Em 2018, as relações entre a China e o Canadá atingiram um dos pontos mais baixos quando as autoridades de Otava ordenaram a detenção da diretora financeira da Huawei, Weng Wanzhou, a pedido dos EUA, e no ano passado a decisão do governo de Justin Trudeau de seguir o exemplo de Washington e impor tarifas de 100% aos carros elétricos chineses levou Pequim a retaliar com mais impostos sobre produtos canadianos da colza aos frutos do mar. Mas tudo mudou com o regresso de Donald Trump ao poder nos EUA. Alvo da guerra tarifária do vizinho do sul e ameaçado por este de ser anexado e tornar-se no “51.º estado americano”, o Canadá parece ter optado por uma até há pouco tempo impensável aproximação à China. Na agenda do primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, quando esta quarta-feira, 14 de janeiro, aterrar na China estará o comércio (a China é o segundo parceiro comercial do Canadá, depois dos EUA) e a segurança internacional. Esta é a primeira visita de um chefe de Governo canadiano à China em quase uma década. O último foi Trudeau, em 2017. O convite para Carney visitar a China surgiu em outubro passado num encontro entre o primeiro-ministro canadiano e o presidente chinês, Xi Jinping, na Coreia do Sul, à margem da cimeira da APEC (Cooperação Económica Ásia- Pacífico). Os dois voltam a estar juntos na próxima sexta-feira, quando Xi receber Carney no Grande Salão do Povo, em Pequim. “Quando o primeiro-ministro é convidado para ir à China, não é para fazer figura”, disse à Reuters Greg MacEachern, antigo conselheiro do Partido Liberal do Canadá, acrescentando que a viagem de Carney será acompanhada de perto em Washington. “Há um risco político de que isso possa incomodar o presidente Trump, mas o primeiro-ministro Carney claramente quer enviar a mensagem de que o Canadá está aberto para negócios. E o governo canadiano calculou que vale a pena”, explicou. O objetivo do primeiro-ministro canadiano será não só impulsionar as exportações para a China, mas também atrair investimento chinês para o Canadá, onde o investimento estrangeiro direto diminuiu desde que Trump ameaçou restringir o acesso canadiano ao mercado norte-americano. Carney, que prometeu construir “resiliência através da diversificação no exterior”, admitiu em novembro receber investimentos chineses no setor energético, incluindo nas energias renováveis e armazenamento de baterias.“Temos de atrair investimento para as empresas canadianas. Esse é realmente o principal desafio. Caso contrário, falar de resiliência é ilusório”, disse ao jornal canadiano Globe and Mail Janice Gross Stein, professora de gestão de conflitos na Universidade de Toronto. Os acordos que Carney espera conseguir podem incluir mais exportações de petróleo bruto canadiano para a China, segundo uma fonte próxima das discussões citada pela Reuters. O Canadá exporta cerca de 90% do seu petróleo para os EUA, mas um aumento planeado nas importações de petróleo dos EUA proveniente da Venezuela, depois da captura por forças americanas do presidente Nicolás Maduro no passado dia 3, pode diminuir a procura americana por petróleo bruto canadiano.A proximidade com os EUA esteve diretamente relacionada com as tensões entre Canadá e China em 2018. Foi a pedido de Washington que a polícia canadiana deteve Weng Wanzhou, com os EUA a exigirem a extradição da executiva da Huawei. A China retaliou com a detenção de dois canadianos, Michael Kovrig e Michael Spavor, por espionagem. Os três seriam libertados em 2021. Um editorial do jornal estatal chinês Global Times saudou a visita de Carney como um novo ponto de partida e exortou o Canadá a suspender as “restrições tarifárias injustificadas” e a promover uma cooperação mais pragmática. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Mao Ning, disse na segunda-feira que a China vê a visita de Carney como uma oportunidade para “consolidar a dinâmica de melhoria nas relações entre a China e o Canadá”..Canadá quer criar força de voluntários de até 300.000 pessoas para a sua defesa