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Transamerica Pyramid é uma das imagens de marca de São Francisco

"Arranha-céus Transamerica Pyramid, em São Francisco, é de William Leonard Pereira, um luso-americano"

Entrevista ao luso-americano John Bento, arquiteto na Califórnia, nascido em Sacramento, filho de madeirenses, que acha importante dar a conhecer legado das grandes figuras de origem portuguesa.
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William Leonard Pereira é sobretudo famoso por causa do arranha-céus Transamerica Pyramid em São Francisco, finalizado em 1972. É um dos grandes arquitetos dos EUA do século XX?

É muito conhecido no estilo moderno de arquitetura. A maior parte da sua obra foi realizada no sul da Califórnia, na região de Los Angeles, mas é bastante famoso no país. Embora eu nunca tivesse ouvido falar dele até começar a faculdade de arquitetura. Mas, em retrospetiva, ele é bem conhecido. Tornou-se mais conhecido ao longo dos anos. A Transamerica Pyramid, penso eu, foi o que o tornou conhecido.

É realmente um edifício icónico em São Francisco. É tão diferente dos outros arranha-céus! Identifica de imediato o estilo arquitetónico de Pereira?

Sim, pelo que tenho lido ao longo dos anos, é muito indicativo, muito típico do que ele gostava de fazer. Tinha muita predileção por usar formas e figuras geométricas. E isso era algo pelo qual era conhecido. E foi isso que o levou a projetar a pirâmide desta forma.

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John Bento, arquiteto luso-americano admiradpr de William Leonard Pereira

Li que existe também um outro famoso edifício projetado por Pereira na Califórnia que é a Geisel Library, em San Diego. São os dois mais icónicos que projetou?

Sim, a biblioteca em San Diego e a pirâmide em São Francisco são, provavelmente, as duas obras pelas quais é mais conhecido.

Disse só ter descoberto Pereira quando foi estudar arquitetura. E a ascendência portuguesa dele foi algo que também não tardou a descobrir?

O que mais me irritava ao crescer na comunidade portuguesa era aquilo de que não se falava sobre nós próprios. Licenciei-me em arquitetura na UC Berkeley. E logo no meu primeiro dia lá, a minha primeira aula foi sobre história da arquitetura. E o professor mostrou vários diapositivos de diversos edifícios, entre os quais a Pirâmide Transamérica, que reconheci porque cresci perto de São Francisco. Depois disse que o arquiteto era William Pereira. E foi assim que descobri.

O nome soou-lhe imediatamente português?

Sim. E isso sempre foi muito frustrante para mim, porque na comunidade portuguesa aqui na América, nós tendemos a nos assimilar e não assumimos muito crédito pelas coisas que fizemos. E isso frustrava-me. Sabe, cresci na comunidade portuguesa. Estava envolvido na comunidade. Queria ser arquiteto. E nunca ouvi falar desse arquiteto americano com nome português. E isso foi muito frustrante para mim.

Li um pouco sobre William Pereira. Era de Chicago e tinha ascendência judaica asquenaze por parte da mãe e judaica sefardita por parte do pai. Esta mistura de ascendências judaicas é comum nos Estados Unidos. E a diáspora judaica portuguesa teve uma história diferente. Provavelmente isso explica porque é que ele não tinha tanta ligação com a comunidade portuguesa?

Pode ser. A comunidade judaica não é tão conhecida nos Estados Unidos como a comunidade portuguesa católica. Isso é definitivamente verdade. Talvez por isso Pereira não fosse tão conhecido. Mas, na verdade, é uma questão cultural mais geral aqui nos Estados Unidos. Os portugueses que aqui vivem há gerações não são o tipo de pessoas que exigem muito reconhecimento pelas coisas que fazem. Há vários exemplos de luso-americanos que fizeram coisas interessantes, que por alguma razão se destacaram, mas a comunidade não sabe disso e se sabe não divulga. E esse é um dos meus problemas. Vou dar um breve exemplo. Existe uma fotografia famosa, do final da Segunda Guerra Mundial, de um marinheiro a beijar uma mulher no meio da rua quando declararam o fim da guerra. E muito pouca gente sabe que era de ascendência portuguesa.

Foi no desfile da vitória em Nova Iorque. E lembro-me de ter visto uma estátua inspirada na foto em San Diego.

Jorge Mendonsa.

Sim, Mendonsa, com s. Em geral, as  pessoas não sabem que é um luso-americano?

Não, não, e isso é porque nós não promovemos a nossa própria comunidade. E, para mim, isso sempre foi motivo de frustração. E essa frustração remonta a William Pereira. À descoberta dele. Foi aí que tudo começou para mim. Porque, perguntava-me, como é que eu nunca tinha ouvido falar dele? E eu conto isto às pessoas, "ah, sabes, o tipo que desenhou a Pirâmide Transamérica era português”, e elas olham para mim tipo com ar incrédulo. "Ah, é!”. Ninguém parece saber. E acho isso uma pena.

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Prestigiada revista 'Time' dedicou capa a William Leonard Pereira em 1963

Está envolvido com o PALCUS, uma organização de luso-americanos. Tem procurado promover esse contributo português para a história americana?

Sim, isso é algo que eu, através do meu envolvimento com o PALCUS, sempre tive como objetivo pessoal: procurar e promover tudo o que seja luso-americano. Outro exemplo: o homem que construiu e desenhou o tubarão utilizado no filme Tubarão era de ascendência portuguesa. Chama-se Joe Alves.

A relação entre luso-americanos e Hollywood traz algumas surpresas - o irmão de William Pereira, Al Pereira, ganhou um Oscar de direção artista e teve mais de 20 nomeações. Foi também diretor artístico da série Bonanza, que passou na RTP e era muito popular.

Sim, pelo que percebi, o irmão dele trabalhava em produção cinematográfica, cenografia, esse tipo de coisas. Então colaboraram. Ah, lembro-me do programa na minha infância. Lembro-me de assistir. Só não sabia disso. Mas veja, este é um exemplo perfeito destas coisas na nossa comunidade na América. Nós não divulgamos essas coisas.

John, para si, fazer parte da comunidade portuguesa significa ser português e, ao mesmo tempo, muito americano. A comunidade tem esta tradição de assimilação, de querer fazer parte da sociedade americana?

Tenho muito orgulho em ser descendente de portugueses. E a minha mãe dizia-me sempre: "Infelizmente, na comunidade aqui nos Estados Unidos, tendemos a estar divididos." E isso é um problema. Mas sim, quer dizer, tenho muito orgulho em ser descendente de portugueses. E digo às pessoas: sou americano, mas sou um luso-americano. Este é o tipo de americano que eu sou. E tenho muito orgulho na minha herança. É por isso que estou sempre à procura de exemplos dos contributos dos portugueses para este país. Porque, como já disse, não fazemos autopromoção. E acho que isso é um erro.

Alguém famoso como o William Leonard Pereira poderia ser um modelo para as crianças luso-americanas?

De certeza. Eu queria ser arquiteto desde os 10 anos. Teria sido ótimo ter lido sobre ele quando era mais novo, saber quem era e aprender sobre a sua história. E eu não sabia nada sobre ele. Absolutamente nunca tinha ouvido falar dele. Porque toda a gente conhece os desportos. Toda a gente conhece Cristiano Ronaldo, o atleta. Mas há pessoas noutras áreas e noutros negócios que são luso-americanas. E seria ótimo se as pessoas os pudessem admirar, saber quem foram, o que realizaram e os seus contributos para a sociedade. Com certeza. Mas se não contarmos a ninguém, como poderão saber?

Há grandes figuras da comunidade luso-americana aí na Califórnia. No ano passado, fiz uma reportagem no Vale de São Joaquim com Manuel Eduardo Vieira, açoriano, o rei da batata doce.

Conheço bem. Ele fez muito pela comunidade. Portanto, para mim, a questão é que as pessoas que fazem muito pela comunidade e contribuíram para os Estados Unidos, e que são de ascendência portuguesa, sejam elas famosas ou não, precisam, na minha opinião, de ser mais reconhecidas. Eu sei que não há nada de mal em ser humilde. Isso é uma coisa boa. Mas chega a um ponto, penso eu, em que precisamos de dizer," sabe, ele é um peixe-graúdo". Sabe, o monumento a João Rodrigues Cabrilho, em San Diego. Há uma grande discussão aqui na Califórnia. Ele era português? Ele era espanhol? Será que isto é importante para a comunidade, esta ascendência portuguesa de Cabrilho, o primeiro europeu na Califórnia?  É que, mais uma vez, isto remete para o reconhecimento e o mérito pelo que fizemos. Há pessoas, por exemplo, que querem afirmar que Colombo era português. Entendo que a investigação histórica indica que não. Tudo bem. Não quero que a comunidade portuguesa receba crédito por algo que não fez. Mas fico frustrado quando não assumimos o crédito pelas coisas que fazemos. E Cabrilho é um bom exemplo disso. Se ele é português, as pessoas têm de reconhecer isso. E não brigamos. A comunidade portuguesa aqui não briga. Os espanhóis dizem: "Oh, não, ele é espanhol". E nós respondemos: "Está bem".

Os portugueses em San Diego estão a lutar, pelo que tenho acompanhado. E o historiador Paulo Afonso, professor em Sacramento, está a fazer um grande trabalho, refutando a tese do Cabrilho espanhol, depois de quase 500 anos a ser indentificado como navegador ao serviço de Espanha.

Tem toda a razão. Na comunidade portuguesa em San Diego lutam. Mas quase mais ninguém.

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”Mapa de 1604 do florentino Neroni é o documento mais antigo com o nome Cabrilho escrito em português”
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Manuel Eduardo Vieira: “A América é a maior potência e ainda é a terra das oportunidades”
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