Daniel Vorcaro, fundador do falido Banco Master e peça-chave de um escândalo que ameaça abalar as estruturas de Brasília, decidiu assinar um acordo de colaboração com as autoridades. E agora ninguém, do poder executivo ao legislativo, passando pelo judicial, e da esquerda à direita, incluindo o centro político, pode dormir descansado, noticia a imprensa no Brasil, que já compara o potencial da delação do banqueiro às da Operação Lava-Jato. “É a delação do ‘eu sei o que você fez no verão passado’”, escreveu o analista político Thomas Traumann, no jornal O Globo. “O clima em Brasília lembra o estágio inicial da Lava Jato, quando as investigações começaram a revelar conexões entre empresários, políticos e autoridades”, acrescenta o colunista Robson Bonin, na revista Veja.Vorcaro, que já havia sido detido no final de 2025 por suspeita de fraude e outros crimes, voltou à prisão no dia 4 de março, depois de ter sido revelado que o empresário mantinha uma estrutura particular de vigilância e intimidação a adversários. Por exemplo, em troca de mensagens com um subordinado, Vorcaro sugere sequestrar e espancar um jornalista. Esse subordinado, Luiz Mourão, autodenominado Sicário, foi preso no mesmo dia do chefe mas suicidou-se na cadeia. No dia 13, quatro juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) votaram pela manutenção de Vorcaro na cadeia e, já na última segunda-feira, o banqueiro passou a ocupar a mesma cela, com cama, mesa, cadeira, armário, ar-condicionado, janela e minibar, em que o ex-presidente Jair Bolsonaro esteve detido no início do ano.Foi entre uma data e outra que o pivô do escândalo decidiu trocar de advogado, de um que resistia ao expediente da delação premiada por outro mais simpático a essa estratégia de defesa, para desespero das autoridades de Brasília com quem foi mantendo contatos – e contratos – nos últimos anos em forma de supostas troca de favores e de festas luxuosas. A percepção na classe política, jurídica e empresarial, diz reportagem do jornal Folha de S. Paulo, é a de que as revelações podem provocar danos em todas as áreas, de integrantes do governo de Lula da Silva, à direção de partidos do centro-direita, incluindo membros do executivo de Bolsonaro, congressistas e até juízes do STF. Entre os nomes já citados em mensagens divulgadas pela imprensa estão Antônio Rueda, presidente do União do Brasil, de direita, e Ciro Nogueira, presidente do PP, também de direita e peça-chave do bolsonarismo, que Vorcaro considera “amigo de vida”. Muito antes do escândalo, Nogueira propôs no Senado Federal uma emenda constitucional que beneficiaria o Master..Escândalo Master. Brasília teme uma nova Operação Lava Jato.Por outro lado, Ricardo Lewandowski, ex-ministro da Segurança e da Justiça de Lula, cujo escritório de advocacia foi contratado pelo banco, membros do Partido dos Trabalhadores da Bahia, e Guido Mantega, ex-ministro das Finanças de Dilma Rousseff que marcou uma reunião entre Vorcaro e Lula no Palácio do Planalto, também estão sob mira.O presidente da República, entretanto, quer focar na relação entre o bolsonarismo e Vorcaro. “Esse Banco Master é o ovo da serpente do Bolsonaro e do Roberto Campos Neto [ex-presidente do Banco Central]", acusou Lula.Fora da política, as relações de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, juízes do STF, com os tentáculos do empresário são das mais faladas. Toffoli vendeu um resort no Paraná a uma empresa ligada a Vorcaro e a advogada Viviane Barci de Moraes, casada com Alexandre de Moraes, assinou contrato no valor de 129 milhões de reais [mais de 20 milhões de euros] com o banco falido. A polícia acredita que Moraes e Vorcaro trocaram mensagens no dia da primeira prisão do banqueiro.Essas relações são vistas como trunfo da direita bolsonarista que vê o STF em geral e Moraes em particular como inimigo, sobretudo depois do processo do golpe de Estado. Mas outras relações, de caráter religioso, preocupam esse campo: foram revelados pontos de contato de Vorcaro com a Igreja Batista da Lagoinha, cujos pastores são fervorosos bolsonaristas, e com o deputado Nikolas Ferreira, do PL, de Bolsonaro, que usou um avião do dono do Master na segunda volta das eleições de 2022. A influência do Master chegou ainda a Davi Alcolumbre e Hugo Motta, presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, respetivamente, e aos governos dos estados do Rio de Janeiro, do Amapá e do Distrito Federal. A chamada delação premiada, entretanto, não é considerada uma prova por si: precisa ser confirmada por outros elementos e produzir resultados concretos, como a identificação de mais envolvidos, a recuperação de dinheiro desviado ou a prevenção de novos crimes.Na política brasileira, os delatores mais relevantes foram Roberto Jefferson, que revelou o escândalo do Mensalão, no início do século, Mauro Cid, ajudante de Bolsonaro que ajudou a desvendar a tentativa de golpe de Estado ao longo do ano passado, e Léo Pinheiro, executivo de uma construtora que, no contexto da Lava-Jato, disse ter oferecido um apartamento tríplex a Lula na praia paulista do Guarujá. Pinheiro era representado pelo atual advogado de Vorcaro..Daniel Vorcaro. O Brasil também já tem um “caso Jeffrey Epstein”