Friedrich Merz, chanceler da Alemanha, a maior economia do bloco dos 27, apelou esta quinta-feira, 21 de maio, aos líderes de Bruxelas para que a Ucrânia se torne “membro associado” da União Europeia, de forma a dar um impulso ao processo de adesão plena de Kiev a Estado-membro, mas também para fortalecer a sua posição nas negociações de paz com a Rússia. Merz explica que a adesão de Kiev como membro associado seria “um passo decisivo no caminho da Ucrânia rumo à adesão plena”, pedindo ainda a Bruxelas que dê início “sem demora” às negociações sobre os seis temas de adesão, os chamados clusters - um processo que precisa de unanimidade no Conselho Europeu e que vinha a ser vetado pela Hungria de Viktor Orbán, esperando-se agora uma atitude diferente de Péter Magyar. De acordo com o plano de Berlim, com este estatuto de membro associado, a Ucrânia poderia participar nas cimeiras e reuniões ministeriais da União Europeia, teria representação na Comissão Europeia, no Parlamento Europeu e no Tribunal de Justiça da UE, mas sem direito de voto.Na sua missiva, o alemão propõe ainda que Kiev não receberia fundos do orçamento da UE imediatamente, mas teria acesso aos programas de forma gradual, e que, em caso de retrocesso no Estado de Direito ou nos valores da UE, a Ucrânia estaria sujeita a uma reversão automática que restringiria os seus direitos.Importante ainda é o facto do chanceler alemão sugerir que Kiev alinharia com a política externa do bloco e estaria abrangida pelo artigo 42(7) do Tratado da União Europeia, a cláusula de assistência mútua da UE, para criar uma garantia de segurança. Cláusula que, tal como o Artigo 5.º da NATO ao qual é muitas vezes comparada, só foi acionada uma vez - pela França, em 2015, após os ataques terroristas em Paris, o que levou outros países da UE a darem assistência militar e logística para ajudar nas operações contra o Estado Islâmico.“É óbvio que não conseguiremos concluir o processo de adesão em breve, dados os inúmeros obstáculos, bem como as complexidades políticas dos processos de ratificação em vários Estados-membros. No entanto, tendo em conta o processo de paz, não podemos tolerar mais atrasos”, escreveu Friedrich Merz aos líderes da Comissão, do Conselho e à presidência cipriota do Conselho da UE. “A minha proposta reflete a situação particular da Ucrânia, um país em guerra. Ajudará a facilitar as negociações de paz em curso, como parte de uma solução de paz negociada. Isto é essencial não só para a segurança da Ucrânia, mas para a segurança de todo o continente”.O objetivo do chanceler alemão é que este assunto seja discutido no próximo Conselho Europeu, em junho, e que já tem na sua agenda o alargamento do bloco, processo que Merz descreveu como uma “necessidade geopolítica”, aproveitando para criticar a lentidão do processo, dizendo que causa frustração aos países candidatos, mas também aos 27. De notar ainda que esta será a primeira cimeira de líderes com a participação de Péter Magyar, que já mostrou ter uma abordagem diferente da do seu antecessor em relação à Ucrânia, tendo inclusive dito esta semana que pretende encontrar-se com Volodymyr Zelensky em junho. A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, mostrou-se alinhada com as críticas de Merz, alertando que a UE corre o risco de sofrer uma reação negativa por parte dos países candidatos, a não ser que acelere o processo de alargamento. “Participei em inúmeras cimeiras de países que aguardam a adesão... e nós apenas lhes dizíamos: ‘Ainda bem que estamos todos aqui reunidos, vamos tirar uma fotografia, vemo-nos daqui a seis meses’”, contou em Praga, no Fórum GLOBSEC . Metsola fez ainda eco da adesão gradual defendida por Merz, sugerindo que os países candidatos poderiam ter acesso ao “mercado único, união aduaneira, área de roaming, programas Erasmus e Horizonte” como passos para a adesão plena. Também em Praga, a ex-presidente da Estónia Kersti Kaljulaid deu a sua perspetiva sobre a admissão da Ucrânia no bloco, dizendo que a resposta é “muito simples”, apesar da complexidade do processo. “Só queria dizer que [a questão] deveria ser a simplificação. É muito difícil discutir se a Ucrânia deve aderir à União Europeia e depois discutir como é que a sua agricultura se vai enquadrar na política agrícola comum”, referiu Kaljulaid, citada pelo Guardian. “Mas não é essa a questão. A questão é: a Ucrânia é uma potência militar com uma enorme capacidade de produção militar. Em mãos de quem deve ela estar? Nas mãos da Rússia ou nas mãos do Ocidente? Fim da história. Essa é a nossa questão. Esse é o nosso objetivo. Que os ucranianos estejam connosco, porque imaginem se tivessem começado, como no tempo da União Soviética, a construir todas estas coisas para a Rússia, e não para nós. E isso já dá a resposta. É muito simples.” Numa outra frente, a da NATO, o chefe do Estado-Maior da Defesa da Chéquia, general Karel Rehka, garantiu ontem que a adesão de Kiev à Aliança é o próximo “passo lógico”. “A Ucrânia não é apenas um consumidor de segurança, mas também um fornecedor de segurança”, disse o líder militar checo no programa Speakeasy do Politico, à margem do Fórum GLOBSEC. “Não estou a dizer que é fácil. No final de contas, trata-se de consenso político, mas acho que é esse o rumo que devemos seguir”.Enquanto esse cenário não se torna uma realidade, o secretário-geral da NATO e o primeiro-ministro da Suécia, país onde está a decorrer uma reunião dos líderes da diplomacia dos países da Aliança, disseram ontem que nem todos os seus membros contribuem igualmente para a defesa da Ucrânia, com Mark Rutte a notar que este esforço financeiro é liderado por um grupo “limitado” - Suécia, Canadá, Alemanha, Países Baixos e Dinamarca - e que outros “não estão a investir o suficiente quando se trata do apoio à Ucrânia”.Os dois líderes abordaram ainda a questão dos drones ucranianos que têm sido desviados - alegadamente por interferência eletrónica da Rússia - para o espaço aéreo dos países bálticos, saindo em defesa de Kiev e classificando como “totalmente ridícula” a narrativa de Moscovo de que os três países do Báltico - Estónia (que ontem convocou o embaixador russo para protestar contra esta campanha de desinformação) , Letónia e Lituânia - terem permitido que a Ucrânia lance drones a partir dos seus territórios.“Acredito firmemente que os ucranianos não querem que os seus drones acabem em território amigo, por razões óbvias. Por vezes trata-se de interferência, outras vezes de outras perturbações, e obviamente não querem que isso aconteça, porque poderia causar danos, poderia gerar medo”, declarou Ulf Kristersson. “Devemos ter em conta que existe uma disposição russa para dar a impressão de que outros países estão a fazer coisas ilegítimas, e é por isso que não nos devemos deixar influenciar pela narrativa russa sobre isto, mas ajudar os ucranianos o mais possível a dirigir os seus ataques para os locais corretos”.Rutte, por seu turno, deixou o seu habitual recado à Rússia. “Que fique bem claro: a nossa capacidade e a nossa determinação em defender cada aliado são absolutas. Se alguém for suficientemente tolo para atacar, a resposta será devastadora”. .Rutte aponta para novas mudanças dos Estados Unidos na NATO.Ameaças da Rússia aos bálticos são “completamente inaceitáveis”