“Alguém sugeriu dar o Nobel da Paz à ISS. O símbolo  é muito forte”
FOTO: Cédric Bufkens/SIPA

“Alguém sugeriu dar o Nobel da Paz à ISS. O símbolo é muito forte”

Thomas Pesquet, astronauta francês que em 2027 volta pela terceira vez à Estação Espacial Internacional, falou ao DN e outros media, à margem da Cimeira Internacional sobre o Espaço, em Paris, sobre as dificuldades da vida a bordo e os desafios para a Europa se impor neste sector.
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Ao longo da sua carreira, inclusive nas duas vezes em que esteve na Estação Espacial Internacional (ISS), Thomas Pesquet conviveu com astronautas americanos, russos ou japoneses. No espaço, não existe rivalidade ou tensão entre países, perguntamos? Sentado numa “sala” de paredes brancas criada no Grand Palais de Paris para encontros à margem da Cimeira Internacional sobre o Espaço (9 e 10 de setembro), o astronauta francês começa por explicar que “o interessante é que nós astronautas somos os primeiros atingidos quando há tensões geopolíticas, porque fazemos tudo em parceria. E, obviamente, assim que surgem tensões entre países, somos os primeiros a senti-las”. Mas quando se está confinado durante mais de 200 dias, num espaço fechado, 400 km acima da superfície terrestre, as questões geopolíticas têm mesmo de ficar lá fora.

“A ISS é extraordinariamente resiliente. Há 25 ou 30 anos decidimos fazer as coisas juntos e comprometemo-nos de tal forma que hoje ninguém consegue fazer a ISS funcionar sem os outros parceiros. Por vezes é desconfortável porque temos mesmo de lidar uns com os outros. Por outro lado, acredito que seja um ótimo exemplo”, explica Pesquet, que nos dias da cimeira, e na sua qualidade de enviado especial do presidente Emmanuel Macron, encabeçou um grupo de duas dezenas de astronautas que estiveram no evento.

“No final dos anos 2010 alguém sugeriu que a ISS devia receber o Nobel da Paz. Não sei é possível, mas o símbolo é muito forte porque, se observar, verá que são todos os países que participaram na II Guerra Mundial. Na Europa, é França, Alemanha e Itália, depois os EUA, Canadá, Rússia e Japão. São os países que se mataram na II Guerra Mundial. E passados 80 anos estão a trabalhar juntos para fins pacíficos. Acho fantástico. E o bem que isso fez às relações internacionais é, na minha opinião, subestimado.”

Para gerir possíveis tensões, Pesquet garante que há técnicas. “O que acontece é que nos concentramos naquilo que nos une. Ninguém vai falar de política, religião. Quando chega a hora do jantar, falamos sobre a família, sobre o espaço. Falamos de coisas em que nos podemos concentrar, em vez de coisas que nos poderiam separar. A ISS é como um barco, onde as pessoas ficam 200 dias. Não seria inteligente começar a haver tensão entre elas.”

E para garantir que as coisas se passam da melhor forma possível em termos humanos, os astronautas, além dos conhecimentos técnicos e do treino físico, recebem treino psicológico. “Hoje em dia as missões duram cerca de 200 dias a bordo da ISS. Amanhã, este período será maior. Hoje ainda não temos missões a Marte, mas o plano atual seria algo como 300 dias para ir, 300 dias em Marte e 300 dias para voltar. 900 dias é muito tempo”, explica Thomas Pesquet.

Isso explica porque “a seleção dá agora muito mais importância ao aspeto psicológico do que a época dos astronautas da Apollo”. Para ajudar no processo, a Agência Espacial Europeia (ESA) desenvolveu “formações específicas para garantir que somos capazes de funcionar sob pressão e em condições difíceis como equipa. Por exemplo, enviamos pessoas explorar grutas durante 10, 15 dias. Colocamos pessoas debaixo de água durante 9, 10 dias, em módulos na costa da Florida. São as missões NEEMO que realizamos com a NASA. E tudo isto serve para reforçar a abordagem psicológica de autoconhecimento e de conhecimento dos nossos companheiros de tripulação.”

Ao fim de tantos anos de treinos e missões espaciais, o próprio Pesquet desenvolveu a sua maneira de tornar uma tripulação numa família. “Na ISS comemoramos aniversários, feriados nacionais. Na minha primeira missão, na minha quota pessoal, levei um pequeno presente para todos os membros da tripulação, para os seus aniversários, para as festas nacionais ou para o Natal. Eu estive lá no Natal. Pequenas gentilezas como esta, tentar estar presente para o outro, é importante. Seis meses é muito tempo”, garante. Até porque “quando se está lá em cima, falamos com psicólogos de duas em duas semanas. Mas, pensando bem, se estás na ISS e o psicólogo te pergunta como estão as coisas por lá, só há uma resposta possível: ‘estão ótimas’ [risos].”

Confirmando que não lhe falta sentido de humor, a uma pergunta sobre o saxofone que tocou no espaço, o engenheiro aeronáutico de formação brinca que esse é que deve ter sido um desafio para a saúde mental dos companheiros, uma vez que “sou muito mau músico”. E explica que na altura, tocava quase todas as semanas mas acabou por deixar o instrumento na ISS porque “uma colega da NASA disse que também sabia tocar.” Entretanto o instrumento voltou à Terra - embrulhado em plástico de bolhas de ar - e pode ser visto no European Astronaut Centre da ESA, em Colónia, na Alemanha.

O impacto de voltar à Lua

Com empresas como a Space X, de Elon Musk, e a Blue Origin, de Jeff Bezos, a terem cancelado a participação na cimeira, alegadamente por pressão da Administração Trump, não há como não perguntar a Thomas Pesquet sobre a relação com os EUA no sector do espaço. O astronauta não tem dúvidas: “O Artémis é extremamente importante, porque nos vai impulsionar para a frente”, garante sobre o programa da NASA que visa voltar a pôr humanos na Lua já em 2028. E prossegue: “Por vezes, as pessoas esquecem-se do impacto do programa Apollo [que em 1969 colocou os primeiros homens na Lua] e de como este transformou toda a sociedade americana. O efeito durou décadas.” Para o astronauta francês, o mesmo deverá acontecer agora. E isso tem de ser uma lição para a Europa. “Os EUA seguirão em frente. A China também. A questão é: a Europa quer estar à mesa ou prefere ficar sentada à parte, a assistir?”

Pesquet tira a selfie dos astronautas no Grand Palais.
Pesquet tira a selfie dos astronautas no Grand Palais.FOTO: Judith Litvine / MEAE

Reafirmando a mensagem repetida pelo presidente Macron, sobre a necessidade de maior cooperação se a Europa quer ser um player a ter em conta no espaço, Pesquet afirmou: “Queremos que a Europa faça a sua parte. A Europa é líder em muitos domínios, como o tecnológico. As nossas universidades, as nossas empresas estão entre as melhores do mundo. Precisamos de ter a ambição que corresponda a este nível de excelência técnica. Se conseguirmos uma abordagem europeia unificada à exploração espacial será uma conquista realmente importante”.

O antigo piloto militar, e também de voos comerciais na Air France, recorda que esta cooperação entre países “está um bocado no ADN” europeu. “Foi assim que construímos a parceria entre os diferentes países. É um desafio, porque nem sempre estamos de acordo. Mas acreditamos que nos leva a um novo patamar. E é por isso que queremos manter este ritmo [na exploração espacial] e incluir cada vez mais países”, diz.

Um bom exemplo dessa parceria é a Vast PAM-6, da qual Pesquet será o comandante e que no próximo ano vai levar o astronauta francês, o grego Andrianos Golemis e o checo Aleš Svoboda à ISS, numa missão comercial de curta duração organizada pela empresa do americano Jed McCaleb, em parceria com a NASA. Apesar de o objetivo inicial destas missões ser atrair “indivíduos de elevado poder de compra para adquirirem bilhetes para a ISS”, como explica Pesquet, “o turismo espacial não é algo que pratiquemos na Europa. E percebemos muito cedo que, com estas missões, seriam antes cada vez mais países a aproveitar a oportunidade. Vimos a Arábia Saudita. Vimos a Suécia. Vimos a Turquia. Vimos a Itália comprar um lugar. E descobrimos que é uma forma de os países terem acesso à ISS e ao que ela oferece, que é a investigação, de forma mais rápida e eficiente.”

E explica que se em duas semanas na ISS, “não é possível fazer o que se faz numa missão de seis meses”, ainda assim “pode fazer-se uma grande quantidade de investigação valiosa.” Sobretudo para os países europeus que já têm na ISS os seus “meios de investigação. Temos o nosso laboratório Columbus. Temos as nossas plataformas de carga. Temos todo o nosso equipamento.”

Com a crescente militarização do espaço, há quem já fale em guerra por lá. Uma ideia que Pesquet desvaloriza. “Para nós, os objetivos são apenas pacíficos. Portanto, quando as pessoas dizem que há guerra no espaço, o espaço sempre foi usado para imagens, para comunicação, para coisas deste tipo. Não houve, por exemplo, nenhuma ação vinda do espaço com o objetivo de impactar o mundo. É basicamente troca de dados. E com certeza, isso está a intensificar-se, porque o espaço é o patamar mais elevado possível.”

Aos 48 anos, dez anos depois da sua primeira ida ao espaço e prestes a regressar, Pesquet está longe de pensar na reforma. Mas até que idade se pode ser astronauta? “Todos os anos fazemos um exame médico. É um processo muito minucioso. Se a visão piorar muito, se a audição piorar muito, se acontecer alguma coisa, podemos perder a autorização médica. Portanto, não está realmente relacionado com a idade, mas sim com estes requisitos. Existe o limite de idade geral, que temos. Penso que são 62 ou 64 anos. Mas já vimos pessoas a voar aos 56, 57 anos. Desde que estejam em grande forma, não há problema. Não há qualquer contraindicação. Mas, obviamente, manter-se em boa forma exige cada vez mais esforço à medida que vamos envelhecendo”, reconhece o astronauta.

Mesmo se explica que “ir ao espaço não é coisa de jovens. Porque para ser selecionado, é preciso ter tido um emprego de alto nível, por vezes dois empregos. Temos médicos especializados em zonas remotas, e com doutoramentos em astrofísica. Se têm estas duas qualificações no currículo, têm pelo menos 35 anos.” Entre experiência prévia e preparação específica, “a maioria vai para o espaço depois dos 40 anos. Por isso, é importante podermos ir para o espaço aos 55 anos, porque senão teremos investido todo esse dinheiro em formação para apenas 10 anos de carreira.”

E o próprio Pesquet garante: “Espero poder ir ao espaço durante o maior tempo possível.”

Em Paris

O DN viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros de França

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