Ano do boi. A China à espera de deixar a pandemia para trás

A 12 de fevereiro, o Rato dá lugar ao Boi. Ou será Búfalo? Na verdade, é apenas uma questão de tradução, mas a verdade é que os chineses esperam que o ano novo seja o que vai deixar a covid-19 para trás.

O boi é o segundo signo do zodíaco chinês. Segundo a mitologia, foi o Imperador de Jade que organizou uma corrida para decidir quais os 12 animais que entravam no zodíaco chinês - por ordem de chegada. Ora, o boi ia terminar primeiro, mas acabou por ser o rato, que antes o convencera a dar-lhe boleia, quem saltou por cima da sua cabeça e chegou à meta primeiro. Agora que o Ano do Rato está a chegar ao fim, com o Boi a suceder-lhe no dia 12, a China - e o mundo - bem precisa para enfrentar uma pandemia e a crise económica consequente da fiabilidade do Boi, um signo cujos nativos se caracterizam por serem honestos e trabalhadores incansáveis, como o animal que os representa.

Mas será boi ou búfalo? "Em relação aos animais, na língua chinesa existe sempre uma designação geral para uma espécie. Por exemplo, a palavra "niu" serve para designar todos os animais com características de "niu". Depois, o ideograma "niu" é antecedido por um outro que funciona como adjetivo para distinguir diversas variedades da mesma espécie: shuiniu/búfalo (niu de água), huangniu/boi (niu de cor amarela), douniu/touro (niu de luta), maoniu/iaque (niu de "pelos compridos"), nainiu/vaca leteira (niu de leite). A designação geral recebe também outros adjetivos para distinguir o macho da fêmea, por exemplo, gongniu refere-se a todos os nius machos, búfalo, boi, touro, iaque, enquanto muniu, búfala, vaca....", explica Wang Suoying, a presidente da Associação Portuguesa dos Amigos da Cultura Chinesa.

Para a académica, doutorada em Linguística pela Universidade Nova de Lisboa e a viver em Portugal desde 1991, "em português não existe tal designação geral (apesar de podermos entender que o niu significa gado bovino), pelo que a sua tradução é liberal para português. Muitas pessoas preferem usar a expressão "Ano do Búfalo", pois o búfalo é um animal sobretudo asiático e gosta de mergulhar nas águas enquanto não trabalha, apresentando uma cena poética e exótica. Os chifres do búfalo costumam ser mais longos e curvados, com grande valor estético e artístico. A escrita mais antiga de niu é mesmo o desenho que reproduz a cabeça do animal com chifres longos e curvados", explica. Os signos chineses mudam de 12 em 12 anos - cuidado se nasceu em janeiro ou início de fevereiro porque pode apanhar a transição nos signos chineses. Este é o Ano do Boi (ou Búfalo) de metal. Cada um dos 12 animais do zodíaco chinês - Rato, Boi, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Cabra, Macaco, Galo, Cão e porco está associado a um elemento: madeira, fogo, terra, metal e água (12x5=ciclos de 60 anos, logo o último Ano do Boi de Metal foi em 1961).


Pequenos, grandes, dourados, brancos e pretos ou coloridos, de peluche ou papel. Na banca de Gong Linhua, em Wuhan, há bois - ou búfalos - para todos os gostos. O que quase não há são clientes no mercado da cidade chinesa onde há pouco mais de um ano começou a pandemia de covid-19. O cenário cheio de lanternas vermelhas assinala a época festiva, mas falta a agitação em torno das bancas de decorações e das carrinhas de comida de rua.

"É a primeira vez em 20 anos neste negócio que estou nesta situação", explicou à Associated Press. As vendas de decorações para o ano novo lunar têm sido tão más, que a vendedora, de 60 anos, admite mesmo reformar-se mais cedo se a economia não recuperar.

E a China, onde a pandemia começou mas que, com rigorosas medidas de contenção, conseguiu manter o vírus muito mais controlado do que a maior parte dos outros países, até viu a economia crescer uns espantosos 6,5% no último trimestre de 2020 - fazendo subir a média do ano para um crescimento de 2,3% do PIB. Para 2021, em que se assinala o centenário do Partido Comunista Chinês, a previsão é que cresça 8,2% - um valor de fazer inveja, mas mesmo assim sem chegar aos dois dígitos a que habituou o mundo.
Apesar de tudo, também em Portugal, a comunidade chinesa está preocupada. " No zodíaco chinês, o niu, aliás, o búfalo ou boi, é considerado laborioso, empenhado, com os pés bem assentes no chão. Olhando para a história, em 2009, Ano do Búfalo anterior, a pandemia de gripe A (H1N1) tirou muitas vidas humanas e, com a luta árdua durante todo o Ano do Búfalo, a humanidade ganhou a vitória, oficialmente declarada pela Organização Mundial da Saúde um ano depois, no Ano do Tigre", recorda a professora Wang. Para a docente da Universidade de Aveiro e investigadora do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa, "o Ano do Búfalo, 2021, será um ano de trabalho em que a humanidade aprende a conviver com a pandemia, com o cumprimento rigoroso das medidas profiláticas".

O Festival da Primavera e a ida à terra

Mas a maior preocupação para muitos chineses é saber se o recente aumento no número de casos de covid e alguns pequenos surtos que levaram a duas mortes em janeiro vão permitir aos seus familiares deslocarem-se pelo Ano Novo.

É o caso de Wang Cuilan, que com o marido gere uma das bancas vizinhas da de Gong no mercado de Wuhan. Com as vendas de decorações neste ano a serem ainda piores do que as do ano passado - em 2020 o confinamento em Wuhan só foi decretado dois dias antes do Ano Novo, quando a maior parte das pessoas já tinham comprado os adereços para as festas -, a vendedora receia mesmo é que a filha de 26 anos não a possa vir visitar.

A filha de Wang trabalha na vizinha província de Hunan e, como milhões de chineses, quer aproveitar as férias para ir a casa - para muitos destes trabalhadores migrantes a única vez no ano em que voltam à terra natal.
Em 2020, as autoridades estimam que estas férias - um período identificado como Festival da Primavera, ou Chunyun, em chinês, e que vai de 28 de janeiro até 8 de março, para permitir longas deslocações até à terra e depois o regresso à cidade - tenha tido um papel na disseminação do vírus. Hoje, o governo debate-se no dilema entre convencer as pessoas a ficarem em casa, sem cancelar a maior celebração anual no país.

Num ano normal, estamos a falar de cerca de três mil milhões de viagens neste período. Em 2020, com o vírus a ganhar força e o governo a restringir já alguns movimentos, o número caiu para metade, segundo o Ministério dos Transportes. Mas neste ano, os responsáveis chineses acreditam num aumento, para perto de 1700 milhões de viagens.

E estão a preparar-se para isso: Pequim divulgou um plano para vacinar 50 milhões de pessoas - 3,5% dos 1400 milhões de chineses - antes das férias. Além disso, quem regressar às zonas rurais tem de ter um teste negativo feito nos últimos sete dias. Mesmo assim, terá de cumprir 14 dias de "observação", nos quais não está proibido de sair, mas tem de medir a temperatura duas vezes por dia e não pode participar em ajuntamentos.
Macau também se prepara para a festa. Na região administrativa especial devolvida em 1999 por Portugal à China, mas oficialmente bilíngue, "há um ano entrávamos numa pandemia que muitos julgávamos que pudesse estar resolvida no verão, tendo como referência a SARS em 2003. Doze meses volvidos vivemos dias ainda de apreensão, mas mais pelo panorama internacional do que pela situação local. Macau continua desde junho sem qualquer caso local e o único caso ativo é de uma passageira que testou positivo à chegada, estando em isolamento. A forma bem-sucedida como as autoridades geriram esta crise de saúde pública coloca Macau num grupo muito restrito de jurisdições", explica José Carlos Matias. Para o diretor da revista Macau Businness, "existe um ambiente de satisfação e confiança na gestão da crise de saúde pública.

Em Lisboa, a festa também se faz, com a comunidade chinesa, a cumprir as regras sanitárias para manter a tradição viva. "Algumas ruas de Lisboa estão decoradas com lanternas tradicionais chinesas, vermelhas, para trazer a todos alguma boa sorte, pois a cor vermelha é a cor de sorte e felicidade na cultura chinesa

Por outro lado, existe alguma ansiedade particularmente entre os cidadãos locais que não possuem nacionalidade chinesa por não terem praticamente possibilidade de mobilidade, uma vez que lhes está vedada a entrada na China continental (exceto em casos específicos e excecionais)".

José Carlos Matias não tem dúvidas: "No horizonte está o desejo do início do fim do pesadelo da pandemia global. Vai demorar tempo, mas o boi (ou búfalo) neste ano 2021 deverá mobilizar a energia para fazer jus à tradição chinesa de o búfalo ser um animal diligente, honesto, forte e associado com boas colheitas e fertilidade. Para muitos portugueses, há esperança de que traga a janela de poder viajar e visitar a família e a terra natal em Portugal, que tantas saudades nos deixam."

Em Lisboa, a festa também se faz, com a comunidade chinesa, a cumprir as regras sanitárias para manter a tradição viva. "Algumas ruas de Lisboa estão decoradas com lanternas tradicionais chinesas, vermelhas, para trazer a todos alguma boa sorte, pois a cor vermelha é a cor de sorte e felicidade na cultura chinesa. Vamos trabalhar com o espírito do búfalo e esperamos, com convicção, que a vitória contra a pandemia de covid-19 esteja próxima", explica a professora Wang.

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