Os "nossos barcos transportam mais do que ajuda" humanitária à Faixa de Gaza, levam "uma mensagem: o cerco tem de acabar". "O maior perigo não está em confrontar Israel no mar, mas em permitir que o genocídio continue impunemente", diz a Global Sumud Flotilla sobre a frota que zarpa já este domingo, 31 de agosto, do porto de Barcelona em direção ao enclave palestiniano. Esperam que a atenção internacional seja também ela uma ajuda para que os olhos do mundo estejam focados numa solução para o fim do sofrimento dos palestinianos na Faixa de Gaza, onde já foi declarada situação de fome pela ONU, na sequência de um conflito que se agudizou com o ataque do grupo islamista Hamas, a 7 de outubro de 2023, que causou cerca de 1.200 mortos e 250 reféns. A ofensiva israelita que se seguiu contra o enclave, já fez mais de 63 mil mortos, segundo dados das autoridades do território palestiniano.São centenas de pessoas, entre os quais ativistas, políticos, artistas e figuras públicas, oriundos de 44 países, que partem na "maior missão de solidariedade da história", como descreve a organização, na qual participam três portugueses. Quais os objetivos, quem participa e qual a posição do Governo português sobre a flotilha que ruma ao território palestiniano? O que é a Global Sumud Flotilla e qual é o objetivo da viagem a Gaza?É uma frota, "coordenada e não violenta", composta por cerca de 50 pequenas embarcações, que pretende levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza e "romper o cerco ilegal da ocupação israelita a Gaza". "Cada embarcação representa uma comunidade e a recusa em permanecer em silêncio perante o genocídio", refere a organização. Trata-se de uma coligação que reúne ativistas, políticos e figuras públicas de 44 países. "Será a maior missão de solidariedade da história, já que tem mais gente e mais barcos do que todas as tentativas [de frotas] somadas até hoje para chegar a Gaza", disse um dos porta-vozes da Global Sumud Flotilla, o ativista brasileiro Thiago Ávila, em conferência de imprensa. Além de levar ajuda humanitária ao território palestiniano, pretende-se denunciar "o genocídio" da população da Faixa de Gaza por parte de Israel, sublinha a Global Sumud Flotilla.Os primeiros 30 barcos zarpam já este domingo, 31 de agosto, do porto de Barcelona, em Espanha. As outras embarcações irão juntar-se à frota humanitária a 4 de setembro, em Tunes, oriundos de diversos portos do Mediterrâneo. São sobretudo embarcações "de pequena e média dimensão, que "são legalmente viáveis, ágeis e mais difíceis de obstruir". "Cada embarcação é supervisionada por uma delegação regional com o apoio jurídico, náutico e logístico da coligação da flotilha", explica a organização. Estima-se que a viagem até Gaza tenha uma duração de cerca de duas semanas.A Global Sumud Flotilla descreve-se como uma "coligação de pessoas comuns", que "acreditam na dignidade humana e no poder da ação não violenta". "Embora pertençamos/tenhamos diferentes nações, crenças e convicções políticas, estamos unidos por uma única verdade: o cerco e o genocídio têm de acabar", declara a organização da frota humanitária."Somos independentes" e "não estamos filiados em qualquer governo ou partido político", acrescenta a Global Sumud Flotilha, uma iniciativa de diversas organizações não-governamentais (ONG), entre elas, a Flotilha da Liberdade, a Flotilha Sumud do Magrebe, o comboio Sumud Nusantara e do Movimento Global Para Gaza, bem como de outras organizações internacionais.A par das centenas de pessoas a bordo dos navios, mais de 30 mil em diversos países voluntariaram-se e apoiaram na logística e na divulgação da Global Sumud Flotilla, com "a sociedade civil a atuar num momento em que os líderes estão a falhar no papel básico de defender os Direitos Humanos", referiu a organização.Três portugueses integram frota humanitária. Quem mais participa?A deputada e coordenadora do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, a atriz Sofia Aparício e o ativista Miguel Duarte são os três portugueses que se juntam às centenas de pessoas, oriundos de mais de 40 países, que seguem a bordo dos barcos desta frota humanitária. "É de longe a maior e penso que é, de longe, a que tem mais probabilidade de conseguir efetivamente fazer chegar a ajuda humanitária a Gaza", afirmou à Lusa o ativista que se tem dedicado aos direitos dos migrantes e ao resgate de pessoas no Mediterrâneo. Além da dimensão, a Global Sumud Flotilla terá, à partida, uma visibilidade também inédita, por integrar "gente de muitos países e gente com plataformas”, como “deputados e eurodeputados, ativistas conhecidos, atores de cinema", sublinhou.Está confirmada a presença da ativista sueca Greta Thunberg, que pela segunda vez tenta chegar a Gaza, e da atriz norte-americana Susan Sarandon.O ator irlandês Liam Cunningham, a ex-presidente da Câmara de Barcelona, Ada Colau, e Mandla Mandela, neto do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, também integram a frota humanitária."Somos um grupo diverso de ativistas internacionais que pedem uma ação global urgente para obrigar Israel a abrir as fronteiras de Gaza para ajudar e pôr fim ao genocídio do povo palestino", disse Mandla Mandela. .É a primeira tentativa de levar ajuda humanitária a Gaza pelo mar?Não. Mas esta frota humanitária pode ser “um ponto de viragem na história destas flotillas para Gaza", a partir do Mediterrâneo, que já têm quase duas décadas, diz Miguel Duarte à Lusa."A visibilidade é muito grande e isso dá-nos proteção, para já. Porque o que nós vamos fazer é desafiar o cerco ilegal que as forças israelitas mantêm sobre o povo de Gaza", disse Miguel Duarte, que lembrou que "muitas outras flotillas, quase todas, foram intercetadas e as tripulações foram ilegalmente capturadas".No passado mês de junho, por exemplo, Israel proibiu a chegada a Gaza de veleiro com ajuda humanitária e com Greta Thunberg a bordo. A ativista sueca acusou Israel de ter “sequestrado em águas internacionais” o veleiro em que seguia com outros 11 ativistas com o intuito de entregar ajuda humanitária na Faixa de Gaza. Foi detida e levada para Israel e depois expulsa do país. "Fomos sequestrados em águas internacionais e levados contra a nossa vontade para Israel", disse Thunberg, afirmando que “não infringiu nenhuma lei” com a tripulação do veleiro Madleen, da Coligação Frota da Liberdade, que partiu de Itália para “romper o cerco” a Gaza."Esta é minha terceira tentativa de navegar com ajuda humanitária para quebrar o cerco ilegal de Israel a Gaza e abrir um corredor humanitário", disse greta Thunberg esta quinta-feira sobre a Global Sumud Flotilla. "Já houve 38 tentativas anteriores apenas com a coligação da Flotilha da Liberdade e agora com a Flotilha Global Sumud", disse Thunberg. "Isso é inédito. Estamos a mobilizar de pessoas do mundo todo com dezenas de barcos partindo primeiro de Barcelona e, em seguida, mais barcos se juntarão a nós de outros portos do Mar Mediterrâneo", disse a ativista ao Middle East Eye..Ativista Greta Thunberg acusa Israel de sequestro em águas internacionais.Em cada barco da frota que sairá de Barcelona no domingo irão também tripulantes com experiência de navegação, assim como jornalistas e médicos.Qual a posição do Governo português?Miguel Duarte, um dos portugueses que integra a frota, afirmou que além do objetivo de levar ajuda humanitária a Gaza e denunciar a carência da população, esta iniciativa espera que os diversos governos, como o português, "ponham em prática todos os esforços diplomáticos necessários" para garantir a segurança de quem vai a bordo dos barcos, mas também "a segurança da ajuda humanitária destinada a aliviar algum sofrimento das pessoas e estão sofrer genocídio em Gaza".Também Mariana Mortágua, do BE, disse que o Governo português tem a obrigação legal e moral de usar "todos os instrumentos" para garantir que a Flotilha Humanitária "chega a Gaza em segurança e consegue entregar ajuda humanitária" na Palestina. Mortágua garantiu que os três participantes portugueses enviaram uma comunicação ao Ministério dos Negócios Estrangeiros com as "informações essenciais" sobre esta missão, defendendo que Portugal deve garantir a segurança de quem a integra."Entendemos que esta é uma missão legal e ao abrigo do direito internacional, e entendemos que o Governo português (...) tem a obrigação moral, mas também legal, de usar todos os esforços e todos os instrumentos para garantir que estes barcos chegam em segurança e conseguem entregar ajuda humanitária em Gaza", disse a deputada do BE.O Governo, no entanto, esclareceu este sábado, 30 de agosto, que não tem qualquer obrigação ao abrigo do direito internacional de acompanhar e proteger a flotilha em direção a Gaza com os três portugueses a bordo."É algo que me parece inusitado", disse à Lusa o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, esclarecendo que o Estado português "não tem nada que proteger, nem acompanhar" a flotilha humanitária. Paulo Rangel explicou que a iniciativa é da sociedade civil e que "o Estado português não organizou esta missão, o Estado português não está vinculado a esta missão"."Não vamos agora pôr a frota da Armada Portuguesa a acompanhar esta flotilha ou a desencadear uma guerra contra Israel, não sei bem o que é que se pretende", completou o governante, recordando que a imunidade parlamentar da coordenadora do Bloco de Esquerda não dá a Mariana Mortágua imunidade diplomática."A iniciativa com certeza que é louvável, os próprios [integrantes] disseram que tem uma natureza simbólica e isso é compreensível, a situação da catástrofe humanitária em Gaza é realmente terrível e eu compreendo que cada um, à sua maneira, entenda usar os meios que deve, mas é uma iniciativa da sociedade civil", comentou."Outra coisa diferente, mas isso é devido a qualquer cidadão português, não há aqui nenhuma excecionalidade, nem sequer pela questão de ser deputado ou deputada [...], evidentemente que o Estado português usa da proteção consular, havendo algum problema", acrescentou, assegurando que está garantida para os três portugueses que tentaram penetrar o bloqueio israelita a Gaza.De referir que, a 31 de julho, o Governo português anunciou que Portugal tem “concertado posições” com outros Estados que mostraram “disponibilidade para iniciar” o processo tendo em vista o reconhecimento da soberania da Palestina, que incluirá também “a condenação dos atos terroristas do Hamas e exigência do seu total desarmamento”. Antes de reconhecer, em setembro, o Estado da Palestina, o Executivo vai ouvir os partidos com assento parlamentar, depois de já ter auscultado o Presidente da República. .Portugal vai reconhecer Estado da Palestina mas só após ouvir o PR e os partidos.Há preparação dos participantes face aos riscos de bloqueio? Sim. Segundo a organização, esta iniciativa acarreta "riscos", mas o "maior perigo reside em permitir que Israel e os seus aliados realizem genocídios impunemente". "Israel tem um historial documentado de uso da força contra flotilhas humanitárias", denuncia a Global Sumud Flotilla. "Com coordenação global, preparação jurídica e tripulações treinadas, pretendemos aumentar o custo político de qualquer agressão. Os participantes serão submetidos a triagem, formação em não violência e preparação para a segurança. Os riscos que enfrentamos são pequenos quando comparados com o que os palestinianos enfrentam todos os dias: fome, deslocações e bombardeamentos", declarou a organização, dando conta que se trata de uma iniciativa "legal, segundo o direito internacional". "As embarcações civis que transportam ajuda humanitária ou realizam protestos pacíficos em águas internacionais estão protegidas pelo direito marítimo", defende Global Sumud Flotilla..Estado português "não tem nada que proteger" flotilha humanitária rumo a Gaza, diz Rangel.ONU declara oficialmente fome em Gaza, mas Netanyahu diz que é uma "mentira descarada"