sua autonomia e a sua posição no mundo de uma forma realista, compreendendo que o sistema que sustentou a relação com os Estados Unidos não será mais o mesmo. Esperamos que isto seja conjuntural, que os equilíbrios se recuperem, mas também estamos conscientes de que nada será como antes na relação transatlântica. Por conseguinte, a Europa deve tornar-se um agente com identidade própria, políticas próprias e autonomia no mundo globalizado que se avizinha. Mas a nossa posição é que isso deve ser compatível com a aliança transatlântica e, sobretudo, com a defesa dos valores inerentes à democracia representativa, da governação global baseada em regras, etc. A questão é continuar a investir numa aliança transatlântica quando, do outro lado, a defesa desses mesmos valores parece já não existir...Nós pensamos, insisto, que esta questão é, em primeiro lugar, conjuntural. Em segundo, os EUA são mais do que a Administração americana, tal como a Europa e os países europeus são mais do que apenas os seus governos. Num sistema democrático, os governos têm uma vida útil limitada, e o que importa são os princípios, os valores e o próprio sistema. Nesta perspetiva, acreditamos que os EUA continuam a ser um Estado de Direito, uma grande democracia, e, por isso, esperamos que este questionamento de valores seja temporário. Dito isto, volto a insistir: nada vai ser igual. E por isso a Europa precisa de aprender a viver num mundo onde já não pode confiar na relação dos EUA, que tem sido o ponto de equilíbrio da política europeia. E a Europa já tem um caminho para isso? Ou está tão dividida e a discutir as suas divisões que ainda não consegue pensar coletivamente sobre esta questão? Acho que o problema é outro. O problema é que a Europa é uma instituição muito complexa. Estamos a falar de 27 países, estamos a falar de mecanismos complexos de tomada de decisão, mas uma das coisas que aprendemos, como disse Jean Monnet, é que a Europa progride em crises. A Europa demonstra grande capacidade para saber como reagir às crises, mas os mecanismos de decisão europeus são o que são. São muito complexos e, por isso, não é fácil para eles tomarem decisões. Mas gostaria de dar um exemplo. Como reagiu a Europa à crise de 2008? Como está a reagir à crise pós-covid? De formas radicalmente diferentes. A Europa está a aprender. A Europa é capaz de tomar as decisões certas, mas com um mecanismo complexo e a um ritmo que provavelmente não é o ideal para o século XXI. Uma questão à parte é o questionamento interno que ocorre em alguns países em relação aos valores e princípios da União Europeia, o sentimento antieuropeu que está a ganhar terreno em algumas nações. Mas diria duas coisas sobre isso. Em primeiro lugar, alguns governos que chegaram ao poder com esta perspetiva são agora profundamente pró-europeus, como é o caso de Itália. E em segundo lugar, as eleições, tal como no caso da Polónia ou Hungria, demonstram que as sociedades têm uma visão mais moderada. E depois, acredito que o europeísmo está para além de qualquer debate ou discussão em todas as sociedades europeias. Assim se explica que muitas forças políticas que surgem não do euroceticismo, mas do antieuropeísmo, já não ponham em causa a UE. Falam de uma outra Europa, de uma Europa de nações, mas já não questionam a própria UE. Já ninguém defende que os seus países abandonem a UE. E essa é uma diferença substancial. Creio que a maior deficiência da Europa é a complexidade excessiva do seu mecanismo de tomada de decisões. E, por vezes, os problemas e as necessidades urgentes de uma situação tão complexa como a atual tornam-no um problema. Mas creio que, pela primeira vez na Europa, existe uma visão partilhada de que é necessário avançar na defesa, na segurança e na autonomia estratégica. E este será o caminho a seguir..Fóruns como La Toja ainda contam num mundo onde o presidente dos EUA pode decidir fazer algo de um dia para o outro que muda tudo. A sociedade civil ainda é importante? Sem dúvida, sem dúvida. O Foro La Toja nasce de um compromisso da sociedade civil, de um grupo de pessoas apoiadas pelo grande artífice, que é o Grupo Hotusa e o seu presidente, Amancio López Seijas. Nasceu da convicção de que há princípios que vale a pena defender e que alguém precisa de os defender. Esse é o nosso papel. Ainda mais numa situação como esta. Porque acreditamos que alguém precisa de defender que estes princípios e valores ainda são essenciais e que é necessário preservá-los e recuperá-los, se for esse o caso. E é essa a ideia. E não é uma questão de direita, de esquerda ou de centro. A questão é debater, chegar a um acordo, que parece ser muito raro nos dias de hoje em que os extremos parecem dominar...Nós acreditamos que o grande contributo do mundo que emergiu da II Guerra Mundial, em comparação com a história anterior da Europa, dos EUA e do Ocidente em geral, é precisamente a necessidade de construir um terreno comum. A Espanha é um exemplo. A Europa é um ótimo exemplo. Nasceu com o projeto original de evitar o confronto entre a França e a Alemanha e, por conseguinte, de construir espaços comuns. E para nós, esta é a essência de como o mundo tem sido desde 1948. Desde então, temos vivido um período de grande prosperidade económica, estabilidade política e progresso social. E é importante preservar isso. Isto tem a ver com uma série de princípios, sendo um deles a governação baseada em regras e outro a preservação da centralidade da vida política. Ou seja, as principais decisões que afetam todos são tomadas tendo em conta as opiniões das principais forças políticas. Era assim que os EUA funcionavam até há relativamente pouco tempo e ainda funciona assim em muitos países europeus. Existem mesmo países onde, apesar do cenário altamente polarizado, as tendências da opinião pública ainda pendem para os dois principais partidos, de centro-direita e centro-esquerda, que continuam a ser essenciais tanto do ponto de vista sociológico como do sistema político. Acreditamos que estes princípios enfrentam uma situação muito complexa, mas pensamos que devem continuar a ser defendidos, e estamos convencidos - mais do que apenas esperançosos - de que este equilíbrio será restaurado no futuro. O problema é que, embora a opinião pública possa estar no centro, quando se trata de governar, os partidos estão a voltar-se para os extremos...Esse é o problema e alcançar o consenso torna-se cada vez mais difícil. Um dos princípios do Foro La Toja é precisamente tentar recuperar estes consensos e esta centralidade na vida política, que, no caso espanhol (mas não só), sustentam não apenas a estabilidade política, mas também o desenvolvimento económico. Porque os sistemas baseados na centralidade produzem uma grande certeza na vida económica e aqueles que tomam decisões de investimento ou são agentes económicos valorizam extraordinariamente a estabilidade política. Que é o resultado de grandes acordos entre as principais forças políticas. É isso que gera estabilidade. E a estabilidade política gera prosperidade económica. Voltando à ligação transatlântica, Donald Trump ameaça sair da NATO, tendo voltado a insistir nisso por causa do Irão. Há risco de ir em frente com a ameaça?Na minha opinião não. Em primeiro lugar, tem pouco fundamento na realidade. A saída dos EUA da NATO é má para a NATO, pois significaria o seu fim, mas também é má para os EUA. A NATO tem sido muito benéfica para a Europa e para os países que a compõem, mas também tem sido muito benéfica para os EUA. Esquecemo-nos que a NATO foi crucial num contexto geopolítico diferente, em que os EUA enfrentavam a União Soviética. E neste potencial conflito, a Europa era o possível campo de batalha. Considero que os EUA não podem dispensar a NATO e, se o fizessem, seria necessária uma nova arquitetura de defesa, exigindo que a Europa adotasse uma abordagem mais radical ao princípio da autonomia estratégica. Mas não creio que cheguemos a esse ponto. Primeiro, porque a NATO é benéfica para os EUA e para a sua posição no mundo. Em segundo lugar, sair da NATO não é uma questão trivial. Do ponto de vista jurídico, é praticamente inviável pensar que os EUA possam retirar-se num contexto político em que é altamente improvável que o Senado aprove tal retirada, até porque foi o atual secretário de Estado dos EUA que propôs uma votação por maioria qualificada no Senado caso os EUA desejassem sair. Creio que é um exercício muito superficial e não creio que haja qualquer questionamento profundo sobre a participação na NATO, seja no âmbito militar, político ou na sociedade americana. Dito isto, também não é bom ouvir a mensagem a ser transmitida à sociedade americana de que a NATO não é real, que não serviu qualquer propósito, que foi criada apenas para o benefício da Europa. Isso não é verdade. Reitero que, desde há muitos anos, a Europa tem sido o potencial campo de batalha na luta geopolítica entre EUA e União Soviética. E, neste sentido, a Europa e a NATO desempenharam um papel fundamental no apoio à posição dos EUA. Hoje não é a União Soviética nem sequer a Rússia, mas a China que assusta toda a gente. Um tema que já discutiram no Foro La Toja. Qual é a sua posição? A China pode ser abordada sob muitas perspetivas. A China é hoje, sem dúvida, a nova candidata à hegemonia global desde o colapso da União Soviética, numa luta em que o campo de batalha já não é a supremacia militar, como na Guerra Fria, mas sim a supremacia tecnológica. E é isso que há de novo na luta pela hegemonia geopolítica. Já não se trata de supremacia militar, embora esta ainda desempenhe um papel significativo, mas sim da verdadeira batalha pela supremacia tecnológica na inteligência artificial, computação quântica e outras áreas. E esta luta, por vezes, faz-nos esquecer que engloba uma disputa tecnológica, uma disputa militar e um choque entre dois modelos sociais. E embora a China pareça ser atualmente uma potência mais fiável do que os EUA, representa um modelo social fundamentalmente incompatível com os princípios e valores da Europa, da relação transatlântica e da democracia representativa. E não nos podemos esquecer disso. Dito isto, a Europa também precisa de ter uma relação independente com a China e compreender que, especialmente numa altura em que o comércio global está em colapso, precisa de manter essa relação sem ingenuidade. Porque a Europa tem sido muito ingénua do ponto de vista económico em relação à China. E isso permitiu à China assumir, por exemplo, uma posição dominante nas energias renováveis, nos veículos elétricos. Mas estou a falar de uma perspetiva económica. No entanto, não podemos esquecer que uma relação com a China precisa de ter em conta que, ao dialogar com a China, estamos a dialogar com uma sociedade com valores diferentes. Não faz sentido escandalizar-se com a deriva da Administração Trump e ser indulgente com a China, que é profundamente autoritário e não mostra sinais de mudança. Esta deriva da Administração norte-americana, que não partilhamos, é vista de uma maneira mais contundente do que o que é na realidade um sistema autoritário que continua a ser autoritário e não tem retorno.Voltando ao Foro La Toja, que na quarta-feira (29 de abril) regressa a Lisboa e à Fundação Calouste Gulbenkian pelo quarto ano, há algum momento que queira destacar?Acredito que este ano, seguindo a filosofia de que o Foro La Toja em Lisboa deve também ter esta perspetiva sobre os principais desafios globais, teremos, em primeiro lugar, como sempre, uma presença institucional de altíssimo nível: o Presidente da República e o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, assim como a ministra da Defesa do Governo espanhol. Em segundo lugar, teremos novamente o ex-primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy com o ex-vice-primeiro-ministro português Paulo Portas num debate extraordinário. E também Mário Centeno, ex-governador do Banco de Portugal, com o ex-ministro da Economia espanhol, Román Escolano, para nos falar sobre a economia, que consideramos sempre indispensável. Teremos ainda dois painéis, que considero muito importantes. O primeiro será sobre a segurança e o papel da Europa nesta perspectiva, com a presença do secretário-geral adjunto da NATO, Javier Colomina, com o diretor do Centro para a Europa e Eurásia no Instituto Hudosn, Peter Rapp, que apresentará a perspetiva americana sobre a forma como os Estados Unidos encaram a situação, para além da perspetiva portuguesa com o ex-presidente da Assembleia da República e ex-chefe da diplomacia Augusto Santos Silva. E depois, um painel sobre grandes questões globais, que acredito ser muito interessante, com três figuras extraordinárias. Michael Ignatieff, um dos mais importantes intelectuais do mundo da atualidade, tem uma visão que transcende os acontecimentos e a política do momento e, por isso, dará um contributo significativo. Em segundo lugar, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que tem um perfil muito elevado a nível europeu, o que lhe confere uma perspetiva sobre os problemas globais que vai muito para além do seu papel enquanto autarca de uma cidade como Lisboa, que é já uma das principais cidades da Europa. E depois, com um antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, membro do Partido Trabalhista, Shlomo Ben-Ami, que, para além de ter um profundo conhecimento da realidade do Médio Oriente, tem sido uma das figuras mais importantes da política israelita nos últimos anos, traz a sua perspectiva única sobre o que se passa no Médio Oriente e em Israel. Acredito que ele nos pode ajudar muito a compreender os desafios, o que realmente está a acontecer e o que pode acontecer no Médio Oriente.Veja aqui a agenda completa do evento..Foro La Toja regressa a Lisboa como "referente da defesa de valores e princípios cada vez mais questionados".Carlos López Blanco: “Não creio que em Espanha e Portugal a democracia esteja em perigo”