Donald Trump despediu-se de Ancara na quarta-feira, 8 de julho, dizendo que esta cimeira da NATO tinha sido “um tremendo sucesso”, uma mudança de tom em relação à sua chegada à capital da Turquia no dia anterior, quando criticou os aliados quanto aos gastos com a defesa e mostrou a sua desilusão com a Aliança, voltou a colocar a hipótese de controlar a Gronelândia e abriu a possibilidade de intensificar o conflito com o Irão. Olhando em retrospetiva, estes dois dias em Ancara terminaram com elogios do presidente à “unificação” da NATO, com os aliados, no seu comunicado final, a reafirmarem o compromisso de defesa coletiva do artigo 5.º e a anunciarem 50 mil milhões de dólares em contratos de defesa. Mas o grande vencedor desta reunião de Ancara nem sequer faz parte da Aliança, embora seja esse o seu desejo. “O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, emergiu como o grande vencedor da cimeira da NATO na Turquia. Putin tentou impedi-lo na sua longa conversa telefónica com Trump, a 4 de julho. No entanto, falhou”, defende John Herbst, diretor sénior do Centro para a Eurásia do Atlantic Council e antigo embaixador dos EUA na Ucrânia.Este ímpeto de Kiev, principalmente junto do presidente norte-americano deve-se em grande parte à bem-sucedida ofensiva de drones da Ucrânia, iniciada esta primavera, que tem causado uma escassez de combustível na Crimeia, mas também em partes da Rússia, e prejudicou o abastecimento das tropas russas em grande parte da linha da frente. “Um ponto de destaque da reunião aumentou a pressão sobre Putin: a declaração de Trump de que estava disposto a autorizar a Ucrânia a fabricar intercetores Patriot. Isto aborda a maior vulnerabilidade da Ucrânia na guerra, a sua capacidade limitada de proteger os civis contra os mísseis balísticos russos”, nota Herbst. “Trump anunciou também a sua disponibilidade para avançar na coprodução de drones”. A juntar a estes entendimentos com os Estados Unidos, Kiev viu ainda os líderes dos 32 países da NATO reiteraram na declaração final da cimeira o seu “apoio inabalável” à Ucrânia e anunciaram um financiamento de 70 mil milhões de euros este ano, comprometendo-se a manter níveis “pelo menos equivalentes” em 2027. “Em suma: Putin esperava que a cimeira da NATO reduzisse a pressão que tem enfrentado nos últimos três meses. Ocorreu o contrário”, conclui o antigo embaixador dos EUA na Ucrânia.Depois de os aliados terem acordado no ano passado, na cimeira de Haia, uma nova meta de 5% do PIB em gastos com a defesa, a reunião de Ancara iria servir para europeus e Canadá mostrarem a um insatisfeito Donald Trump que têm feito progressos - os seus gastos aumentaram 20%, como o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, fez questão de sublinhar na sua ida à Casa Branca no final de junho e na semana passada na capital turca. A juntar a isto, os aliados comprometeram-se com 50 mil milhões de dólares em acordos da indústria de defesa, na sua maioria envolvendo europeus e canadianos. “Os acordos anunciados em Ancara representam um início promissor, mas Rutte sabe que é preciso manter esse ímpeto. Desta forma, assistimos ao desenvolvimento de uma Europa mais forte numa NATO mais fraca: uma Europa mais forte graças aos avanços dos europeus no reforço das suas próprias defesas, e uma NATO mais fraca devido à falta de um compromisso claro e de liderança por parte dos Estados Unidos”, notam Torrey Taussig e Philippe Dickinson, diretora e diretor adjunto da Iniciativa de Segurança Transatlântica do Atlantic Council. Entre o apoio declarado à Ucrânia e o anúncio do presidente dos Estados Unidos de que o acordo com o Irão estava “morto”, terá passado despercebido para muitos aquilo que Ibrahim Al-Assil, investigador sénior na Iniciativa para o Médio Oriente da Harvard Kennedy School, chama de “um dos desenvolvimentos mais significativos da cimeira da NATO em Ancara” - a declaração de Trump de que a sua administração irá retirar a Síria da lista dos EUA de países patrocinadores do terrorismo, da qual faz parte desde 1979. “A remoção da designação reforçaria a mudança mais ampla no sentido do envolvimento internacional com a Síria”, refere este especialista, acrescentando que “com a diminuição de muitas das barreiras externas, o futuro da Síria dependerá menos das restrições internacionais e mais da capacidade do executivo para governar eficazmente”..Líderes da NATO devem confirmar gastos recorde em defesa face a uns EUA a reduzir presença na Europa.“Um amor imenso”. Trump elogia NATO e promete a Kiev licença para fabricar mísseis ‘Patriot’