"Se for usado como parâmetro o que aconteceu durante o governo de Jair Bolsonaro, o desmatamento aumentaria de maneira descontrolada".
"Se for usado como parâmetro o que aconteceu durante o governo de Jair Bolsonaro, o desmatamento aumentaria de maneira descontrolada".Foto: Arquivo DN

Brasil: “Há uma cultura sertaneja que tende a ver a floresta como um empecilho”, diz arquélogo

Eduardo Góes Neves, arqueólogo referência no estudo da Amazónia, diz que se Flávio tivesse ganho “a perspectiva seria muito sombria” mas observa “uma identidade local, meio texana, que não muda só por mudar um governo”.
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O arqueólogo Eduardo Góes Neves, professor titular do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), é uma das principais referências no estudo do passado indígena da Amazónia. 

Licenciado em História pela USP, doutorou-se em Arqueologia pela Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, em 2000. Ao longo de décadas de investigação de campo, demonstrou que a floresta amazónica foi palco de sociedades numerosas e complexas, que transformaram a paisagem antes da chegada dos europeus. 

Foi presidente da Sociedade de Arqueologia Brasileira entre 2009 e 2011 e dirigiu o Museu de Arqueologia e Etnologia da USP entre 2022 e 2026. É autor de Arqueologia da Amazônia (2006) e Sob os Tempos do Equinócio (2022).

Em entrevista a um grupo de correspondentes estrangeiros no Brasil, de que o DN fez parte, respondeu sobre os riscos ambientais que o país – e por consequência o mundo – correu se Flávio Bolsonaro tivesse sido eleito em vez de Lula da Silva. 

O que aconteceria com a floresta amazónica se Flávio tivesse vencido as eleições?

A perspectiva seria muito sombria. Se for usado como parâmetro o que aconteceu durante o governo de Jair Bolsonaro, o desmatamento aumentaria de maneira descontrolada, com o esvaziamento dos órgãos de fiscalização e controle, como o IBAMA e o INPE. Além disso, haveria um agravamento de incêndios criminosos, avanço do garimpo ilegal, inclusive em territórios indígenas, e o fortalecimento do crime organizado na região.

Qual a sua avaliação sobre a capacidade de reconstrução dos órgãos de controle ambiental e a resistência a um eventual novo governo Bolsonaro?

Houve uma redução drástica do desmatamento nos últimos anos sob o governo de Lula. No entanto, caso ocorresse a eleição de um novo governo de oposição com perfil semelhante ao anterior, a capacidade de destruição das estruturas ambientais poderia ser ainda mais rápida e estruturada do que no passado.

Qual é a relação entre as queimadas atuais na Amazónia e o contexto eleitoral?

Há indícios e suspeitas de motivações políticas por trás de algumas queimadas – como o histórico de protestos e manifestações explícitas de apoio a candidaturas por parte de setores produtivos –, utilizadas para desafiar políticas ambientais e confundir a opinião pública.

O setor do agronegócio é unânime em relação ao apoio a políticas contrárias à preservação ambiental?

Não. Existe um segmento do agronegócio que é consciente e favorável à sustentabilidade. No entanto, lideranças e frentes políticas mais alinhadas a pautas conservadoras ainda exercem forte influência contrária às normas de proteção ambiental.

O setor mais arcaico do agro sente que o Brasil não pode sofrer sanções no contexto do acordo Mercosul-UE por ser um produtor quase insubstituível?

Sim: houve a “moratória da soja”, um acordo de produtores com grandes compradores de soja que se comprometeram a não comprar o produto de áreas desmatadas ali no norte do Mato Grosso, que deixou de ser cumprido por estes dias por soberba de produtores. Porém, a China investe cada vez mais em África, então essa arrogância é arriscada.   

A votação de Lula, pelo menos na primeira volta, foi muito reduzida nos estados mais agrícolas da Amazónia.

Na Rondônia e no Acre, o estado de Chico Mendes e Marina Silva, a derrota foi fragorosa. É uma questão antropológica: por um lado, os fazendeiros dominam os meios de comunicação locais, por outro, existe um pacote cultural meio texano em que a música, o sertanejo, a roupa, os chapéus e cintos de cowboy, e as festas sertanejas, tipo Peão de Barretos, vendem. E jovens que crescem nesse ambiente tendem a ver a floresta como um empecilho ou até, como chegam a chamar, um deserto. Fico preocupado porque isso vai além de questões políticas, não muda por mudar o governo, é uma visão de mundo.      

Como a classificação de organizações criminosas brasileiras, do tipo Primeiro Comando da Capital (PCC), como terroristas pelos EUA afeta o cenário político?

Esse tipo de declaração é visto como uma forma de exercer pressão geopolítica sobre um governo de centro-esquerda no Brasil. Trata-se de um instrumento com forte viés político, com precedentes de interferência externa em outros países da América Latina, como Equador, Peru, Argentina, Paraguai e Venezuela.

Alguns jornalistas queixam-se de que, ao entrar em certos territórios amazónicos, há logo um aviso pelo WhatsApp, do PCC, de uma presença estranha e as portas logo se fecham. Também tem essa percepção?

Em 2018, estava em Rio Branco, no Acre, e percebi que havia mensagens de WhatsApp a avisar a população de toque de recolher por guerras entre PCC e outros grupos. No ano passado, na mesma região, havia gente armada a desestimular a nossa presença, não apenas do PCC mas fazendeiros. E piratas: em 2024 fiz palestras na região em que viajava de barco com segurança armada 24 horas para evitar ataques piratas, os piratas atacam até os traficantes. Nos anos 80 e 90 ainda ficava acampado na praia, isso é inimaginável agora.

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