Lula da Silva é candidato à reeleição como presidente do Brasil, a 4 de outubro, e reafirma-o sempre que pode, mas a possibilidade de, à última hora, não concorrer vem sendo especulada nos corredores da política em Brasília e, por consequência, noticiada na imprensa do país. Nesse caso, quem o substituiria? Geraldo Alckmin, o atual vice-presidente? Fernando Haddad, o eterno delfim? Não: é de Camilo Santana que se fala nos bastidores e nas colunas de jornais.Santana, 57 anos, natural do Crato, cidade de 130 mil habitantes do estado do Ceará, a mais de 3500 km do Palácio do Planalto, era ministro da Educação até há uma semana. Saiu do cargo, sendo substituído pelo secretário executivo do ministério Leonardo Barchini, para se envolver na campanha presidencial de Lula, anunciou o próprio presidente, que deixou nas entrelinhas pretender apostar nele. “Acho que Camilo tem outros voos para fazer”, disse Lula, em entrevista a uma rádio cearense. “Ele vai ser muito importante na minha campanha, eu preciso dele a viajar pelo Brasil, para que ele seja mais conhecido, ele é uma liderança de nível nacional, ele tem de ser utilizado a nível nacional, para que as pessoas o conheçam e para que nós possamos fazer novas lideranças nacionais”. Formado em engenharia, Santana ocupou pastas no governo do estado do Ceará até ser eleito em 2015 para o governo do estado, de onde saiu, para concorrer em 2022 ao senado, com 78% de aprovação popular. Militante do Partido dos Trabalhadores (PT) desde 2002, foi aliado regional do quatro vezes candidato presidencial Ciro Gomes (PDT), também do Ceará, até à rutura às vésperas da eleição de 2022. O seu candidato ao governo estadual bateria nesse ano, com folga, o indicado de Ciro.De entre os muitos supostos “herdeiros” do presidente, Santana é muito mais discreto do que Dilma Rousseff, que assumiu a presidência em 2010, ou do que Fernando Haddad, que concorreu ao Palácio do Planalto em 2018, dada a prisão do hoje chefe de estado, e desempenhou o mediático cargo de ministro das Finanças neste governo. Mas é visto como um quadro competente e de perfil mais político que Dilma ou Haddad. “O nome de Camilo tem, claro, de ser mais trabalhado do que o de Haddad, que já foi candidato e é mais viável como nome natural por causa de todo o investimento do partido feito em torno dele, mas ele, por ter derrotado o Ciro Gomes no Ceará, é muito apoiado pelos políticos mais tradicionais do PT, não sei se já para as eleições de 2026, se para meio do mandato, se para 2030”, disse Marco António Teixeira, cientista político da Fundação Getúlio Vargas. Robson Bonin, colunista da revista Veja, acrescentou que “desde novembro de 2024 que o PT já testa o nome de Camilo em sondagens internas”. E mais ainda nos últimos tempos: “Porque há uma sensação de que Lula está em fim de jornada, ele até pode disputar a eleição, mas e depois, com o histórico de problemas de saúde que ele teve já neste primeiro mandato?”. Lula, 80 anos, curou-se de um cancro na laringe, em 2011, foi diagnosticado com lesões nas pregas vocais e posterior remoção de lesão benigna, em 2022, fez operação à anca, em 2023, e sofreu queda na casa de banho do Palácio da Alvorada, em 2024, que causou sangramento cerebral.“Além de Lula ter uma certa sensação de já ter a missão cumprida”, prossegue o articulista, “ainda corre o risco de terminar a biografia dele com uma derrota para o filho de Jair Bolsonaro”, uma vez que o senador Flávio Bolsonaro, primogénito do ex-presidente, vem empatando com Lula nas sondagens de segunda volta.“Nesse caso, Camilo, por ter sido elogiado pelo trabalho no estado do Ceará, na região Nordeste em especial, e pela obra na Educação, a nível nacional, pode surgir como alternativa porque, repito, não é completamente absurda a ideia de que Lula pode retirar-se, dada ainda a rejeição enorme à candidatura dele”, continua Bonin, referindo-se às sondagens que apontam para mais de 50% de desaprovação do presidente.“E o Camilo Santana pode ser o nome para continuar a obra no PT depois do lulismo, uma vez que Haddad não é visto no partido como um político, é visto como alguém que tem uma vida fora da política, que se candidata agora a governador até com uma certa náusea”, finaliza.No jornal Metrópoles, a colunista Andreza Mattais cita um dirigente partidário reservadamente. “Lula sair talvez não seja a maior surpresa, a maior surpresa é que seria Camilo Santana e não Haddad o candidato”. “A desaprovação do governo, a idade de Lula, o receio de perder depois de quatro vitórias e o pouco espaço para a conquista do centro são elementos importantes mas no PT a notícia de que há plano B é recebida como algo irreal”, adverte, entretanto, a colunista Luciana Lima, do site PlatôBR. Aliás, Sidônio Palmeira, ministro da Secretaria de Comunicação e “marqueteiro” da campanha de Lula, lembra que “quem fala pelo presidente são somente o presidente e a Secretaria de Comunicação, o Palácio do Planalto não fala em off, só fala em on, e Lula é candidatíssimo à reeleição”.